O aroma encorpado de grãos torrados na hora e o suave tilintar de xícaras de porcelana importada deveriam ser sinônimos de conforto. No entanto, para Ana Clara, o interior refinado do café na Garcia d’Avila parecia uma câmara de tortura decorada em tons pastéis. O ar-condicionado mantinha a temperatura amena, mas o clima na mesa de canto era gélido.
Sentada à sua frente, vestindo um conjunto impecável de linho bege e exibindo no anelar esquerdo um diamante solitário de corte esmeralda que praticamente exigia óculos escuros, estava Beatriz.
Amiga de faculdade de Ana Clara — ao menos na definição superficial que a alta sociedade carioca dava à palavra "amiga" —, Beatriz carregava o sorriso perfeito de quem nunca precisara acordar às seis da manhã para salvar um projeto de reestruturação hospitalar. Ela era o troféu vivo da mãe de Ana: a garota que fizera exatamente o que se esperava dela.
— Mas meu Deus, Aninha, você parece que não dorme há três dias! — Beatriz começou, antes mesmo de terminar de servir o adoçante em seu cappuccino. O tom de voz transbordava uma falsa presteza, aquela preocupação plastificada que mascara a mais pura satisfação ao ver a falha alheia. — Essa vida de diretora de hospital vai acabar com a sua pele, amiga. Olhe essas olheiras! Eu sempre digo ao Bernardo: "Amor, mulher não nasceu para ficar doze horas fechada numa sala de reunião discutindo orçamento". A gente precisa de tempo para respirar, cuidar do corpo, planejar a casa...
Ana Clara segurou a xícara de espresso com mais força do que o necessário. Respirou fundo, lembrando a si mesma de que precisava manter o controle.
— A reestruturação da ala de inovação exige presença, Bia. É um investimento de milhões e a minha responsabilidade técnica. Quando você realmente se importa com o que faz, as horas voam.
— Ah, com certeza! Deve ser... libertador, de certa forma — Beatriz deu uma risadinha suave, inclinando a cabeça e ajeitando uma mecha de cabelo perfeitamente escovado. — Não ter ninguém te esperando em casa, não ter que dar satisfações, não ter aquela obrigação deliciosa de planejar o futuro a dois... É quase como continuar na faculdade, né? Só que com um holerite melhor.
O veneno foi pingado de forma tão sutil que uma pessoa desavisada acharia um elogio à independência. Mas Ana Clara conhecia o código.
— Eu tenho metas profissionais muito claras, Beatriz. O futuro a dois acontece quando tem que acontecer, sem desespero.
— Claro, querida! Sem desespero algum! — Beatriz sorriu, os olhos brilhando com uma malícia m*l dissimulada. — Sabe que a minha mãe comentou com a sua mãe no clube essa semana? A tia Valentina estava tão chateada... Coitada, ela disse que até tentou te apresentar o filho do desembargador, mas você nem deu trela. A gente super entende, sabe? Chega uma fase em que os homens da nossa idade ficam assustados com mulheres tão... resolvidas. Ou melhor, eles preferem construir uma vida com alguém que queira ser parceira, não um chefe dentro de casa.
Ana Clara sentiu o sangue subir pelo pescoço, mas manteve a postura impecável, o queixo erguido.
— Os homens que se assustam com a minha independência não são o tipo de homem que me interessa, Bia.
— Obviamente! — Beatriz retrucou imediatamente, apoiando os cotovelos na mesa e se inclinando para frente, como se fosse contar um segredo sussurrado. — Mas você precisa tomar cuidado com o tempo, Aninha. O mercado para mulheres de quase trinta anos que só falam de planilhas é implacável. Daqui a pouco os homens interessantes da nossa roda já estão todos casados — como o meu Bernardo — e só vão sobrar os divorciados com bagagem ou os caça-dotes.
Ela fez uma pausa dramática, olhando para Ana com uma piedade calculada para moer o orgulho de qualquer uma.
— Inclusive, ouvi dizer que o congresso em Itacaré vai ser incrível! O Bernardo e eu já confirmamos presença, claro. Ele vai participar da mesa de investimento de capital. Ele até me falou: "Bia, faz questão de levar a Ana Clara para o nosso bangalô à noite, para ela não ficar jantando sozinha no restaurante principal todo dia". Não é fofo da parte dele? Ele fica morrendo de pena de ver você sozinha nesses eventos da empresa.
A palavra pena ecoou na mente de Ana Clara como uma bofetada. A lembrança da ameaça da mãe naquela mesma manhã — de perder o fundo de truste e as ações do hospital — voltou com força total. Ali, diante do sorrisinho condescendente de Beatriz, Ana percebeu o tamanho do abismo em que estava se equilibrando.
— Agradeça ao Bernardo, mas não será necessário — disse Ana Clara, a voz fria e cortante como cristal. Ela puxou a bolsa do assento ao lado. — Eu não vou jantar sozinha em Itacaré.
Beatriz parou com a xícara na metade do caminho até a boca. As sobrancelhas bem desenhadas se ergueram em leve espanto.
— Como assim? Você arrumou um acompanhante para a viagem? Algum colega de equipe?
— Não é um "acompanhante de viagem", Beatriz. É o meu noivo — mentiu Ana Clara, sustentando o olhar sem piscar um segundo sequer, sentindo o peso irreversível daquela palavra saindo de sua boca.
O silêncio reinou na mesa por três segundos eternos. A expressão de Beatriz oscilou entre a surpresa genuína e a desconfiança imediata.
— Noivo? — Beatriz piscou, a voz perdendo um pouco daquela doçura melosa. — Você está noiva, Ana Clara? Desde quando? Você não postou nada, não contou para ninguém na turma... A sua mãe não falou absolutamente nada sobre isso no chá de anteontem!
— Porque nós preferimos manter a discrição até que o anel ficasse pronto e os compromissos profissionais dele permitissem a revelação — Ana Clara improvisava com uma velocidade assustadora, alimentada pelo puro instinto de sobrevivência e pela raiva. — Ele é extremamente reservado. E muito ocupado. Mas ele estará comigo em Itacaré. Vamos ocupar a suíte presidencial do evento.
Beatriz estreitou os olhos, buscando qualquer fraqueza no rosto de Ana Clara. O veneno de antes agora dava lugar a uma curiosidade ávida e venenosa.
— Que... maravilhoso! — Beatriz falou, embora o tom denotasse que a notícia caíra como um balde de água fria em sua superioridade. — E quem é o felizardo? Nós conhecemos? É da família de alguém do Iate? O que ele faz?
— Você vai conhecê-lo em Itacaré, Bia. No jantar de a******a — Ana Clara colocou duas notas de cem reais sobre a mesa, muito além do valor do seu espresso, e levantou-se com elegância absoluta. — Não quero estragar a surpresa. Tenho certeza de que você e o Bernardo terão muito o que conversar com ele.
— Ana, espera! Você não pode me deixar curiosa assim! — Beatriz tentou segurar o braço de Ana, mas a amiga se esquivou suavemente.
— Preciso ir, a reunião da diretoria começa em vinte minutos. Nos vemos na Bahia, Bia. Leve um vestido à altura para a recepção.
Ana Clara virou as costas e caminhou a passos firmes em direção à saída do café. Mas assim que atravessou a porta de vidro e sentiu o calor úmido das ruas de Ipanema, o ar lhe faltou. As pernas fraquejaram por um segundo.
A trava fora puxada. Ela não apenas tinha que enfrentar a chantagem implacável da própria mãe, como agora havia acabado de garantir para a maior fofoqueira do seu círculo social que chegaria a um resort de luxo acompanhada de um noivo perfeito, rico e elegante.
Um noivo que sequer existia.
Pegando o celular com as mãos levemente trêmulas, Ana Clara abriu o aplicativo de contatos, encarando a tela em transe. Ela tinha exatamente vinte dias para criar um milagre — ou pagar o preço de uma humilhação pública que destruiria sua carreira e sua vida para sempre.