2 Marissa

1136 Words
Eu tinha acabado de completar vinte anos quando a minha família perdeu tudo, absolutamente tudo... Todas as aplicações, imóveis, carros, joias e obras de artes. Tudo isso foi tomado para pagar a dívida da minha família com o estado.. O que nos sobrou de tudo isso foi desgosto e problemas de saúde, moradia e comida. Eu tive que largar a faculdade de administração para trabalhar em uma lanchonete, no meio período e a noite eu ainda dava aulas de inglês e francês. Aquilo permitiu que eu alugasse um apartamento de quarto, sala, cozinha e banheiro e era onde eu morava com a minha mãe.. Até ela ficar muito doente e passar a ter como novo endereço o hospital, eu me virava em mil para pagar os remédios que ela precisava pra sobreviver.. Era isso, ela sobrevivia a cada dia contando com a benevolência de Deus e com a ajuda de terceiros. Eu me via a cada dia mais perto de perder a minha mãe, assim como aconteceu com o meu pai dois anos atrás.. Ele entrou em uma depressão por nos ver naquela situação e não conseguir reverter a nossa condição monetária. Agora eu só tinha a minha mãe e não queria perdê-la, mas não via jeito para conseguir dinheiro rápido e muito para poder nos salvar. Minhas mãos tremiam enquanto eu segurava mais uma conta do hospital, estava ficando cada vez mais caro e nem os meus dois empregos estava dando jeito de suportar minimamente aquelas condições. Ouvi batidas a porta e corri até lá abrindo e dando de cara com Bridgith, eu a conheci assim que nos mudamos para cá.. Bridgith sempre foi muito simpática e amigável. Muito mais do que as minhas amigas de infância que me viraram as costas por eu não ser mais da suas mesma classe social. O status contava mais do que a amizade de anos. As vezes só uma situação como essa pode nos mostrar quem merece ou não estar ao seu lado e com certeza Bridgith é uma das pessoa que merece estar ao seu lado, nos bons e maus momentos.. E Eu tenho certeza que ela estaria nos maus sem fazer cara f**a. —Eu trouxe o jantar – ela falou levantado a sacola do restaurante e eu sorri, me dei conta que não havia comido nada o dia todo, mas também na economia que estava fazendo eu não iria comer.. Talvez uns biscoitos de água e sal seria o meu jantar. A mulher morena parada a minha porta com um sorriso encantador, não media mais do que 1,65 de altura. Tinha cabelos longos, mas sempre os mantinha presos e comportados, olhos castanhos claros e um corpo redondinho e ela dizia que as bombas de chocolate que fazia aquilo com ela.. Principalmente por não conseguir resistir. – vai me deixar aqui? – perguntou de cenho franzidos e eu balancei a cabeça e lhe dei passagem. —Desculpa.. Eu estou com a cabeça cheia, mas eu sou grata pelo jantar.. Provavelmente iria dormir só com um daqueles biscoitos – falei e ela fez uma careta. —Pelo amor de Deus Marissa.. Você precisa comer, não ficando doente que você conseguirá ajudar a sua mãe – ela falou e como sempre tinha razão. —Eu sei.. Eu sei, mas é que as vezes eu esqueço e preciso economizar também – falei e ganhei um olhar nada bom dela. —Aí Mari.. Você é uma boa menina, não entendo como a vida faz isso com você – bem ninguém entendia como a vida funcionava, até hoje eu não conheço ninguém que saiba. Quanto a ser uma boa menina, eu tinha as minhas dúvidas o universo não iria implica com a minha cara só por capricho.. Alguma coisa eu fiz, nem que tenha sido na vida passada. —Deve ser carma, de outras vidas – falei com um sorriso.. De alguma forma eu tinha que tirar umas risadas da situação ou enlouqueceria de uma vez. —Eu já tenho mais contas a acertar e mais despesas do hospital – falei com o meu riso se transformando em choro. —Vem aqui, não fica assim.. Nós vamos dar um jeito – ela falava como se fosse obrigação dela também, mas Bridgith já tinha os seus próprios problemas e despesas para acertar. Eu não queria ela se endividando por minha causa, não era justo. —Não Bridgith, eu vou dar um jeito.. Você já faz muito – falei ainda encostada a ela. Bridgith balançou a cabaça de um lado a outro. —Deixe-me ajudá-la com o aluguel esse mês – falou – pelo menos a metade eu consigo... Prometo – eu balancei a cabeça, ela iria pedir adiantamento novamente e aquilo não era justo. —Façamos assim então, se eu não conseguir dar um jeito eu falo com você – falei e foi um meio termo para que ela mudasse de assunto.. Se eu continuasse a negar ela iria insistir até Deus sabe onde. —Bem.. Está bom assim, agora vamos comer ou isso aqui vai esfriar – falou se referindo a comida que estava com um cheiro delicioso, o aspecto também estava dos deuses e para quem não tinha quase nada aquilo era o paraíso. Eu prometi que eu daria um jeito e eu iria dar, nem que para isso eu arrumasse jeito de encaixar mais um trabalho no meu dia, nos finais de semana.. Eu só não aceitava perder a minha mãe e deixar que Bridgith se afogasse em dividas por minha causa, mais uma vez por sinal. Comemos tudo enquanto falávamos do seu trabalho, ela me contou o seu dia e eu contei o meu.. Mesmo que as minhas únicas novidades fossem despesas, deu para filtrar uma parte boa e trazer para a mesa sem causar indigestão. Bridgith estava empolgada pois o escritório de advocacia que ela trabalha como secretária estava prometendo uma gratificação para os funcionários.. Ela disse-me que iria procurar saber os requisitos, mas ela já estava confiante que iria conseguir. —E se os requisitos forem dar os seus rins – falei em tom de brincadeira e ela riu —Então eu teria que ser bem recompensada – ela falou e eu joguei uma almofada nela, pela loucura. – meus órgão são muito valiosos – ela falou e teve a minha gargalhada como resposta. —Eu não saberia o que fazer sem você! – afirmei —Simples, você venderia os seus órgãos —falou e eu balancei a cabeça. —Sim. Com certeza, sim! – eu gostaria que aquilo fosse apenas uma brincadeira e Bridgith percebeu aquilo pelo meu jeito de falar e parou de sorrir. —Não.. Isso nunca foi e nunca será uma opção, já disse que vamos dar um jeito – ela segurou a minha mão com força. Eu tinha esperanças e confiança!
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