Capítulo 18

1608 Words
Depois que Sophie disse que iria com ele, o resto da noite aconteceu quase sem que percebessem. Foram ao shopping como duas pessoas normais, ou o mais próximo disso que um príncipe herdeiro podia ser. Nicholas escolheu peças mais sóbrias, tecidos fluidos, vestidos simples demais para parecerem fantasia e elegantes demais para não chamarem atenção. Sophie reclamou, riu, implicou com os preços, escolheu uma mala grande demais "por garantia" e, no fim, aceitou que talvez Auren exigisse um pouco mais do que bermudas e regatas. Quando ele a deixou em casa, a ideia era simples: despedida rápida, descanso, cada um em seu canto. Mas Sophie não deixou. Não pediu. Não implorou. Apenas segurou a mão dele quando Nicholas se virou para ir embora e ele não ofereceu resistência alguma. Nenhuma. Agora, o sol da manhã entrava sem piedade pelo quarto. Nicholas abriu os olhos e demorou alguns segundos para entender onde estava. O corpo quente, o cheiro dela, o silêncio tranquilo demais. Então a luz bateu direto em seu rosto. Ele piscou. Olhou para o relógio na mesa de cabeceira. Seis da manhã. — m***a! — disse, num pulo, já se levantando e catando a calça jogada no chão. Sophie se mexeu na cama, ainda sonolenta, os olhos semicerrados acompanhando o desespero dele. — Que isso, Nick... — murmurou. — Eu nunca ouvi você praguejar. Ele parou no meio do quarto, a camisa nas mãos. Piscou. Pensou. — É... — suspirou — príncipes não deveriam fazer isso mesmo. Ela riu, fechando os olhos de novo. — Eu devia ter ido dormir na mansão — ele disse, abotoando a camisa com pressa. Sophie soltou uma risada preguiçosa e se sentou na cama. — Devia mesmo — provocou. — Pena que eu não vi você fazer o menor esforço pra sair daqui ontem. Ele bufou. — Eu não fiz. E esse é exatamente o problema. — fez uma careta. — Sua Majestade vai dar o maior sermão da minha vida. — Por que você tá chamando seu pai assim? — ela perguntou, divertida. — Porque não vai ser o meu pai que vai falar comigo. — respondeu, puxando o cinto. — Vai ser o rei. Ela bufou. — Tá, mas ele sabe que a gente se gosta. — deu de ombros. — Pior: ele acha que a gente se ama. Isso é normal, não é? Nicholas riu, incrédulo. — Isso que aconteceu aqui? — s**o? — Sophie arqueou a sobrancelha. — As pessoas em Auren não transam, Nicholas? — Transam — ele riu. — Depois do casamento. Ela gargalhou alto. — Meu Deus, eu tô mesmo entrando em Bridgerton. Não é possível. — balançou a cabeça. — Fala sério, Nick. Eu já não era virgem antes. — Eu sei — ele respondeu rápido. — Mas meu pai não. Quer dizer... agora ele sabe. Sophie caiu na risada. — Nicholas, eu sou uma brasileira de vinte e três anos. — disse, entre risos. — É óbvio que eu não era virgem. Eu tive outros namorados, sabia? Ele sorriu, ajeitando a gola da camisa. — Imagino que sim. — olhou para ela com carinho. — Você é linda. Sophie corou, sem graça. — Enfim... — Nicholas suspirou — eu preciso ir. Vou levar sermão por não ter dormido em casa, por ter ficado aqui, por ter feito s**o antes do casamento... por existir. Ela gargalhou. — Isso só pode ser brincadeira. — Não é — ele riu junto. — Então não fala o que a gente fez, Alteza. — provocou. — Diz que dormiu na sua casa. Nicholas riu mais alto. — Não dá pra mentir para ele sobre esse tipo de coisa, Sophie. — disse, sincero. — Ele sabe onde é a clínica, sabe onde é a minha casa. Sabe que eu não fui pra lá. — fez uma pausa. — E só não bateram aqui ainda porque não sabem onde você mora. Mas se eu ficar mais uma hora, acredita em mim... o Alistair aparece. Sophie arregalou os olhos. — Cruz credo. Que prisão. Ele sorriu de lado. — Por que você acha que eu vim morar tão longe? — Porque você disse que Auren era chato. — Também. — riu. — Mas não só por isso. Ele se aproximou, inclinou-se e lhe deu um beijo rápido, doce. — Eu te ligo mais tarde. — Vou ficar esperando — ela respondeu, sorrindo. Já na porta, ele parou e voltou o rosto. — Ah... — disse — liga para o pessoal que tava agendado comigo hoje e cancela? Ela arqueou a sobrancelha. — Motivo? — Bem... — sorriu — motivos óbvios. Sophie riu. — Tá bem. — disse. — Esse vai ser meu último ato como sua secretária. Nicholas sorriu, daquele jeito que ela já começava a reconhecer. E saiu correndo, deixando para trás uma bagunça no quarto, uma promessa no ar... e um rei à sua espera. ** Nicholas entrou na casa tentando ser invisível. Passos leves. Ombros levemente curvados. O tipo de cautela que não combinava em nada com um príncipe herdeiro, mas combinava perfeitamente com um homem que sabia que tinha feito algo errado. Estava quase dobrando o corredor quando a voz soou atrás dele, calma demais para ser ignorada: — Vossa Alteza. Bom dia. Nicholas fechou os olhos por um segundo. Virou-se devagar. — Bom dia, Alistair. O secretário do rei estava impecável como sempre, mãos cruzadas à frente do corpo, expressão educada demais para esconder que já sabia de tudo. — Sua Majestade pediu que eu o encaminhasse até ele assim que chegasse. Nicholas bufou, baixo. — Por que será que eu pensei que pudesse passar despercebido, Alistair? O homem sorriu de leve. — Jamais passaria, Alteza. — fez uma breve pausa — Sua Majestade sabe que Vossa Alteza não dormiu aqui. — Claro que sabe — Nicholas murmurou. — Onde ele está? Alistair virou-se e começou a caminhar. Nicholas o seguiu. Encontrou o pai e a mãe na sala de estar. Edmund estava de pé, mãos cruzadas atrás do corpo, olhando pela janela. Eleanor sentava-se no sofá, expressão atenta, preocupada. — Majestade — Alistair anunciou. — Pode ir — Edmund respondeu sem se virar. O secretário se retirou com discrição. O silêncio que ficou era pesado. Nicholas tentou um sorriso. — Bom dia. Edmund se virou lentamente. O olhar era duro. — Eu pensei ter mandado você dormir aqui, Nicholas. Ele respirou fundo. — Mandou, sim. — respondeu. — Eu... perdi o horário. Edmund ergueu uma sobrancelha. — Perdeu o horário? Deu dois passos à frente. — Você saiu daqui às quatro da tarde. — continuou. — Tempo mais do que suficiente para chamar Sophie, comprar roupas... e voltar. Nicholas suspirou. — Eu sei. Mas não deu. — Não deu? — a voz do rei subiu um tom. — Vocês ficaram fazendo o quê, exatamente? — Conversando. Edmund soltou uma risada curta, sem humor. — Conversando, Nicholas? — perguntou, irritado. — Você está mesmo me dizendo que passaram a noite inteira conversando? Nicholas sustentou o olhar. — Você acha que eu sou algum palerma? O silêncio pesou. — Não, senhor — Nicholas respondeu, firme. — Mas também não acho necessário explicar algo que o senhor já sabe exatamente o que foi. Edmund bufou. — Você devia ao menos disfarçar. — Não tem o que disfarçar, pai. — Nicholas rebateu. — O que eu e Sophie fizemos é normal aqui. Ninguém reprime duas pessoas por se desejarem fisicamente. — Mas você não é brasileiro! — Edmund explodiu. — Você é um príncipe! Foi criado sob os costumes de Auren. Você sabe como as coisas funcionam! Nicholas passou a mão pelo rosto. — Eu sou um homem. — disse. — E estou tempo suficiente no Brasil para ter quebrado esses costumes não só com Sophie, mas antes dela também. Edmund arregalou os olhos. — Eu fiz faculdade aqui, pai. — continuou. — O senhor não imagina o que são as festas universitárias. — Nicholas! — Eleanor interveio de imediato. — Está exagerando. Se controle. Ninguém quer saber o que você fez ou deixou de fazer aqui. Ele a olhou. — Pelo visto querem, sim. — respondeu. — Eu e Sophie estamos juntos. Vocês sabem disso. Ainda estamos em solo brasileiro. Vamos deixar isso pra lá. Edmund o encarou, sério. — Você pretende se casar com uma mulher que não é virgem, Nicholas? Ele bufou, incrédulo. — E daí? Eu também já tive outras mulheres. — Você é homem — Edmund respondeu, seco. — Ainda que eu desaprove essa conduta. Nicholas balançou a cabeça, cansado. — Esquece isso, pai. Finge que não sabe. — É impossível. O rei deu um passo à frente. — Essa mulher vai conosco para Auren? — Vai. Edmund assentiu lentamente. — Então você sabe que as coisas não serão assim lá. — disse. — Katarina está no castelo. E você vai respeitá-la até que esse noivado seja desfeito. Nicholas respirou fundo. — Sim. — Você me ouviu, Nicholas? — Edmund reforçou, a voz dura. — Se chegar aos meus ouvidos que você e essa menina estão... fornicando no meu castelo... Nicholas apertou os maxilares. — ...eu mando ela de volta para o Brasil. — continuou o rei. — E você se casa com Katarina no mesmo dia. Está me ouvindo? — Estou. — respondeu, baixo. — Prometo que nada vai acontecer enquanto ela estiver lá. — Nem depois. — Edmund completou. — No meu castelo, só depois do casamento. Nicholas revirou os olhos. — Nicholas, não revire os olhos para mim. — o tom do rei cortou o ar. — Isso é falta de respeito. Ele endireitou a postura imediatamente. — Desculpe, Majestade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD