Capítulo 12

1552 Words
Sophie m*l teve tempo de pensar antes de Nicholas segurar sua mão com firmeza e puxá-la para dentro. — Nick... — ela murmurou, quase tropeçando no próprio pé. As portas se fecharam atrás deles com um som baixo e pesado. Definitivo. O ar ali dentro era diferente. Mais frio. Mais silencioso. Um silêncio cheio de presença, de regras não ditas, de passos contidos sobre o piso impecável. O corredor era amplo, alto demais, adornado por quadros antigos, molduras douradas, tapeçarias que pareciam contar histórias que ela não conhecia e provavelmente nunca conheceria por completo. Sophie andava meio arrastada, os olhos grandes, atentos a tudo. Funcionários surgiam de todos os lados. Homens e mulheres vestidos com discrição elegante, passos precisos, posturas irrepreensíveis. Um por um, eles paravam. — Alteza. — Que bom vê-lo, Alteza. — Seja bem-vindo, Alteza. As palavras ecoavam como um refrão solene. Sophie sentia o aperto na mão dela se manter constante, seguro. Nicholas não desacelerava. Não desviava. Respondia com pequenos acenos de cabeça, um leve sorriso contido, uma presença tranquila e completamente diferente do homem que, minutos antes, segurava uma almofada no colo tentando sobreviver ao próprio corpo. Ali... ele parecia outro. Ou talvez fosse sempre aquele. E ela só estivesse vendo agora. — Eu juro... — Sophie sussurrou, inclinando-se um pouco em direção a ele — eu achei que você tava me zoando. Nicholas parou no meio do corredor. De repente, tudo ao redor pareceu parar junto. Ele se virou para ela com um sorriso calmo, quase divertido. — Você aceitou vir até aqui... e não acreditou em mim? Ela deu um meio sorriso nervoso. — No fundo? — confessou. — Eu achei que fosse uma pegadinha. Qual é a chance, Nick? O nome escapou fácil demais. Imediatamente, Sophie percebeu os olhares curiosos de dois funcionários mais próximos. Não era reprovação. Era surpresa. Nicholas riu baixo. — Bom... — aproximou-se um pouco mais dela, falando em tom casual — em público, perto da corte, você devia me chamar de Alteza. O rosto de Sophie esquentou na mesma hora. — Ai, meu Deus. Foi m*l. — Relaxa — ele respondeu, apertando de leve o braço dela. — Você está muito nervosa. — É impossível não ficar — ela rebateu, olhando em volta. — Todo mundo aqui anda como se estivesse pisando num tabuleiro de xadrez. — Eu já disse — ele sorriu — ninguém vai te m***r aqui. Ela fez uma careta. — Isso não é nada reconfortante. Antes que ele respondesse, um homem alto, de postura impecável e cabelos grisalhos bem alinhados aproximou-se e fez uma reverência respeitosa. — Alteza. Nicholas inclinou a cabeça em resposta. — Alistair. O homem voltou-se então para Sophie e fez um leve aceno de cabeça, educado, preciso. — Alistair — Nicholas explicou — este é Sophie. — Senhorita Sophie. — Oi — ela respondeu, automática demais. Alistair voltou-se novamente para Nicholas. — Alteza, seus pais o aguardam na sala de estar da casa. — fez uma breve pausa. — Deseja que eu os acompanhe? Nicholas assentiu sem hesitar. — Sim. — olhou ao redor. — Eu não conheço esta casa. Não saberia onde é. Alistair virou-se e começou a caminhar à frente. Nicholas ofereceu o braço. Sophie aceitou quase no reflexo. Agora estavam de braços dados. Ou melhor... ela estava sendo levemente rebocada por ele através daquele lugar grande demais, silencioso demais, elegante demais para não intimidar. Passaram por mais corredores, portas altas, detalhes que ela não conseguiria descrever depois. Sophie respirava fundo, tentando memorizar cada passo, cada sensação, como se isso pudesse ajudá-la a não desmaiar. Alistair parou diante de uma porta fechada. Bateu duas vezes. — Entre — a voz masculina respondeu do outro lado. O homem abriu a porta e deu um passo para o lado. — Vossa Alteza Real se encontra aqui, Majestade — anunciou com formalidade — acompanhado da senhorita Sophie. Sophie sentiu o coração disparar. O rei se levantou imediatamente. Vestia-se de forma impecável, formal, elegante sem exagero. A rainha levantou-se junto, ambos pareciam estar tendo uma conversa leve que parecia ter sido pontuada por risadas segundos antes. Os dois estavam de pé na frente do sofá. Sophie sentiu o chão desaparecer por um segundo. O olhar do rei e da rainha pousou nela ao mesmo tempo, atento, curioso, presente demais. Era como se o ar tivesse ficado mais denso. Alistair deu um passo discreto para trás, fez um leve aceno respeitoso e saiu da sala, fechando a porta com cuidado. O som seco da madeira se encaixando ecoou mais alto do que deveria. Ela começou a suar. As mãos estavam úmidas. O coração martelava no peito. Sophie percebeu, com um desespero quase cômico, que tinha esquecido até como se respirava. Os olhos permaneceram fixos neles, incapazes de desviar, incapazes de piscar. Nicholas a observou de lado. Ela estava pálida. Muito pálida. Ele deixou escapar uma risadinha baixa. — Respira, Sophie — disse, num tom quase brincalhão. Ela virou o rosto para ele por um segundo, como se estivesse sendo puxada de volta à realidade. Inspirou fundo. Uma vez. Duas. Então, endireitou a postura. Fez exatamente o que tinha ensaiado em casa. Uma inclinação delicada de cabeça, os joelhos dobrando na medida certa, elegante, contida. Perfeita demais. E disse, com a voz firme apesar do nervosismo: — É um prazer conhecê-lo, Majestade. Nicholas mordeu o lábio para não rir. Não porque estivesse errado, pelo contrário. Estava impecável. Tão impecável que chegava a ser engraçado. O rei ergueu uma sobrancelha, divertido. — Nicholas... — disse, olhando para o filho — quanto tempo você gastou ensinando a menina a fazer isso? Nicholas não aguentou. Caiu na risada. — Não muito — respondeu, entre um riso e outro. Sophie ficou ali, no meio dos dois, sem entender absolutamente nada, só ouvindo pai e filho rirem como se compartilhassem uma piada interna. — Ora, Nicholas — o rei balançou a cabeça — você é mesmo um moleque. Antes que Sophie pudesse se afundar ainda mais no constrangimento, a rainha deu um passo à frente. — Chega, vocês dois — disse Eleanor, com firmeza suave. — Não estão vendo que a menina está confusa? Nicholas se recompôs, respirando fundo. — Brasileiros não se curvam, meu amor — explicou, agora com um tom claramente carinhoso, performático demais para não ser notado. — Isso não faz parte da cultura de vocês. Sophie piscou. — Como assim? — Ninguém espera isso aqui — ele continuou. — Não era necessário. O rei completou, estendendo a mão para ela: — Basta um aperto de mão. Sophie hesitou só um segundo antes de apertá-la com delicadeza. — Ah — ela soltou, aliviada demais para disfarçar. Virou-se imediatamente para Nicholas. — Você é mesmo um i****a, Nicholas! — reclamou. — Por que não me disse isso antes? Ele riu. — Eu até tentei — defendeu-se. — Mas você estava tão nervosa que não ia ouvir mesmo. Ela deu um t**a leve no braço dele. Nicholas arregalou os olhos, teatralmente sério. — Ei — disse — está batendo em Vossa Alteza Real na frente de Vossa Majestade. Isso é coragem, sabia? Ele virou-se para o rei. — Pai, joga ela na masmorra. Sophie arregalou os olhos, horrorizada. — O quê?! Nicholas caiu na gargalhada junto com o rei. Eleanor tentou se manter séria... tentou. Mas deixou escapar uma risada curta. — Chega disso, seus engraçadinhos — ela disse, dando um passo à frente. — Vem cá, minha filha. Deixa esses dois aí. Ela puxou Sophie com suavidade pelo braço e a conduziu até o sofá onde estava sentada antes. Pegou um copo de água da mesinha à frente e colocou nas mãos dela. — Toma. Bebe. Você está muito nervosa. Sophie olhou para o copo... depois para a rainha. A própria rainha tinha acabado de lhe servir água. — Obrigada... — murmurou, ainda em choque. Nicholas se aproximou, sorrindo. — Viu? — disse. — Eu te falei. São só pessoas normais. O rei franziu a testa atrás deles. — O que achou que a gente era? Sophie ficou vermelha. Nicholas respondeu por ela, rápido demais: — Deuses do Olimpo prontos pra jogar um raio na cabeça dela. Os dois reis riram. Sophie lançou um olhar fulminante para ele. — Nick... já deu, né? Ele levantou as mãos em rendição. — Tá bom, desculpe. — Nick? — a rainha repetiu, curiosa. Sophie travou outra vez. — Ah... — pigarreou. — Alteza, eu... — Aqui não precisa disso — Nicholas interrompeu. — Eu disse "em público". Aqui estamos em família, Soph. Ela respirou fundo. — É muita coisa pra lembrar — confessou. — Até agora eu só paguei mico. O rei sorriu com genuína simpatia. — Nada disso — disse. — Você é adorável. Meu filho é que parece não ter amadurecido o suficiente ainda. Sophie deixou escapar uma risadinha tímida. — Bom — o rei continuou — passados os m*l-entendidos... que tal começarmos outra vez? Nicholas assentiu, ainda sorrindo. — Pai, mãe — disse — essa é Sophie, minha namorada. Sophie — completou — esses são Edmund e Eleanor. Ela olhou para os dois, agora com um sorriso verdadeiro, mais calmo. — É um prazer conhecer vocês. De verdade. E, pela primeira vez desde que tinha entrado naquela casa, Sophie sentiu que talvez... só talvez... ela fosse sobreviver àquilo tudo.
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