Capítulo 20

1612 Words
Nicholas saiu da mansão com a cabeça pesada. Tinha obedecido. Tinha ido ao alfaiate. Tinha provado a farda. Tinha ficado parado enquanto Henrik ajustava tecidos que simbolizavam tudo o que ele odiava. Mas nada daquilo tinha aliviado o peso. Nunca tinha enfrentado o pai daquela forma. Nunca tinha dito em voz alta que pensava em renunciar. E, mesmo tendo recuado logo depois, a verdade era incômoda demais para ser ignorada: a ideia nunca tinha ido embora. Ela sempre estivera ali. Desde o dia em que começou a entender o que significava nascer herdeiro. Desde o instante em que percebeu que a própria vida vinha com um roteiro pronto, escrito por outros. O carro chegou à casa de Sophie rápido demais. Ele m*l se lembrava do caminho. Dessa vez, não tocou a campainha como um louco. Apenas uma vez. Curta. Contida. A porta se abriu quase imediatamente. Sophie apareceu sorrindo. — Já? — riu. — Você tá com tanta saudade assim que não consegue mais sair de perto de mim, doutor? O sorriso dele veio automático, mesmo em meio ao caos. — Tô louco por você — respondeu, sincero demais. — Não consigo ficar longe, Sophie. Ela abriu mais o portão, divertida. — Entra antes que eu comece a achar isso perigoso. Nicholas entrou. Ela fechou o portão atrás deles, e os dois caminharam para dentro da casa. — Então... — Sophie virou-se para ele — como foi a conversa com Sua Majestade? Ele suspirou fundo. — Um desastre. — Ih... — ela fez uma careta teatral — pelo jeito foi f**o. — Foi uma briga — confirmou. — f**a. Do tipo que eu nunca tive com ele. Sophie arregalou os olhos. — Você... discutiu com o rei? Nicholas soltou uma risada curta. — Você precisa parar de falar como se ele fosse um deus. — passou a mão pelo rosto. — Ele é um homem, Sophie. Meu pai. E sim, eu discuti com ele. Ela o observou com atenção enquanto ele continuava, visivelmente irritado. — Ele acha que eu sou o mesmo moleque que saiu de Auren sete anos atrás. — disse. — Faça-me o favor. Eu cresci. Ele não pode achar normal agir como um tirano. Sophie ergueu uma sobrancelha. — Ele não me pareceu um tirano. Nicholas bufou. — Ah, é? — inclinou a cabeça. — Então você vai adorar saber que ele te chamou de perdida. Assim. Com essas palavras. Sophie piscou. E então... gargalhou. — Fala sério, Nicholas — disse, rindo. — Ele é um homem retrógrado. Você sabia disso quando saiu daqui hoje cedo. Que surpresa é essa? "Perdida" nem é uma ofensa tão grave assim. Nicholas a encarou, incrédulo. — Você tá de bom humor... e eu aqui prestes a explodir. — Vai entender, né? — ela riu. Caminhou até ele e sentou-se no colo dele sem cerimônia. — Deixa isso pra lá, Nick. Não vale a pena se estressar com essa besteira. — apoiou o braço no ombro dele. — E nem brigar com o seu pai. Se ele virar contra a gente, vai ser pior. Nicholas se jogou para trás no sofá, exausto, com Sophie ainda em seu colo. — Ele ameaçou ficar contra — disse. — Tô te falando... um tirano. Sophie riu mais uma vez. Mas Nicholas ficou sério de repente. — Eu quase matei ele hoje — falou. — Disse que ia renunciar aos meus direitos de sucessão. Sophie se levantou num pulo. — Você tá brincando?! — Não — respondeu, agora com um brilho estranho nos olhos. — Ele ficou branco. Você tinha que ver. Quase engoliu a língua. — Nicholas! — ela levou a mão ao peito. — Isso não é coisa que se brinque. Coitado do seu pai! Você é o único filho dele. Imagina o desgosto? Ele vai morrer e depois você vai se sentir culpado. Nicholas revirou os olhos. — Drama. Ela cruzou os braços. — Não é drama. É realidade. Ele a encarou com diversão. — Olha só... você tá parecendo meu pai. — Isso não é elogio — ela rebateu. Nicholas riu. — Relaxa. Eu já disse que não vou fazer isso. — inclinou a cabeça. — Tô começando a achar, Sophie, que todo esse protesto é porque você quer namorar um príncipe. Ela abriu um sorriso lento. — Bom... — deu de ombros — eu gosto da ideia. Nicholas se levantou de repente e a puxou pela cintura. — Sabia. — murmurou, aproximando-se. — Tudo isso é para virar princesa. Tava na cara. Ela riu, sentindo o corpo dele perto demais. — Interesseira, né? — Muito — ele respondeu, a voz já mais baixa. Beijou o pescoço dela, devagar, carregado de tensão. — Você, dona Sophie, é uma grande interesseira. Ela gemeu baixo, sem resistência. — Talvez eu mereça até um castigo. Nicholas sorriu contra a pele dela. — Você não faz ideia do castigo que merece. Ela levantou o rosto, provocadora. — Então aplica. O olhar dele escureceu. — Com prazer. Nicholas a segurou firme pela cintura e a guiou em direção ao quarto, deixando para trás o peso do trono, do pai e do mundo inteiro, nem que fosse só por algumas horas. ** O quarto estava silencioso outra vez. Não um silêncio constrangedor, mas aquele silêncio denso que vem depois do excesso, de toque, de entrega, de palavras não ditas. Nicholas estava deitado de costas, parcialmente coberto pelo lençol. Sophie repousava sobre o peito dele, a cabeça encaixada logo abaixo do ombro, a pele ainda quente demais para ser ignorada. Ele passava a mão devagar pelas costas nuas dela, num carinho quase automático, os dedos desenhando caminhos lentos, como se precisasse daquilo para se manter ali. Mas o corpo dele estava tenso. Sophie percebeu. Ela se mexeu um pouco, ergueu o rosto para encará-lo. — Você tá sério demais, Nick — murmurou. — Faltou contar alguma coisa, não foi? Nicholas fechou os olhos por um instante. O carinho não parou, mas ficou mais lento. — Faltou — admitiu. — E é algo que pode te fazer desistir da viagem. Sophie se afastou com cuidado e sentou-se na cama, puxando o lençol para cima do corpo, prendendo-o debaixo dos braços para cobrir os s***s. O gesto não era vergonha, era atenção. — Então fala. Nicholas suspirou fundo antes de se virar de lado, ficando de frente para ela. — Os protocolos são muito mais rígidos do que eu deixei parecer, Sophie. Ela deu de ombros. — Você já falou disso. A gente não vai poder se falar em público, andar junto, essas coisas... — Vai além disso — ele interrompeu, sério. Ela franziu a testa. — Como assim? — Começa na viagem. Sophie piscou. — A gente... não vai no mesmo avião? — Vai — ele respondeu. — O avião da família real. Mas você não vai comigo. Ela demorou um segundo para entender. — Como assim, Nicholas? Ele passou a mão pelo rosto. — Tudo já começa na saída de casa. O rei e a rainha vão num carro oficial, à frente. Eu vou atrás, em outro carro oficial. — respirou fundo. — E você vai com a comitiva. Ela arqueou uma sobrancelha. — Comitiva... tipo os funcionários? — Algo próximo disso — ele explicou rápido. — Mas ninguém vai te tratar como funcionária, eu prometo. Você vai ter uma poltrona confortável, vai comer bem, vai ter tudo o que quiser dentro do avião. Ela completou, seca: — Menos você. Nicholas assentiu. — Protocolos reais. Sophie ficou em silêncio por um instante. — E você vai com seus pais? — Nem isso. — ele soltou uma risada sem humor. — O avião é dividido em três partes. A ala mais luxuosa é do rei e da rainha. Eu fico numa logo atrás. Sozinho. No máximo com um assessor. — Isso é uma loucura — ela murmurou. — É ridículo — ele concordou. — Quando a gente anda em público, eu tenho que ficar sempre um passo atrás deles. Sempre. Sophie riu baixo. — Interessante saber disso. Nicholas a olhou de lado. — Que bom que te diverte, porque me deixa profundamente irritado. Ela deu uma risadinha. — Você está se estressando à toa. Ele balançou a cabeça. — Sabia que, tecnicamente, eu nem deveria entrar no mesmo avião que eles? Ela se animou. — Por quê? — Se o avião cair — respondeu — o rei e o herdeiro não podem morrer juntos. Sophie piscou. — Tá... isso até que faz sentido. — Não — ele suspirou. — Você está dando razão demais para esses protocolos. — Você que tá fazendo drama — ela rebateu, sorrindo. Nicholas ficou sério outra vez. — Sophie... você entendeu que a gente não vai se falar, né? — disse, baixo. — Nem antes. Nem durante. Nem quando a gente chegar. A formação é sempre a mesma: meus pais à frente, eu um passo atrás, a comitiva atrás de tudo. Ela o encarou. — Em algum momento a gente vai se ver, não vai? — Vai — ele respondeu sem hesitar. Sophie sorriu, tranquila. — Então ainda assim acho melhor do que ficar aqui, longe, sem notícias do meu príncipe rebelde. Nicholas soltou uma risada curta e negou com a cabeça. — Você vai me enlouquecer dentro daquele castelo, Sophie. Ela se inclinou um pouco mais para perto. — Isso é uma promessa? Ele a puxou de volta para si, colando-a ao peito. — Eu juro — murmurou — resistir a você vai ser a coisa mais difícil do mundo. E o corpo dele pareceu relaxar um pouco como se, ao menos ali, entre lençóis e promessas frágeis, o príncipe pudesse existir só como homem.
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