Nicholas caminhava rápido pelo corredor quando percebeu que Matthias ainda vinha logo atrás.
Parou de repente, virando-se para ele.
— Preciso que chame dois guardas. — disse, baixo, mas firme. — Agora. Quero um em cada lado da porta do quarto dela. Ninguém entra sem a minha autorização.
Matthias não questionou.
— Já vou. — respondeu, sério.
Virou-se imediatamente, os passos ecoando apressados pelo corredor.
Nicholas respirou fundo.
Só então empurrou a porta.
O quarto estava em penumbra, iluminado por uma luz suave que não agredia os olhos. O cheiro de antisséptico era leve ali dentro, quase imperceptível. Sophie estava deitada, coberta até a cintura, os cabelos morenos espalhados pelo travesseiro branco. O rosto pálido parecia ainda mais frágil naquele silêncio absoluto.
Ela respirava.
Regular. Suave.
Aquilo foi o suficiente para fazer o peito dele ceder.
Nicholas fechou a porta atrás de si sem fazer barulho e aproximou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrá-la. Parou ao lado da cama por um instante longo demais, apenas olhando.
Ela parecia pequena.
Indefesa de um jeito que doía.
Ele puxou a cadeira e sentou-se, com cuidado. Estendeu a mão devagar e envolveu a dela entre as suas. Estava quente. Viva.
Os dedos dele tremeram.
Com a outra mão, afastou uma mecha de cabelo do rosto dela, num gesto automático, íntimo demais para ser pensado. O polegar deslizou com carinho pela têmpora, pela testa.
Nicholas inclinou-se e beijou sua testa com cuidado.
O gesto o atingiu no mesmo instante.
Era exatamente o que sua mãe tinha feito com o pai minutos antes.
Ele fechou os olhos, sentindo a garganta apertar.
— Eu amo você.
As lágrimas vieram silenciosas, escorrendo sem que ele tentasse contê-las.
— Engraçado... — murmurou, a voz baixa, falhando. — Eu já disse isso tantas vezes para o meu pai... mas nunca disse para você, não é?
Apertou a mão dela com mais força, como se precisasse daquele contato para continuar.
— Eu te amo, Sophie. — disse, finalmente. — Eu amo você.
Uma lágrima caiu sobre o lençol.
— Me perdoa. — continuou, com a voz embargada. — Por ter te colocado nessa situação. Por não ter acreditado no perigo. Por achar que dava para desafiar alguém assim sem consequências.
Respirou fundo, tentando recuperar o controle.
— Por não... — a frase morreu antes de terminar.
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado, quebrado demais para organizar tudo o que sentia.
— Não tem mais para onde correr, meu amor. — disse, depois de um momento. — Eu quis acreditar que tinha escolha. Juro que quis. Mas nunca tive.
Acariciou os cabelos dela novamente, com cuidado extremo.
— Eu sei que vou amar você sempre. — murmurou. — Mesmo quando não puder estar com você do jeito que eu queria.
A voz ficou mais firme.
Mais decidida.
— Mas você não precisa mais se preocupar. — disse. — Eu vou te proteger agora. Eu prometo.
Inclinou-se mais uma vez, encostando a testa na dela por um breve segundo.
— Ninguém mais vai tocar em você. — sussurrou. — Nunca mais.
Nicholas ficou ali por mais alguns minutos.
Sem falar.
Sem pensar.
Apenas observando o ritmo da respiração dela, memorizando cada detalhe do rosto que ele amava mais do que jamais admitira em voz alta.
**
Dois dias depois do atentado, o hospital já não parecia um campo de guerra.
O movimento era menor. Mais controlado. Guardas permaneciam nos corredores, mas agora em silêncio, atentos. O ar ainda carregava tensão, mas havia espaço para respirar.
Nicholas caminhava em direção ao quarto do pai quando alguns olhares se voltaram para ele.
Não era apenas por quem ele era.
Era por como ele estava.
A farda era diferente.
Ainda escura, ainda sóbria, mas mais rígida nos ombros, menos ornamental. O brasão real aparecia completo no peito, não como herdeiro, mas como regente. A faixa cruzava o torso com discrição austera, e a espada cerimonial repousava ao lado do corpo, não por vaidade, mas por função.
Não era a farda do rei.
Mas também já não era a do príncipe que esperava.
Nicholas entrou no quarto.
Eleanor estava sentada ao lado da cama, conversando em voz baixa com Edmund. O rei parecia visivelmente melhor. Mais cor no rosto. Os olhos atentos. O corpo ainda limitado, mas presente.
Nicholas parou a poucos passos.
— Como está se sentindo? — perguntou, direto.
Edmund ergueu o olhar.
E o que viu fez algo silencioso se acomodar dentro dele.
O filho estava sério. Elegante. Inteiro.
No lugar certo.
— Melhor. — respondeu apenas.
Nada mais.
Mas o olhar dizia tudo.
Eleanor se levantou, aproximando-se de Nicholas.
— Ele teve uma noite tranquila. — completou. — Sem dores fortes.
Antes que qualquer outra palavra fosse dita, a porta se abriu.
Um médico entrou, com uma prancheta nas mãos.
— Majestade. — disse, inclinando levemente a cabeça, dirigindo-se automaticamente a Edmund.
— Fale comigo, como ele está? — Nicholas disse.
A voz não foi alta.
Foi exata.
O médico hesitou por um segundo, então virou-se para ele.
— O rei evolui bem. — explicou. — O ferimento cicatriza como esperado. Ainda precisa de repouso, monitoramento cardíaco e controle rigoroso da dor...
— Ótimo. — Nicholas interrompeu. — Porque eu vou levar meu pai para casa hoje.
O médico piscou.
— Alteza... — começou — talvez não seja a melhor ideia. O ambiente hospitalar...
— Cabe a mim decidir isso. — Nicholas cortou, sem alterar o tom.
O médico respirou fundo, insistindo.
— Mesmo com segurança reforçada, aqui temos acesso imediato a...
— Aqui qualquer pessoa entra. — Nicholas rebateu. — Mesmo com protocolos. Mesmo com vigilância.
Deu um passo à frente.
— No castelo, eu controlo cada acesso. Cada rosto. Cada corredor. — disse. — A segurança do rei é prioridade absoluta.
O médico virou-se instintivamente para Edmund, buscando apoio.
Nicholas percebeu.
— Olhe para mim. — ordenou.
O médico congelou por um instante.
Obedeceu.
— Eu sou o príncipe regente. — Nicholas continuou. — Quem governa agora sou eu. Não discuta comigo por cima do meu ombro.
O silêncio ficou pesado.
— Prepare meu pai para a transferência. — disse. — Já contratei uma equipe médica particular. Os equipamentos necessários estão sendo trazidos. Ele terá monitoramento constante.
O médico assentiu, finalmente.
— Sim, alteza.
Nicholas não terminou.
— Prepare também a Sophie.
O médico ergueu o olhar, surpreso.
— Ela irá conosco. — Nicholas completou. — E antes que pense em rebater... eu já disse: quem decide sou eu.
Fez uma pausa curta.
— Apenas cumpra a ordem que recebeu.
O médico se curvou, mais profundamente dessa vez.
— Como desejar, alteza.
Saiu apressado.
Assim que a porta se fechou atrás do médico, o silêncio voltou ao quarto.
Nicholas soltou um suspiro longo, passando a mão pelo rosto pela primeira vez desde que entrara.
— Se eu não me impor... — disse, num tom mais cansado do que irritado — tem gente que acha que eu não estou falando sério, sabia?
Edmund segurou o riso por um segundo.
Falhou.
— Uau. — comentou, divertindo-se. — Isso foi estranho.
Nicholas virou-se para ele, ainda sério.
— O quê exatamente?
Edmund apoiou a cabeça melhor no travesseiro.
— Faz muito tempo que eu não vejo alguém decidindo a minha vida sem me dar espaço para opinar. — disse. — Confesso que foi... uma experiência nova.
Nicholas arqueou uma sobrancelha.
Então sorriu.
— Gostou, foi? — provocou. — É para você ver como eu me sinto o tempo todo.
Edmund riu baixo, balançando a cabeça.
— Larga de ser b***a. — respondeu. — Eu também já fui príncipe, não esquece.
— Não por muito tempo. — Nicholas rebateu. — O meu avô morreu cedo. Não deu tempo de o senhor ser um adulto sem opiniões próprias, igual eu sou.
Edmund abriu a boca para responder, mas Nicholas foi mais rápido.
— Mas pode deixar, coroa. — completou, com um meio sorriso perigoso. — Vou te transformar em um adulto sem opinião própria nas próximas semanas.
Edmund virou o rosto devagar para Eleanor.
— Está ouvindo isso? — perguntou, incrédulo e claramente se divertindo. — Olha o nosso filho ameaçando o rei.
Nicholas cruzou os braços.
— Estou ameaçando o meu pai, não o rei. — corrigiu. — Até porque o rei está de repouso... e este é oficialmente o meu momento de brilhar.
Edmund soltou uma gargalhada, sincera.
— Não é possível... — disse, entre risos. — Esse moleque está gostando demais do meu poder, Eleanor.
Ela cruzou os braços, um sorriso contido nos lábios.
— Não era exatamente isso que você queria, meu amor?
Edmund respirou fundo, ainda sorrindo.
— Era. — admitiu. — E estou muito orgulhoso, filho.
O tom ficou um pouco mais sério.
— É bom saber que, se eu morrer... você vai assumir tudo.
O sorriso de Nicholas sumiu na hora.
— Ei. — disse, imediatamente. — Nada disso.
Edmund ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Eu não estou pronto para assumir tudo para sempre, não. — respondeu. — Uma coisa são algumas semanas. Outra é esse pessoal por aí me chamando de majestade.
Fez uma careta.
— Então nada de morrer agora, por favor.
Edmund riu outra vez, balançando a cabeça.
— Pode deixar. — disse. — Vou tentar sobreviver só para te poupar desse trauma.
Eleanor aproximou-se da cama, segurando a mão do marido com carinho.
— Vocês dois... — murmurou, com um sorriso emocionado.
Ali, naquele quarto simples de hospital, entre piadas tortas e ameaças vazias, não havia rei, nem regente.
Só um pai, um filho... e a certeza silenciosa de que, apesar de tudo o reino ainda estava em boas mãos.