Capitulo 5 Continuação

2004 Words
NARRADO POR: MAITÊ — Mas vem cá, Bárbara... — Me sentei na ponta da cama, sentindo um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado central do apartamento. Parecia que o meu sangue tinha virado nitrogênio líquido, congelando cada terminação nervosa que eu estudei tanto pra entender. — Tu conhece esse dono do morro? Esse tal de VK? Tu já viu a peça ou só ouviu falar por alto? Porque uma coisa é a gente ler sobre o crime organizado no jornal, lá no conforto do sofá de couro da mansão, tomando um vinho de cinco mil reais. Outra coisa, completamente diferente e suicida, é sentar no camarote do cara que dita a lei e a morte em tudo o que a gente tá prestes a pisar. Babi parou de revirar a gaveta de lingeries, com rendas e sedas voando pelo quarto como se fossem confetes de um carnaval macabro. Ela me olhou com aquela cara de quem não tava nem aí pro perigo, segurando um batom vermelho sangue na mão como se fosse uma munição de fuzil pronta pra ser disparada. — Conhecer, conhecer de verdade? Não, morena. Nem sei o nome da fera no CPF, só o vulgo que faz a cidade tremer. O Bruno me disse que o cara é papo reto, não gosta de gracinha, não admite erro e mantém a disciplina lá no alto num nível que beira a ditadura. Ele é um mistério até pra quem é de fora, vive nas sombras do Complexo. Mas foca no que importa, Maitê! O foco aqui não é o dono, o foco é o Bruno! Tu não tem noção do que é aquele homem, gata. Ele é lindo pra c*****o, moreno, todo tatuado, com aquele estilo bandido perigoso que faz a gente esquecer até o próprio CRM e o juramento que a gente fez pra salvar vidas. Eu conheci ele pelo Tinder, Maitê! Dei o match e o papo fluiu de um jeito que eu não conseguia parar de digitar, parecia que eu tava drogada só com as palavras dele. Bufei, passando a mão pelo rosto, sentindo a pele arder. A exaustão daquela craniotomia tensa com o Dr. Arnaldo tava querendo me vencer, o cansaço físico era real, mas a ansiedade tava ganhando a luta de goleada. O meu cérebro, treinado pra lógica, pra ciência e pra prever complicações, tava gritando que isso era um diagnóstico de burrice aguda em estágio terminal. — Tinder, Bárbara? Tu tá falando sério ou é um delírio febril? — Encarei ela, incrédula, sentindo o desespero subir pela garganta como um refluxo ácido. — Tu é médica, inteligente, tem um futuro brilhante, e tá confiando a nossa integridade física a um cara que tu deu match num aplicativo de pegação? E se chegar na hora não for nada do que você diz? Quem é esse povo de aplicativo, Babi? Pode ser um perfil falso, pode ser uma emboscada da milícia, pode ser qualquer coisa! A gente tá indo pro Complexo do Alemão baseada num "arrasta pra direita"? Tu tem noção da gravidade disso? É um erro médico na nossa própria vida! Babi deu uma gargalhada alta, daquelas que ecoam no corredor, se jogando na poltrona na minha frente e apontando o celular pra mim como se fosse uma prova irrefutável num tribunal. — Ai, Maitê, larga de ser neurocirurgiã por um minuto e usa o teu instinto de mulher, p***a! Eu fiz o dever de casa, tá? Investiguei o i********: dele, vi as fotos com os moleques, vi os vídeos dele no morro com os radinhos e os cordões de ouro que cegam qualquer um. O cara é real. E as chamadas de vídeo não mentem, o abdômen dele é mais definido que a musculatura do corpo humano que a gente estuda no Atlas do Netter. Ele é o braço direito da gestão do VK. Ele garantiu que a gente vai entrar como convidada de honra, protegida pelo fuzil dele. Tu acha mesmo que um cara na posição dele ia perder tempo armando cilada pra duas doutoras? A gente é o troféu deles amanhã, morena. Eles querem a gente lá pra mostrar que até a elite da Zona Sul se curva pro grave do Alemão. — Eu não me curvo pra ninguém, Bárbara — rebati, a marra falando mais alto que o pavor, embora minhas mãos estivessem suando frio. — Mas eu tenho medo, sim. Eu sou humana. No hospital, eu controlo o sangramento com cautério e gaze. No morro, se o bagulho ficar doido, a gente não controla nem o esfíncter! Se esse Bruno for um psicopata ou se o tal do VK resolver que a gente não vai embora porque gostou da nossa cara? O nó no meu estômago agora era uma massa sólida, um tumor de medo que nenhuma cirurgia ia tirar. Eu comecei a andar de um lado pro outro no quarto da Babi, imaginando os piores cenários. Minha mente criava filmes de terror em alta definição, com trilha sonora de tiro e grito. — E o pior, Bárbara... — Olhei fixo para ela, sentindo o coração martelar as costelas. — E se esses caras resolverem sumir com nós duas? Hein? Já pensou nisso? A gente sobe, entra na toca do lobo por vontade própria e simplesmente desaparece do mapa. Ninguém sabe onde a gente tá, nossos pais acham que estamos no hospital salvando vidas... É o plano perfeito pra um desastre cinematográfico. A gente vira estatística, Babi. "Doutoras desaparecidas no Complexo". Amanhã minha foto tá no jornal e a Sofia vai estar mais preocupada com o que as amigas do tênis vão falar do que com o meu corpo na vala! Bárbara soltou uma gargalhada tão alta que eu tive certeza que o prédio inteiro ouviu. Ela se jogou para trás na poltrona, rindo com vontade, as pernas pro ar, como se eu tivesse contado a piada do século. — Eles são traficantes, Bárbara! Matam sem nem piscar o olho, não tem essa de "conversa civilizada" ou "ética médica" lá em cima não! — Falei, sentindo o desespero começar a me cegar. — Se o bagulho ficar doido lá em cima, a gente vai fazer o quê? Operar eles com um estetoscópio? Tentar reanimar a consciência deles com massagem cardíaca? Melhor a gente levar alguma coisa pra se defender... sei lá, uma faca! Vou levar um bisturi na bolsa, um cabo 3 com lâmina 15. Pelo menos eu sei exatamente onde cortar pra imobilizar alguém, eu sei onde passa a femoral, eu sei onde dói! Bárbara simplesmente dobrou o corpo para frente, as mãos na barriga, o rosto ficando roxo de tanto rir. Ela soltava uns guinchos, sem conseguir respirar. — Uma... uma faca? Um bisturi? — Ela conseguiu balbuciar entre um soluço e outro de riso. — Maitê, tu quer subir o Alemão, o lugar com mais fuzil por metro quadrado do estado, levando um bisturi? Tu vai fazer o quê? Dar uma aula de anatomia aplicada pro cara que tá de AR-15 apontada pra tua testa? "Olha aqui, senhor bandido, não me mate que eu vou te explicar a função do cerebelo"? Ai, meu Deus, eu vou ter um troço! Tu é muito comédia, morena! É muito desespero pra uma dondoca só! — Não tem graça nenhuma, Bárbara! — Bufei, parando na frente dela com os olhos pegando fogo. — É sério, a gente tá falando de entrar no domínio de um cara chamado VK. O vulgo do sujeito já parece código de munição de alto impacto! Sei não, viu... A gente subir amanhã é pedir pra ser o próximo caso do Linha Direta. Acho que vou aproveitar que tô aqui com papel e caneta e vou escrever logo meu testamento, deixar meus livros de neurocirurgia pro Dr. Arnaldo e minha BMW pra você bater e dar perda total, já que vai ser a única coisa que vai sobrar de mim. Vou deixar uma carta pro meu pai dizendo que ele é o maior omisso da história do Rio! Babi limpou as lágrimas de tanto rir e se levantou, vindo na minha direção com aquele jeito dela que parece que a vida é um eterno feriado. Ela me segurou pelos ombros, me sacudindo com força pra ver se eu voltava pra órbita. — Para de ser dramática, Doutora! — Ela me sacudiu. — Testamento o quê, garota! Tu tá na flor da idade, morena, linda, corpo de parar o trânsito e o baile. O Bruno garantiu que o camarote é blindado, papo de rei. Ninguém encosta na gente, é zona proibida pra qualquer um que não seja da cúpula. Tu vai ver que o único "perigo" que tu vai correr é o de não querer mais descer daquela ladeira depois que sentir o grave batendo no teu útero e ver como o mundo ferve lá em cima. Guarda esse bisturi pro Sr. Jorge e foca no teu look. A gente vai dar aula de presença naquele morro! Eu tentei relaxar, mas a curiosidade feminina é um veneno pior que qualquer toxina botulínica. Se eu ia morrer, eu queria pelo menos saber se o meu carrasco valia a pena o risco de ser enterrada em cova rasa. — Tá bom, Bárbara, você venceu! Vou nessa insanidade com você. Mas me tira uma dúvida aqui... — Parei na frente dela, cruzando os braços, sentindo o coração disparado. — Já que eu vou arriscar meu CRM, meu pescoço e a herança da minha família, será que pelo menos esse tal dono, esse VK, é lindo? Ou é um barrigudo careca, com dente de ouro podre e cara de quem não toma banho desde a última ocupação policial? Porque se for pra eu morrer, que seja vendo algo que valha a pena o último suspiro, né? Não quero ser executada por um ogro malcheiroso. Bárbara deu mais uma risada, mas dessa vez foi aquele sorrisinho de lado, cheio de malícia, enquanto voltava a analisar as opções de salto alto no tapete, ignorando completamente o meu surto de pânico. — Aí eu já não sei, morena! O Bruno não me mandou foto do patrão dele, não. Ele diz que o homem é reservado, sinistro, que não gosta de exposição pra não dar mole pro setor de inteligência da polícia. Só sei que o meu Bruno é um espetáculo de homem, moreno, tatuado e com uma pegada que dá pra sentir só pelo tom de voz nas mensagens. Mas o VK... ah, gata, o papo no morro e na pista é que o cara é um monumento de brutalidade. Não imagino ele barrigudo, não. Imagino aquele tipo de homem que só de encostar em você, você esquece até o nome dos teus pais e quer cometer um crime junto com ele. Um bicho, Maitê. Um bicho solto. — Tomara, Bárbara. Porque se eu chegar lá e der de cara com um ogro, eu vou usar aquele bisturi é em você por ter me arrastado pra esse fim de mundo — brinquei, mas por dentro eu sentia um frio na barriga que não passava nem com um litro de rivotril. A noite passou entre garrafas de vinho, risadas nervosas e o planejamento minucioso da nossa "operação invasão". Eu não conseguia pregar o olho, o sono tinha tirado férias por tempo indeterminado. Cada vez que eu fechava as pálpebras, imaginava o Complexo do Alemão como uma boca gigante, cheia de dentes de aço escovado, pronta para me engolir e me mastigar. Eu, a morena da Barra, a dondoca da BMW, que nunca tinha pisado numa comunidade nem pra dar vacina, ia sentar no camarote do cara mais procurado do Rio de Janeiro. Olhei pro meu reflexo no espelho do quarto da Babi. O body preto com as costas nuas tava lá, pendurado, esperando o momento do abate. Eu ia deixar a "Doutora Maitê" trancada naquele apartamento e ia subir o morro como a "Maitê Mulher", a que queria sentir o perigo, a que queria que o grave do funk explodisse todas as amarras da Sofia.
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