O gabinete permaneceu em silêncio por alguns segundos depois que a porta se fechou atrás de Nicholas.
O som seco ecoou pela sala como um ponto final.
Radovan foi o primeiro a se mover. Andou alguns passos, a capa pesada roçando o chão de pedra, o rosto tomado por uma fúria m*l contida.
— Seu filho é um insolente. — disse, enfim, cuspindo as palavras. — Quem esse moleque pensa que é para me afrontar daquela maneira?
Edmund respirou fundo antes de responder. Estava pálido, mas manteve a postura.
— Nicholas é jovem. — disse, controlado. — Idealista demais, talvez. Mas eu vou conversar com ele. Ele não vai cumprir isso.
Radovan soltou uma risada curta, sem humor.
— Conversar? — repetiu. — Edmund... já ficou claro há muito tempo que você não controla esse menino.
Edmund se levantou lentamente da poltrona, o movimento cuidadoso denunciando o esforço físico que ainda fazia.
— Se eu não tivesse levado um tiro, Radovan, — disse, com firmeza — Nicholas não teria se tornado príncipe regente. E muito menos teria tido tempo de arquitetar esse tipo de afronta.
O olhar dele endureceu.
— Eu já tinha dado um ultimato. Ele ia se casar.
Radovan estreitou os olhos.
— Está insinuando, assim como seu filho, que fui eu quem mandou atirarem em você?
Edmund lançou um olhar rápido para Eleanor.
Um olhar que dizia tudo sem dizer nada.
Depois sorriu de leve, cansado.
— Estou dizendo que ele ficou ainda mais arredio depois do atentado contra mim... e contra Sophie.
O nome caiu na sala como algo proibido.
Katarina empalideceu visivelmente.
— Sophie? — perguntou, confusa. — O que aconteceu com ela? Eu não sabia que... quero dizer, o atentado contra Vossa Majestade foi noticiado, mas...
— Quem se importa? — Radovan cortou, sem sequer olhar para a filha. — Se a amante do príncipe morreu, isso é irrelevante.
Katarina sentiu o chão sumir sob os pés.
— Meu pai... — disse, a voz trêmula — Sophie não era amante de Nicholas, ela era...
— Era o quê? — Radovan a interrompeu, agora olhando diretamente para ela. — Você é noiva dele desde antes de nascer. O simples fato dessa garota ter estado neste castelo já foi um desrespeito.
Virou-se para Edmund.
— Um desrespeito que você permitiu, Edmund.
Edmund suspirou.
— Concordo que foi um erro. — disse. — Mas isso não está mais em discussão.
Fez uma pausa.
— Sophie não morreu.
Radovan congelou.
Por uma fração de segundo, a surpresa escapou do controle do rosto dele.
— Como assim não morreu?
Eleanor falou, firme:
— Ela está viva. — disse. — Inconsciente desde o atentado, mas viva.
Radovan desviou o olhar, murmurando algo baixo demais para ser claramente ouvido. Algo que soou como irritação. Como frustração.
Ninguém comentou.
— De qualquer maneira, — ele retomou — isso não me serve de nada se ele casar e não fizer um herdeiro.
Edmund assentiu, sério.
— Eu sei. — disse. — A ausência de um herdeiro afeta Auren também. Eu já disse que vou conversar com ele.
Radovan bufou, impaciente.
Então virou-se para Katarina.
O olhar que lançou à filha não tinha nada de paternal.
— Você vai ter que dar o seu jeito. — disse.
Katarina engoliu em seco.
— O... o meu jeito? — perguntou, confusa. — O que o senhor quer dizer?
Radovan a encarou como se ela fosse lenta.
— Ele é um homem. — disse. — Não existe isso de passar a vida inteira sem tocar numa mulher.
Katarina sentiu o rosto queimar.
— Mas... — hesitou — como eu... o que o senhor espera que eu faça?
Radovan revirou os olhos, irritado.
— Você é uma mulher. — respondeu. — Use isso.
Ela ficou em silêncio.
O desconforto era visível agora. A respiração curta. As mãos apertadas uma contra a outra.
— Eu... — começou — eu não entendo.
Radovan suspirou, impaciente.
— Essa inocência que exigem das princesas sempre me irritou. — disse. — Você vai fazer o que aquela garota do Brasil claramente já fez.
Edmund se ergueu de imediato.
— Radovan, pelo amor de Deus. — disse, tenso. — Você não precisa falar assim.
Radovan riu.
— Estou mentindo? — perguntou.
O olhar voltou-se para Katarina.
— Foi por isso que ele se apaixonou. — completou.
Katarina sentiu o estômago revirar.
— Eu posso explicar a ela. — Eleanor disse de repente, a voz firme, quase cortante. — Não é necessário...
Radovan ergueu a mão, cansado.
— Faça como quiser. — disse. — Desde que ela entenda o que precisa ser feito.
Virou-se novamente para a filha, agora sem paciência alguma.
— Você vai engravidar, Katarina. — declarou. — Como eu disse antes. Dê seu jeito.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Katarina permaneceu parada, os olhos baixos, o corpo rígido demais para alguém tão jovem.
Naquele instante, ela entendeu duas coisas com clareza dolorosa:
Que seu pai nunca a veria como filha.
E que o casamento que a aguardava não era uma promessa de futuro.
O gabinete parecia ainda mais frio depois que Radovan saiu.
O silêncio que ficou não era de alívio. Era de escombros.
Katarina permaneceu de pé por alguns segundos, imóvel, como se o corpo ainda não tivesse entendido que já podia se mover. Então os ombros cederam. As lágrimas vieram sem aviso, silenciosas, pesadas.
— Eu... — começou, mas a voz falhou. — Eu não entendi bem...
Eleanor a observava com atenção desde o primeiro instante. Aproximou-se devagar.
— Edmund... — disse, sem tirar os olhos da jovem. — Você pode nos dar um momento?
Edmund assentiu imediatamente. Levantou-se com cuidado, apoiando-se no braço da poltrona.
— Consigo chegar ao quarto sozinho. — garantiu, num tom tranquilo.
Eleanor aproximou-se e lhe deu um beijo rápido na testa.
— Vá devagar. — pediu.
Antes de sair, Edmund voltou-se para Katarina.
— Você vai ficar bem. — disse, com um sorriso gentil. — Está nas mãos da mulher mais carinhosa deste reino, minha filha.
Katarina conseguiu sorrir de volta, enxugando o rosto com cuidado.
Quando a porta se fechou, restaram apenas as duas.
Eleanor foi até ela e tomou-lhe a mão com naturalidade, sem cerimônia, como se aquele gesto fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Venha. — disse, guiando-a até uma das poltronas. — Vamos nos sentar.
Katarina obedeceu, os dedos ainda trêmulos dentro dos dela.
Por alguns segundos, Eleanor não disse nada. Apenas permaneceu ali, próxima, presente. Esperou a respiração da jovem desacelerar um pouco.
— Sua mãe nunca conversou com você sobre isso, conversou? — perguntou por fim, com suavidade.
Katarina balançou a cabeça.
— Não. — respondeu. — Eu vim para Auren aos quinze anos... e depois disso... — deu de ombros — nunca saí muito do castelo além dos compromissos oficiais. A senhora sabe. Eu não tenho amigas.
Hesitou.
— Bom... só a Sophie. — acrescentou, quase envergonhada. — Mas acho que não seria de bom tom perguntar a ela... o que ela fez com o Nicholas.
Eleanor soltou uma risada baixa, breve.
— Não. — disse, sorrindo. — Realmente não seria uma boa ideia.
O clima pareceu aliviar um pouco.
Eleanor então ficou séria outra vez, mas não dura. Apenas honesta.
— Katarina... — começou — ninguém tem o direito de exigir que você faça algo com o seu corpo que não esteja pronta para fazer.
A jovem ergueu o olhar, surpresa.
— Mas meu pai disse que eu...
— Seu pai fala a partir do medo e do controle. — Eleanor a interrompeu, firme, mas sem elevar a voz. — Eu falo como mulher. E como alguém que ama o Nicholas.
Fez uma pausa.
— Tudo precisa acontecer de forma natural. — continuou. — Não se força afeto. Não se força i********e. E, acima de tudo... não se força um corpo.
Katarina engoliu em seco.
— Então... se eu não conseguir... — murmurou.
— Você não precisa se sentir culpada. — Eleanor respondeu imediatamente. — Nós sabemos o quanto o Nicholas é difícil. E sabemos o quanto ele ama a Sophie.
A palavra foi dita sem julgamento. Sem desprezo.
Katarina abaixou os olhos.
— Ele vai precisar de tempo. — Eleanor continuou. — E você precisa conceder esse tempo a ele. A paciência é a chave, minha filha.
Houve um silêncio breve.
— Então... eu não faço nada? — Katarina perguntou, a voz baixa, mas sincera. — Sabe, Eleanor... eu quero ser mãe. Não é só porque meu pai quer um herdeiro. Eu quero mesmo um bebê.
Ela levou a mão ao próprio ventre, num gesto instintivo.
— Eu sempre quis.
Eleanor sorriu com ternura.
— Eu sei. — disse. — Dá para ver nos seus olhos.
Apertou levemente a mão dela.
— E o Nicholas vai cair em si. — continuou. — Ele é teimoso, impulsivo... mas não é c***l. Um dia, ele vai perceber que tudo isso é uma loucura.
Inclinou-se um pouco mais, fazendo Katarina erguer o rosto.
— Até lá, confie em si mesma. — disse. — Ouça o seu corpo. Respeite os seus limites. Você não precisa se apagar para cumprir um dever.
Katarina assentiu devagar.