Capítulo -1.1 Damian Stark

1457 Words
- Ah... Ela? Nova aqui. Acho que veio com uma das meninas fixas da casa. Quase não quis entrar, o segurança teve que insistir. - Ele ri. - Acha que ela combina com esse lugar? Não. Definitivamente, não combina. - Preciso ir. - minha voz sai baixa, tensa. - O quê? Você chegou agora!-ele vida de irritação, mas eu não respondo. Já estou andando. Minhas pernas se movem antes da minha consciência acompanhar. O som da música, as luzes, o cheiro do álcool, tudo some enquanto atravesso o salão com os olhos fixos nela. Há algo errado. Algo que não bate. O que Diana, a secretária trêmula, a garota que m*l consegue me olhar nos olhos, está fazendo aqui? Sozinha. Fora do expediente. Em um lugar como este? E por que... por que eu me importo tanto? Quando estou a poucos passos dela, ela me vê. Seus olhos se arregalam. O corpo se enrijece. Ela tenta se virar. Fugir. Mas eu seguro seu braço antes disso. - Diana? Ela empalidece. Está com medo. Mas não é só isso. É como se... estivesse envergonhada. Humilhada. - O que está fazendo aqui? - pergunto em voz baixa, mas firme, sem disfarçar a intensidade com que a encaro. - Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece...- E lá estava ela outra vez, sem conseguir me encarando ou apenas dar uma resposta direta, O que ela não entende é que tanto faz o motivo. Ela não devia estar aqui. Não neste lugar. Não com aquele olhar. Não provocando em mim essa confusão maldita entre raiva, proteção e... desejo. - Venha comigo - ordeno, sem deixar espaço para discussão. Ela hesita. - Eu... não posso... minha amiga... - Agora, Diana. - minha voz sai como um comando. Ela cede. Me acompanha em silêncio, desviando os olhos de tudo e todos, como se quisesse desaparecer. Eu a conduzo até o andar superior, para um dos camarotes mais reservados. Fecho a porta atrás de nós e me viro para encará-la. - Você tem ideia do que está fazendo? - pergunto, mais calmo, mas ainda tenso. Ela me encara, agora com uma mistura de medo e orgulho. Há algo naquela menina que me desconcerta. Ela não é como as outras. Não se encaixa. Mas também não se dobra. - Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo. E, de repente, como se fosse puxado por algo invisível, dou um passo em direção a ela. Ela recua. Dou outro passo. Ela encosta na parede. E mesmo assim não desvia o olhar. E eu penso: Por que ela? Por que ela me tira do controle? E mais ainda: Por que diabos eu não consigo deixá-la ir? - Fale a verdade - exijo, cruzando os braços, bloqueando qualquer saída. - Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?- Ela pisca, confusa. - O quê? O senhor acha que eu...? - Eu não sei o que pensar, Diana! - rebato, a voz mais alta do que gostaria. - Você aparece na minha vida feito um erro de sistema, tropeça, derruba café, me tira do eixo... e agora aparece aqui, nesse lugar, como se nada demais estivesse acontecendo! - Eu só vim acompanhar uma amiga! - ela finalmente grita de volta, os olhos faiscando de indignação. - Eu nem queria vir, mas ela insistiu, disse que seria rápido! Eu nem sabia que esse lugar era assim, e muito menos que o senhor viria aqui! - Está dizendo que foi uma coincidência? - Estou dizendo que o senhor está me julgando sem saber de nada!- O silêncio que se segue é denso. O tipo de silêncio que queima por dentro. Ela respira com dificuldade, o peito subindo e descendo. Está nervosa, mas se recusa a abaixar a cabeça. E eu... Eu estou mais irritado com isso do que com o fato de ela estar aqui. Ela não tem medo de mim como os outros. Ou talvez tenha, mas luta contra isso. E, pela primeira vez, me sinto um i****a completo. - Por que está tão incomodado com a minha presença aqui? - ela pergunta, com uma coragem que não esperava. - É porque sou sua funcionária? Porque sou desajeitada demais pra estar num lugar como esse? Ou porque te incomoda o fato de eu não fazer parte do seu mundo perfeito? Eu me aproximo de novo, e ela não recua dessa vez. - Você não faz parte do meu mundo - respondo com frieza, encarando-a nos olhos. - Mas, de alguma forma... ele tem girado em torno de você nos últimos dias. E isso é um problema. Ela engole em seco. - Então me demita. O silêncio corta o ar. Meu maxilar trava. Meus punhos se fecham. Mas eu não consigo dizer as palavras. Porque a ideia de demiti-la... me corrói. - Não posso. - minha voz sai baixa, quase amarga. - E isso me irrita mais do que você imagina. - Então o problema não sou eu. O problema é senhor, senhor Damian. Que não sabe o que sente, nem o que fazer com isso. Essa foi a gota. Avanço mais um passo, colando nossos corpos sem tocá-la. Ela prende a respiração, mas não se move. - Eu sou o homem que manda nesse império - murmuro, encarando seus lábios e depois seus olhos. - O que dita regras, muda rotas e faz impérios se curvarem. Mas com você... nada faz sentido. E se isso for um jogo, Diana, você está brincando com fogo. - Não é um jogo - ela sussurra. - Mas se fosse... talvez eu já estivesse queimando. Por um segundo, a tensão quase se rompe em algo mais. Mas eu me afasto. Um passo. Dois. Preciso de ar. De distância. E voltar a calma. - Vá para casa. Agora. E amanhã... não chegue atrasada. Ela parece hesitar, como se esperasse algo mais. Mas apenas acena, em silêncio, e se retira com a mesma dignidade que trouxe com ela. E quando a porta se fecha atrás dela, eu sei: Essa garota não é só um contratempo. É o início de um caos que carrega o meu nome. Após mandar Diana embora, encerrei minha noite de maneira abrupta. De longe, observei enquanto ela deixava o prédio sozinha. Apenas esperei que entrasse em um táxi e sumisse na escuridão da rua. Depois disso, caminhei até o meu carro e fui para casa. Nada ali fazia mais sentido. Mesmo incomodado com tudo o que havia acontecido, tentei me convencer de que o melhor era esquecer. Chegando em casa, tomei um banho rápido e me joguei na cama, tentando afogar os pensamentos no travesseiro. Mas não adiantou. Acordei mais cedo que o habitual. Tive uma noite inquieta, m*l dormida. Diana rondava meus pensamentos como uma sombra persistente, e por mais que eu tentasse expulsá-la da mente, ela continuava ali. Nos meus olhos. Na minha pele. No que restava da minha paz. Um péssimo sinal. Tomei meu café sem açúcar, amargo como a sensação que me consumia, e encarei o horizonte de Yarolensk da varanda da cobertura. Por impulso, desci até o subsolo da residência, um lugar onde guardo tudo que realmente importa. Segredos. Legados. A história da minha linhagem. E a promessa que fiz ao meu pai. O cofre se abriu com o reconhecimento biométrico. As luzes internas se acenderam suavemente, revelando pastas seladas, contratos antigos... e uma caixa de madeira escura, onde repousava a relíquia deixada por Barac: uma fotografia amarelada, guardada como se fosse um artefato sagrado. Sentei-me, respirei fundo antes de tocá-la. A imagem mostrava um bebê enrolado em panos brancos. O olhar era intenso, mesmo na inocência de poucos meses de vida. Mas o que mais chamava atenção estava ali, na lateral da clavícula esquerda: uma marca escura, de contorno irregular, como uma estrela incompleta. A marca. A mesma que meu pai descreveu antes de morrer. Você vai reconhecê-la... pela marca. Fechei os olhos, tentando afastar a ideia absurda que começava a tomar forma. Mas era inevitável. Uma tempestade à espreita. Não pode ser. Levantei-me, inquieto. Guardei a foto e os documentos, fechei o cofre e saí de casa como se o destino tivesse acabado de me empurrar para uma estrada sem volta. Cheguei à empresa com passos duros e rápidos. Falei pouco. Não olhei ninguém nos olhos. Subi direto para o meu andar. Mas ao entrar no corredor que levava à minha sala, parei. Ela estava ali. Diana. De costas, mexendo nos arquivos com a costumeira hesitação. A blusa caía sutilmente sobre o ombro esquerdo. E então eu vi. A marca. Exatamente onde estava na fotografia.
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