Capítulo 50

1626 Words
As horas passaram devagar demais. O corredor continuava o mesmo, mas o tempo ali parecia ter perdido qualquer lógica. Nicholas já não sabia dizer há quanto tempo estava sentado naquele banco duro, o corpo inclinado para frente, as mãos entrelaçadas com força, os olhos fixos em um ponto qualquer do chão. Eleanor permanecia ao seu lado. Matthias, de pé, alguns passos à frente, atento demais para alguém que também não dormira. Quando passos firmes ecoaram no corredor, Nicholas ergueu a cabeça no mesmo instante. Um médico se aproximava. Mais velho. Postura segura. Expressão controlada demais para boas notícias... ou más. — Altezas. — disse, inclinando a cabeça. Nicholas se levantou num movimento brusco. — Fale. — exigiu, sem rodeios. O médico respirou fundo. — O rei está estável. — começou. — O ferimento não foi tão grave quanto temíamos inicialmente. A bala atingiu apenas o músculo peitoral, sem comprometer órgãos vitais. O ar voltou aos pulmões de Eleanor com força. — Graças a Deus... — murmurou. — Ele acordou há pouco. — continuou o médico. — Ainda está grogue por causa da medicação para dor, mas consciente. Precisará permanecer em repouso absoluto por algum tempo. Matthias assentiu, sério. — Obrigado. — disse Eleanor, sinceramente. Nicholas também assentiu. Mas não relaxou. O maxilar continuava travado. Os ombros, rígidos. — E a Sophie? — perguntou, de repente. O médico franziu a testa. — Sophie? — repetiu, confuso. Nicholas deu um passo à frente. — Uma mulher. — disse, controlando a voz com esforço. — Jovem. Cabelos morenos. Deu entrada aqui com uma facada abaixo da costela. O que aconteceu com ela? O médico piscou, claramente pego de surpresa. — Eu... — hesitou. — Não tenho informações, alteza. Nicholas sentiu o sangue ferver. — Como assim não tem informações? — perguntou, baixo demais. — As atenções estavam voltadas para Sua Majestade. — explicou o médico, com cautela. — Em situações assim, quando alguém da casa real chega ferido, especialmente o rei... O maxilar de Nicholas se trancou de vez. — Se algo acontecer com ela... — disse entre dentes — você nunca mais exerce sua profissão neste reino. O médico empalideceu. Deu um passo involuntário para trás. — Alteza... — começou, nervoso — eu apenas fiz o meu trabalho. É o protocolo. Quando... Eleanor pousou a mão no ombro do filho, tentando conter a tempestade. — Nicholas... — murmurou. Ele não desviou o olhar. — Então agora você vai entrar lá. — disse, com o mesmo tom que Edmund usava em audiências. — E vai fazer tudo o que puder para salvar a Sophie como se ela fosse sua rainha. O silêncio caiu pesado. — Você me entendeu? — continuou. — Ou eu preciso falar de novo? O médico engoliu em seco. — Entendi, alteza. — respondeu rapidamente. — Perfeitamente. Virou-se para sair quase correndo. Mas antes que desse dois passos completos, outra voz se fez ouvir. — Alteza. Um segundo médico aproximava-se. Mais jovem. Talvez da idade de Nicholas. O jaleco simples, o rosto cansado, mas atento. Ele fez uma reverência respeitosa à família real. — Eu reparei que uma moça deu entrada com o senhor. — disse, com cuidado. — Achei que o senhor gostaria de saber. Nicholas se adiantou imediatamente. — Sophie. — disse. — O nome dela é Sophie. O médico assentiu. — Ela está estável. — informou. — A hemorragia foi contida a tempo. O senhor fez a coisa certa ao pressionar o ferimento e improvisar o curativo. Nicholas fechou os olhos por um segundo. — Ela ainda não acordou. — continuou o médico. — E ainda não sabemos quando isso vai acontecer. Mas os sinais vitais estão bons. Ela já está medicada e sob observação constante. Foi como se o corpo de Nicholas finalmente cedesse. As pernas falharam. Ele se sentou de novo no banco, levando as mãos ao rosto, o ar saindo em um suspiro irregular, pesado, carregado de tudo que ele vinha segurando havia horas. Eleanor aproximou-se e passou a mão devagar pelas costas dele, tentando amparar o que já estava quebrado demais. — Obrigada. — disse ela ao médico, com sinceridade. O homem assentiu e se afastou. Eleanor respirou fundo, então olhou para o primeiro médico, que aguardava em silêncio. — Podemos ver o rei? — perguntou. — Sim, majestade. — respondeu ele. — Já podem. Nicholas levantou o rosto lentamente. O médico se afastou pelo corredor, e o silêncio voltou a se instalar por alguns segundos. Nicholas ainda estava sentado, as mãos apoiadas nos joelhos, a respiração pesada demais para quem acabara de receber boas notícias. Eleanor foi a primeira a falar. — Você exagerou. — disse, com suavidade, mas sem deixar a frase perder peso. Nicholas ergueu o rosto, ainda tenso. — Ele deveria saber dela. — rebateu. — Como um médico diz "não sei"? Eleanor começou a caminhar, indicando com um gesto que seguissem em direção ao quarto de Edmund. — Ele não disse que não sabia. — corrigiu. — Disse que não tinha informações. Nicholas se levantou e passou a acompanhá-la. — É a mesma coisa, mãe. — insistiu. — Não saber e não ter informação dá no mesmo. — Não dá. — Eleanor respondeu, paciente. — Seu pai levou um tiro. Ele foi designado para cuidar do rei. Nicholas respirou fundo, mas não cedeu de imediato. — E daí? — E daí que você quer que um único homem cuide de todos os feridos ao mesmo tempo? — ela rebateu, parando por um instante no corredor. — Seja razoável, Nicholas. Ele suspirou, passando a mão pelo rosto. — Tá. — murmurou. — Talvez... talvez eu tenha exagerado um pouco. Matthias, que vinha alguns passos atrás, não perdeu a oportunidade. — Um pouco? — disse, soltando uma risadinha. — Você assumiu o tom do rei, meu primo. Faltou só uma coroa na tua cabeça. Nicholas virou-se para ele. — Cala a boca, Matthias. O primo riu abertamente. — Tá vendo? — provocou. — Até a ordem veio no pacote. Apesar de tudo, o clima estava mais leve. O peso não tinha desaparecido, mas já não esmagava tanto o peito de ninguém. O simples fato de ambos estarem vivos mudava o ar. Pararam diante da porta do quarto. Nicholas entrou primeiro. Depois Eleanor. Matthias foi o último. O quarto estava em penumbra. Máquinas discretas marcavam o ritmo do corpo de Edmund. Ele estava deitado, os olhos semicerrados, o rosto pálido demais para alguém acostumado a impor presença só com o olhar. Ainda assim, sorriu quando os viu. — Pensei que tinham me abandonado sozinho aqui. — murmurou, a voz baixa, arrastada pelo efeito da medicação. Eleanor aproximou-se imediatamente, sentando-se ao lado da cama. Passou os dedos com cuidado pelos cabelos do marido, agora despenteados, humanos demais e inclinou-se para beijar-lhe a testa. Ali, com aquela roupa de hospital, Edmund parecia apenas um homem. — Jamais, meu amor. — disse ela, baixo. — Nunca. Nicholas aproximou-se do outro lado da cama. — O médico disse que o tiro não foi grave. — falou, tentando manter a voz firme. — Como o senhor está se sentindo? Edmund respirou fundo. — Já tive dias piores, filho. — respondeu, com um meio sorriso. — O senhor deu um susto enorme. — comentou Matthias. Edmund soltou um suspiro curto. — Vai ficar tudo bem. — disse. — Sempre fica. Fez uma pausa, os olhos se movendo lentamente entre os três. — E o povo? — perguntou. — Alguém mais se feriu na confusão? O silêncio caiu pesado no quarto. Nicholas engoliu em seco. — Sim. — disse, por fim. — A Sophie. O sorriso de Edmund desapareceu. — A Sophie? — repetiu, confuso. — Foi esfaqueada durante a correria. — Nicholas contou. Edmund piscou algumas vezes, assimilando. — Nicholas... — disse, mais sério agora — você sabe que isso não foi acaso, não sabe? O coração de Nicholas acelerou. — Ninguém conhece a Sophie. — Edmund continuou. — Ela não é figura pública. Não tem posição política. Por que alguém a atacaria? Nicholas fechou os olhos por um instante. — Foi ele. — disse, baixo. — Foi Radovan. Ele está cumprindo a ameaça. Edmund respirou fundo. — Você não pode repetir isso em público. — alertou. — Você é o príncipe regente agora. Uma acusação desse nível... — Eu não vou falar. — Nicholas interrompeu. — Mas isso não significa que eu não saiba que foi aquele desgraçado. Edmund o observou por um segundo longo demais. — Você já colocou um guarda na porta do quarto da Sophie? Nicholas franziu a testa. — Não. O olhar de Edmund se tornou duro. — O que você está esperando? — perguntou. — Que ele mande outra pessoa para acabar o serviço? O sangue fugiu do rosto de Nicholas. — Pai... — A essa altura, Radovan já deve ter arrancado de Katarina o motivo real de você não querer esse casamento. — Edmund continuou. — E é exatamente por isso que a Sophie foi atingida. Nicholas abriu a boca. Não saiu som algum. — Enquanto ele souber que ela está viva... — Edmund concluiu — ele vai tentar de novo. Radovan não desiste do que quer, Nicholas. O silêncio ficou insuportável. — O tiro que eu levei foi um aviso. — disse Edmund, com frieza. — Contra a Sophie, não. Aquilo foi uma tentativa de eliminação. Nicholas não esperou mais. Virou-se e saiu do quarto a passos rápidos demais. — Descansa, tio. — Matthias disse, já indo atrás dele. — Eu cuido dele. Edmund fechou os olhos, exausto. Eleanor permaneceu ao seu lado, segurando sua mão com força. Do lado de fora, Nicholas caminhava como quem fugia de algo que já estava dentro dele. Porque agora ele sabia. E não havia mais tempo a perder.
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