A transferência aconteceu no fim da tarde.
Sem anúncios.
Sem sirenes.
Sem curiosos.
O hospital foi esvaziado aos poucos, os corredores foram liberados apenas para a equipe médica designada e para a segurança real. Guardas posicionaram-se em cada acesso, formando um caminho silencioso até a saída lateral, longe da entrada principal.
Nicholas estava em todos os lugares ao mesmo tempo.
Conferiu a equipe médica particular que chegara mais cedo. Confirmou os equipamentos portáteis, os monitores, os medicamentos. Falou com os chefes da segurança, revisou rotas, alterou horários. Nada escapava ao seu olhar atento.
Não havia pressa.
Havia controle.
Edmund foi o primeiro a ser preparado.
Eleanor permaneceu ao lado do marido o tempo todo, segurando-lhe a mão enquanto os enfermeiros ajustavam os fios, acomodavam os travesseiros, verificavam os sinais vitais. O rei estava acordado, consciente, ainda pálido, mas sereno.
— Parece que estou sendo escoltado para o exílio. — murmurou, tentando brincar.
— Está sendo escoltado para casa. — Eleanor corrigiu, inclinando-se para ajeitar-lhe o cobertor. — Onde deveria estar desde o começo.
Edmund sorriu, cansado.
— Nosso filho não deixou espaço para discussão. — comentou.
— Ainda bem. — ela respondeu.
Nicholas apareceu à porta por um instante.
Os olhos do pai encontraram os dele.
Não disseram nada.
Não precisaram.
Edmund foi levado com cuidado até a ambulância discreta, escoltada por dois veículos de segurança. Eleanor entrou logo atrás, acomodando-se ao lado dele, a mão firme sobre a dele, como se aquilo fosse suficiente para mantê-lo ali.
Nicholas observou até a porta se fechar.
Só então virou-se.
Caminhou até o outro extremo do corredor.
O quarto de Sophie estava silencioso.
Ela já estava pronta quando ele entrou. Os fios organizados, o monitor portátil marcando o ritmo constante do coração. O rosto ainda pálido, mas tranquilo. Os cabelos escuros cuidadosamente afastados do rosto.
Nicholas aproximou-se da maca.
— Vamos. — murmurou, baixo. — Já está tudo pronto.
Passou os dedos de leve pela mão dela antes que os enfermeiros começassem a empurrar a maca. Não se afastou nem um passo.
— Com cuidado. — disse, firme. — Qualquer alteração, me avisem na hora.
— Sim, alteza. — responderam.
Diferente do pai, Sophie não tinha uma comitiva visível.
Tinha Nicholas.
Ele caminhava ao lado da maca, atento a cada movimento, cada som do monitor, cada respiração. Ajustou o cobertor quando ele escorregou um pouco. Tocou-lhe a mão de novo quando passaram por uma porta mais estreita.
Quando chegaram ao veículo destinado a ela, Nicholas subiu junto.
Sentou-se ao lado da maca, o olhar fixo nela, a postura rígida apenas na aparência. Por dentro, tudo estava concentrado ali.
— Estou aqui. — disse, quase inaudível. — Não vou sair.
A porta se fechou.
O comboio começou a se mover.
À frente, o carro com o rei e a rainha.
Logo atrás, o veículo com Sophie e o príncipe regente.
A chegada ao castelo aconteceu sem cerimônia.
Os portões se fecharam atrás do comboio com um peso diferente daquela vez. Não era retorno triunfal, nem recolhimento estratégico, era p******o. Guardas se espalharam pelo pátio interno, ordens foram dadas em voz baixa, médicos e enfermeiros particulares atravessaram os corredores com passos rápidos e eficientes.
Edmund foi instalado em seus aposentos imediatamente.
O quarto estava arejado, as janelas abertas para os jardins internos, a cama preparada para longos dias de repouso. Eleanor não saiu de perto nem por um instante, supervisionando tudo com atenção quase silenciosa, mas firme.
Sophie ficou em um quarto próximo.
Nicholas fez questão disso.
Queria distância suficiente para preservar o silêncio... e proximidade suficiente para correr até ela se fosse preciso. Dois guardas permaneceram à porta. Médicos designados exclusivamente para ela. Turnos dobrados.
Tudo sob controle.
Ou o mais próximo disso.
Nicholas m*l teve tempo de observar tudo funcionando antes de ser puxado para fora outra vez, reuniões rápidas, relatórios de segurança, mensagens que precisavam ser respondidas, decisões que ninguém mais ousava adiar.
Quando o dia finalmente cedeu à noite, ele voltou para o castelo com o corpo pesado e a mente em constante alerta.
Antes do jantar, foi até o quarto do pai.
As luzes estavam baixas. Edmund estava acordado, recostado entre travesseiros, agora com aparência muito mais firme do que no hospital. Eleanor estava sentada ao lado da cama, uma xícara de chá esquecida nas mãos, conversando com ele em voz baixa.
Quando Nicholas entrou, os dois olharam na mesma hora.
— Olha só... — Nicholas comentou, encostando-se ao batente da porta. — Agora o senhor parece muito mais vivo.
Edmund sorriu de leve.
— São as paredes do castelo. — respondeu. — Elas fazem isso comigo.
Nicholas entrou de vez, cruzando os braços.
— Então acertei. — disse. — Que bom saber que ao menos uma decisão minha nessa regência foi correta.
Eleanor inclinou a cabeça, observando o filho com atenção silenciosa.
— Não foi só uma. — disse ela. — Você tem feito várias escolhas certas.
Edmund assentiu.
— Tenho certeza.
Houve um breve silêncio confortável.
— Quer nos contar como estão as coisas? — Edmund perguntou, por fim.
Nicholas suspirou.
— Não. — respondeu sem pensar.
Eleanor ergueu uma sobrancelha.
— Isso é bom ou r**m?
— Bom. — Nicholas disse. — Tudo sob controle. Segurança reforçada em todo o reino, principalmente aqui. Todo mundo em alerta depois do que aconteceu.
Passou a mão pelo rosto.
— Ninguém vai ser pego desprevenido de novo.
Edmund assentiu, sério.
— E Radovan?
Nicholas hesitou por um segundo.
— Não soube de nada vindo dele. — disse. — Mas... eu o chamei para uma conversa.
O silêncio caiu como uma lâmina.
— Você o quê? — Edmund arregalou os olhos.
— Nicholas... — Eleanor disse ao mesmo tempo, alarmada.
Nicholas cruzou os braços, quase divertido.
— Ué. — respondeu. — Agora eu posso fazer o que eu quiser, sabia?
— Você não pode! — Edmund retrucou, mais alterado. — Você não sabe lidar com esse homem!
— Eu posso sim. — Nicholas rebateu. — Ou o senhor levanta daí e reassume o governo.
Eleanor se levantou devagar.
— Nicholas, isso não é uma brincadeira. — disse, firme. — Radovan...
— Mandou atirar no meu pai. — Nicholas a interrompeu. — Mandou m***r a Sophie.
Edmund se mexeu na cama, visivelmente tenso.
— Você não vai acusá-lo disso. — disse. — Nicholas, você vai começar uma guerra em uma semana de governo!
— Na última reunião, ele não quis me ouvir porque eu era "só um príncipe". — Nicholas respondeu. — Agora ele vai ter que me respeitar.
— Meu filho... — Eleanor disse, a voz mais suave — escuta seu pai. Por favor.
Nicholas riu, tentando aliviar.
— Calma, coroa. — disse. — Além de um tiro, o senhor vai infartar.
— Quem vai me m***r é você. — Edmund respondeu. — Não atentado nenhum.
Deixou-se cair contra os travesseiros com um suspiro exagerado.
— Velho dramático.
Eleanor levou a mão ao rosto, balançando a cabeça.
Edmund respirou fundo.
— Então o que você está planejando? — perguntou.
Nicholas endireitou a postura.
— O senhor não marcou meu casamento para sábado?
O ar pareceu desaparecer do quarto.
Eleanor parou de respirar por um segundo.
Edmund arregalou os olhos.
— Pois então. — Nicholas continuou, com um sorriso triste. — A noiva precisa ser comunicada, não é?
Eleanor levou a mão ao peito.
— Nicholas... — murmurou.
— É o que vocês queriam. — ele disse. — Não é?
Edmund foi o primeiro a falar.
— Você vai mesmo se casar com a Katarina?
Nicholas inclinou a cabeça, quase irônico.
— O senhor me deixou escolha? — perguntou. — Da última vez, ameaçou me trancar no quarto.
Eleanor fechou os olhos por um instante.
— As coisas mudaram. — Edmund disse. — Um pouco.
— Eu sei. — Nicholas respondeu. — Mas eu não estou pronto para perder o senhor. Não por causa de uma guerra que eu causei.
A voz falhou.
— Eu não quero que ninguém se machuque. — continuou. — Nem o senhor. Nem a minha mãe. E muito menos a mulher que eu amo.
Eleanor deixou as lágrimas escaparem.
Nicholas respirou fundo.
— Se o senhor, que é o melhor rei que eu conheço, se rendeu a Radovan no passado para salvar a gente e o povo... — disse — então agora cabe a mim fazer o mesmo.
O silêncio foi pesado.
Cheio.
Edmund sorriu devagar.
— Nossa... — murmurou. — Se eu soubesse que era só levar um tiro pra você criar juízo, tinha pedido para alguém atirar em mim antes.
Eleanor riu em meio às lágrimas.
— Não brinca com isso. — disse, limpando o rosto.
Nicholas sorriu de leve.
— Não exagera. — respondeu. — Não vira moda.
Deu alguns passos para trás.
— Eu vou casar, pai. — disse. — Mas não vou ser feliz ao lado da Katarina. Nós dois vamos ser infelizes.
Virou-se e saiu.
O quarto ficou em silêncio.
Eleanor sentou-se novamente ao lado de Edmund, segurando-lhe a mão com força.
— Ele cresceu. — murmurou.
Edmund assentiu, os olhos marejados.
— Cresceu rápido demais.
Do lado de fora, Nicholas caminhava pelos corredores do castelo como alguém que acabara de aceitar uma sentença.
Não porque queria.
Mas porque amar, às vezes, significava exatamente isso.