A água escorria pelos ombros de Sophie, deslizando lenta pelas costas, pelos braços, pelo ventre. O vapor embaçava o pequeno banheiro, criando uma bolha silenciosa onde o mundo lá fora parecia distante demais para alcançá-la.
Ela apoiou a testa nos azulejos por um instante, fechando os olhos.
E sorriu.
Um sorriso pequeno, quase incrédulo.
Nicholas.
Ou melhor... Nick.
A lembrança veio sem pedir licença: o jeito como ele se aproximara, a voz baixa, a pergunta repetida com cuidado demais para ser casual. Você não gostaria de me beijar, Sophie?
O coração dela deu um salto só de lembrar.
Ela passou o sabonete pelos braços devagar, sentindo a pele arrepiar sob o toque. Mordeu o lábio inferior quando a memória do beijo se impôs com mais força, calmo, delicado, seguro. Um beijo que não pediu nada, mas prometeu tudo.
— Meu Deus... — murmurou, quase rindo de si mesma.
Nunca o quis assim. Nunca se permitira.
Ele era seu chefe. Sempre fora. O homem correto demais, educado demais, distante na medida certa. Sophie o respeitara desde o primeiro dia, colocara limites claros, silenciosos, porque sabia onde estava pisando.
Mas agora...
Agora ele era seu namorado.
Mesmo que de mentira.
Um príncipe.
Ela inclinou a cabeça para trás, deixando a água bater no rosto, no pescoço, escorrendo pelo corpo enquanto se ensaboava com movimentos lentos demais para serem distraídos. O pensamento era traiçoeiro.
Lindo.
Divertido.
Gentil.
E beijava muito bem.
Sophie sentiu um arrepio involuntário percorrer-lhe a espinha.
— Deixa de ser doida... — sussurrou para si mesma, balançando a cabeça.
Abriu os olhos, encarando o reflexo embaçado no espelho.
— Ele é um príncipe. — repetiu, como se aquilo fosse um freio. — Não pode... e não vai ficar com você de verdade.
Mas o corpo não escutava a razão com a mesma facilidade.
Enquanto se lavava, os pensamentos escapavam do controle. As mãos que deslizavam pela pele não pareciam mais as suas. Por um instante perigoso, eram as dele. Firmes. Quentes. Seguras demais para serem apenas imaginação.
A respiração falhou.
Ela inspirou fundo, sentindo o peito subir rápido demais, e então parou. Apoiada na parede, fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar os pensamentos de volta para onde vieram.
— Para. — murmurou, ofegante. — Para agora.
Respirou de novo. Mais devagar.
Era loucura. Tudo aquilo era loucura. O beijo, o pedido, o rei, o vestido, o encontro iminente com um mundo que não era o dela.
Mas, ainda assim...
Um sorriso voltou a surgir no canto da boca.
Porque, por mais absurda que fosse aquela situação, por mais impossível que tudo parecesse, uma verdade simples se impunha, teimosa:
Ela queria beijá-lo de novo.
Sophie desligou o chuveiro, pegou a toalha e respirou fundo antes de sair.
Era hora de parar de sonhar.
Pelo menos por enquanto.
**
A porta do quarto se abriu devagar.
Nicholas, sentado no sofá da sala, fingia prestar atenção em um quadro abstrato pendurado na parede oposta. Já tinha analisado cada cor, cada linha torta, cada pincelada invisível, tudo na tentativa inútil de manter a mente longe do que acontecia do outro lado da porta.
Quando Sophie apareceu, ele quase engoliu em seco.
O vestido longo caía leve sobre o corpo dela, acompanhando as curvas sem marcar demais. O tecido claro parecia ainda mais elegante com as sandálias baixas, simples e delicadas. O cabelo estava preso em um coque baixo, discreto, deixando o pescoço à mostra de um jeito perigosamente bonito. A bolsa pendia de lado, completando a imagem com naturalidade.
Ela parecia... pronta.
Não arrumada.
Não fantasiada.
Pronta.
Nicholas sentiu o corpo reagir antes que tivesse qualquer chance de controle. A respiração falhou por um segundo, e, num reflexo quase desesperado, puxou uma almofada e a posicionou no colo, como se aquilo pudesse resolver alguma coisa.
Não resolveu.
— Que foi, Nicholas? — Sophie perguntou, divertida, notando o gesto estranho.
Ele pigarreou, desviando o olhar.
— Nada.
— Nada tipo... nada mesmo? — ela insistiu, aproximando-se um pouco mais.
— Só... — ele respirou fundo — preciso de um tempo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Um tempo pra quê?
— Pra respirar — respondeu, seco demais para ser casual. — Você tá com pressa?
Sophie riu, um riso leve, e se sentou no sofá à frente dele, cruzando as pernas com calma.
— Não estou — disse. — Mas então... gostou do visual?
Nicholas levantou os olhos devagar. Olhou de verdade agora. O coque, o vestido, o jeito como ela ocupava o espaço com uma confiança tranquila.
Engoliu em seco.
— Tá linda, Sophie.
Ela sorriu, satisfeita demais para esconder.
— Você tá estranho.
— Eu agradeceria muito se você me deixasse em paz por um instante — ele pediu, sem dureza nenhuma.
Sophie riu outra vez, se levantando.
— Ok.
Ela virou de costas, indo em direção à porta, sabendo exatamente o que tinha causado. E sorrindo por dentro, com a constatação silenciosa de que talvez ele a desejasse quase tanto quanto ela o desejara no banho.
Alguns segundos depois, Nicholas se levantou de uma vez.
— Ótimo. Vamos.
Ela o analisou de cima a baixo, segurando o riso.
— Claro. Vamos.
Sem comentários. Sem provocações. Sem precisar dizer nada.
Sophie trancou a porta e o portão e, ao pisar na calçada, olhou para os lados com curiosidade exagerada.
— Ué... nada de carruagem real? — disse, teatral. — Confesso que tô decepcionada.
Nicholas caiu na risada.
— Carruagem? — balançou a cabeça. — Você acha que a gente vive no século passado, Sophie? Tem carros em Auren, sabia?
— Não — ela respondeu, sincera. — Como eu saberia? Eu confesso que Auren não me parece nome de nada moderno.
— Nesse ponto, eu concordo — ele riu. — Mas temos energia elétrica, tecnologia, carros, internet... tudo isso. Só que também seguimos regras antigas.
Ele fez sinal para um táxi, que parou logo à frente.
— Por exemplo?
— Cavalos na corte — respondeu, abrindo a porta para ela entrar. — O chanceler, além de enviar e-mails, vez ou outra manda cartas com selo real.
— Cartas? — Sophie arregalou os olhos enquanto ele dava o endereço ao motorista.
— É. — Ele sorriu. — Às vezes é de bom tom. Convites para bailes, essas coisas.
— Bailes? — ela repetiu, interessada.
— Festas em salões quentes, cheios de gente que resolve dançar em par — explicou. — Bailes.
Sophie riu.
— Tipo Bridgerton?
Nicholas gargalhou.
— Quase isso. Só que lá tudo é muito exagerado. Vestidos, penteados... exagero puro.
— Eu consigo imaginar — ela disse, sorrindo.
Ele a olhou de lado.
— Se quiser conhecer, eu te levo lá.
Sophie franziu a testa, balançando a cabeça.
— Não saberia viver em Auren.
— Apesar de tudo — ele deu de ombros — é um lugar muito bonito. Tem muita natureza, o ar é mais fresco... e o inverno ajuda a suportar a quantidade absurda de roupas formais que exigem.
— Inverno? — os olhos dela brilharam. — Neva?
— Neva.
— Eu sempre quis ver neve.
— A expectativa é bem diferente da realidade — ele avisou, rindo. — Já te aviso logo.
Ela riu também.
O silêncio se instalou por alguns instantes, até Nicholas quebrá-lo:
— Estamos quase chegando.
O coração de Sophie acelerou. As mãos começaram a suar.
— Eles vão me avaliar, né?
— Vão — ele respondeu, simples.
— Assim... sem mais nem menos?
— Sim.
— E eles vão estar usando coroas?
Nicholas riu.
— Não.
— Por que você riu? — ela protestou. — Não é uma pergunta absurda.
— Coroas só em eventos oficiais — explicou. — O que vai acontecer é só uma conversa. Pais, filho... e uma nora. Relaxa — ele completou.
— Impossível — Sophie murmurou.
O táxi parou.
Nicholas pagou, saiu primeiro e estendeu a mão para ela. Quando Sophie desceu, ergueu o olhar... e ficou completamente sem palavras.
A mansão era enorme. Imponente. Elegante demais para parecer real.
— Meu Deus... — escapou, de boca aberta.
Os seguranças à porta reconheceram Nicholas imediatamente. Endireitaram a postura e fizeram uma reverência respeitosa.
Sophie engoliu em seco.
Era tarde demais para fugir.