Parada no cruzamento que levava à rotatória de entrada da pequena cidade de Benbrook, Ashley Keller aproveitou o momento para ajustar seu reflexo no espelho retrovisor da caminhonete. Tirou da bolsa o gloss de cereja e aplicou nos lábios ressecados. Três dias haviam se passado desde que deixara Nova York para trás, rumo ao Texas. Embora tivesse passado uma noite razoável em um hotel em Dallas, sua última parada antes do destino final, o cansaço parecia um peso constante, grudado a ela como uma sombra.
Quase três anos haviam se passado desde que saíra de Benbrook. Mudara-se para Nova York a convite de Kyera, com o objetivo de se graduar em uma das melhores universidades do país – que ela podia pagar – e também de se afastar para curar as feridas que o tempo insistia em manter vivas, especialmente a de um amor não correspondido. Foi uma chance de se redescobrir, crescer e deixar para trás a garota tímida e submissa que costumava ser. Durante o colegial, Ashley era o patinho f**o da turma, invisível tanto para os outros quanto para si mesma. Mesmo após terminar os estudos, a sensação de ser um fantasma continuava a rondá-la. Agora, dirigindo a Ranger Black emprestada de Kyera e retornando à sua cidade natal, sentia uma familiaridade estranha, como se aquela garota medrosa ainda estivesse lá, presa ao passado daquela cidade.
O som da buzina do carro atrás de si a puxou de volta ao presente. O sinal estava aberto novamente, e Ashley acelerou. Contornou a rotatória e seguiu pela reta que levava ao centro da cidade. Passou pela Benbrook Store, agora fechada, e logo avistou o Luk’s Bear, o bar mais famoso da cidade. Eram pouco mais de dez da noite, e o lugar começava a se encher, embora ainda longe da agitação de costume. Rezou por uma vaga no estacionamento e, para sua sorte, encontrou uma bem em frente ao cercado de madeira da varanda.
O lugar parecia imutável: uma construção que mais lembrava uma enorme cabana, com algumas janelas largas que, embora sempre fechadas, serviam como saída de emergência, e uma porta frontal, grande e sempre aberta. Além, claro, da saída pelos fundos. Tudo havia sido milimetricamente calculado após um incêndio que forçou uma reforma no local.
Ashley estacionou e desceu da caminhonete. Sorriu ao olhar ao redor. Embora se sentisse um pouco intimidada com o retorno, estava feliz com a possibilidade de reencontrar seus poucos, mas verdadeiros amigos, e sua tia Nora.
Dois rapazes, encostados em um carro ao lado, riam alto de algo que um deles dissera a uma garota que passava. Assim que viram Ashley, um deles parou de falar.
— Boa noite! Você está perdida, linda? – perguntou um deles, forçando-a a olhar na direção deles.
Ashley franziu a testa com sarcasmo ao reconhecer Eddy Thomas e Frederick. Dois rapazes que ela conhecia muito bem e que, agora, pareciam mais homens do que nunca. Amigos inseparáveis no colegial, foram os maiores responsáveis por transformar sua vida em um inferno na época. Olhando para ambos, que seguravam cervejas e estavam nitidamente embriagados, ela percebeu que nada havia mudado desde o colegial.
— Na verdade, não. Estou exatamente onde queria estar. – Respondeu, firme.
Eddy sorriu sedutoramente e deu um passo à frente.
— Então, que tal tomar uma cerveja conosco? – sugeriu, com um tom presunçoso. – Eu sou Eddy e esse é o Freddy.
— Eddy e Freddy? – Ashley riu. – Vocês parecem mais uma dupla country.
Ela começou a se afastar, indo em direção ao bar, mas foi interceptada por Eddy.
— Por que não fica? Posso provar que não somos cantores country.
Ashley fez uma careta e, após uma pausa dramática, respondeu:
— Obrigada, mas não!
Eddy franziu o cenho, irritado.
— Por que não?
— Porque você é um i****a. E eu não saio com idiotas. – Ashley respondeu, dando um passo à frente. – Agora, se me dão licença, estou ocupada demais para perder tempo com uma conversa sem sentido com um bêbado imprestável.
Frederick soltou uma risada, zombando do amigo.
— Cara, ela acabou com você!
Ashley não perdeu tempo e se afastou, indo em direção ao bar. m*l deu alguns passos quando sentiu a mão de Eddy agarrar seu pulso com força, quase fazendo-a cair.
— Aonde você pensa que vai?
Ashley, que detestava ser tocada nessas circunstâncias, puxou o braço e se virou para encará-lo com raiva.
— Solte-me! – ela gritou, empurrando o peito dele com força suficiente para fazê-lo cair sentado no chão. – Não toque em mim de novo! Se encostar em mim outra vez, você vai se arrepender!
Eddy ficou paralisado, mais chocado com a cena do que com a queda. Frederick, por outro lado, explodiu em gargalhadas.
— Eddy, você viu a sua cara? A garotinha te derrubou! – ele zombou, segurando a barriga de tanto rir.
Algumas risadas discretas ecoaram pelos cantos escuros da varanda e do estacionamento. O rosto de Eddy ficou vermelho de raiva. Ele se levantou, os olhos faiscando de fúria.
— Então você acha que pode me intimidar? Por acaso, sabe quem eu sou?
Ashley cruzou os braços e soltou um riso sarcástico.
— O maior convencido do mundo?
Diante da resposta, Eddy rosnou, visivelmente descontrolado. Ele avançou, prestes a cometer um erro fatal. Ashley praticava defesa pessoal – uma recomendação dada por Kyera para sobreviver às noites de Manhattan. Porém, antes que ele pudesse agir, Frederick o deteve, colocando as mãos no peito do amigo para contê-lo.
— Relaxa, Eddy… – disse Frederick, olhando ao redor, desconfortável com a situação. – Vamos deixar isso para lá. Tem muitas outras garotas por aí.
— Ouça o seu amigo. – retrucou Ashley, sem esconder o tom irônico. – Parece que ele tem mais senso.
As palavras de Ashley e sua postura petulante só alimentaram a fúria de Eddy. Ele tentou se desvencilhar de Frederick, mas foi contido novamente.
— Sua c****a insolente! Vai pagar caro por isso!
— Eu duvido muito! – ela retrucou, mantendo o ar irônico. – Você não passa de um riquinho mimado que não sabe ouvir um não.
— Eu vou m***r você, sua c****a!
— Pare com isso, Eddy! – insistiu Frederick, segurando o amigo. – Não lembra o que aconteceu da última vez?
Essas palavras só reforçaram o que Ashley já desconfiava: Eddy Thomas continuava a ser o mesmo i****a de sempre. E isso não a surpreendia nem um pouco.
Embora relutante, as palavras de Freddy surtiram efeito. Eddy recuou, mas ainda lançou olhares ameaçadores para Ashley.
— Isso não acaba aqui! Ninguém insulta Edward Thomas e fica por isso mesmo! – ameaçou ele, entre os dentes. – Você vai pagar caro por essa afronta, sua vaca!
— Vai para o inferno, Eddy! – ela gritou, enquanto Frederick arrastava o amigo pelo estacionamento em direção ao outro lado da rua, onde havia um clube de strip-tease. – i****a!
Ashley balançou a cabeça, já irritada, e girou sobre seus calcanhares, seguindo em direção à varanda. m*l sabia ela, mas alguém observava a cena com grande interesse.
Não muito distante, na penumbra de um canto da varanda, Alex Stella, que se encontrava acompanhado de uma mulher de quem m*l sabia o nome, observava a discussão com atenção. Estava prestes a intervir quando a reação da jovem loira o surpreendeu. De onde estava, não conseguia ver seu rosto direito e ficou curioso para conhecê-la de perto, quando a viu cruzar a varanda e desaparecer dentro do bar.
— Quem será ela? – perguntou a si mesmo, intrigado.