CAPITULO 3 VK

1913 Words
O CHEIRO DA MORTE E O PESO DA COROA Voltei pra boca sentindo o asfalto queimar na sola da bota, o corpo ainda vibrando com aquela adrenalina ácida que só a cobrança deixa no sangue. O cheiro de pólvora tava grudado na minha camisa, entranhado nos poros, um perfume maldito que me lembrava o tempo todo quem eu era e o que eu tinha acabado de fazer. A alma? Essa já tava calejada, virada em puro couro de tanto dia de gestão pesada. Guardei o ferro no suporte, sentindo o peso do metal saindo da cintura, mas o peso da responsabilidade continuando ali, esmagando meus ombros. Entrei na sala de contagem e o silêncio foi instantâneo, papo de cinema. Os vapores que tavam no desenrolo voltaram pro trampo com a cara no chão, ninguém ousava sustentar o olhar. Eles sabem que com o VK o papo é reto, sem curva, e que o erro aqui é fatal. No meu domínio, vacilo não faz curva, ele vira vala. O BR já tava lá, encostado na parede com aquela marra dele, braços cruzados, só observando o rastro de destruição que eu trazia no semblante. Ele deu um trago demorado no baseado, a brasa brilhando no escuro da sala, e soltou a fumaça pro alto, quebrando aquele gelo que parecia que ia rachar as paredes. — Precisava matar o cara desse jeito, chefe? — o BR mandou a real, e eu senti um tom de cautela que não é do feitio dele. — O maluco tava rendido, VK. Gaguejando, chorando igual criança, se mijando todo. Podia ter dado só um corretivo, deixado o verme sem andar umas semanas pro papo correr e o exemplo ficar. Mas passar o rodo ali no galpão, na frente de geral... o bagulho foi pesado demais, até pra nossa realidade. Olhei pra ele com a visão cortante, aquela que faz até soldado antigo baixar a guarda e repensar a vida. Me aproximei devagar, sentindo o suor secar no lombo, e parei na frente dele, o semblante mais fechado que porta de cofre de banco central. — Tá com pena agora, Bruno? Virou assistente social e não me avisaram? — disparei, a voz saindo gélida, naquele tom que não admite réplica nem pensamento contrário. — O comédia achou que o meu dinheiro era capim, achou que o armamento da gestão vinha de graça por sedex. O cara tentou crescer o olho no que é nosso, tentou fazer a gente de o****o na cara dura, na frente dos meus soldados. Se eu não deito esse rato ali mesmo, amanhã tem mais dez achando que podem dar migué na conta do pai. Se eu amoleço, a estrutura racha. E se a estrutura rachar, quem cai sou eu. Dei um passo pra frente, intimidando qualquer pensamento de piedade que ele pudesse estar cultivando naquela mente perturbada. — Ele não pagou no dinheiro, então pagou com a vida. No meu morro, a conta sempre fecha, de um jeito ou de outro. Bandido que tem pena de traíra acaba com uma bala na nuca antes de perceber que o mundo girou. Esqueceu como a banda toca por aqui? O aviso tem que ser de sangue pra não ter margem pra dúvida, pra não ter "talvez". Eu não mato porque eu gosto, eu mato porque é necessário pra manter essa engrenagem girando sem ninguém tentar me passar a perna. Pena é luxo de quem mora no asfalto e acha que a vida é um filme da Netflix. Aqui, parceiro, o papo é outro, a realidade morde e não solta. O GT, que tava só na atividade, sacando o clima, se aproximou e deu um toque no ombro do BR, tentando baixar a bola antes que o clima azedasse de vez entre a gente. — Deixa baixo, BR. O patrão tá certo na visão. No crime, se tu amolece o coração, o inimigo te usa de degrau pra subir. O cara vacilou com a carga, sabia do risco desde que entrou pro bonde. O aviso tá dado e o exemplo tá estirado no chão. Quem for esperto, entendeu o recado. Quem não for, é o próximo. Voltei pra minha cadeira, sentindo o peso daquela coroa de espinhos que é ser o dono da p***a toda. Cada vida que eu tirava era um peso a mais na balança, mas era o preço pra manter o Complexo do Alemão debaixo da minha bota, em ordem, sem anarquia. No crime, a bondade é o primeiro passo pra vala, e eu não tava disposto a cair por causa de caloteiro de merda. — Agora vaza todo mundo daqui — ordenei, fechando os olhos por um segundo pra tentar afastar o barulho dos tiros que ainda pareciam ecoar dentro dos meus ouvidos. Fiquei ali, sentindo o silêncio voltar a tomar conta, mas era um silêncio oco. Precisava de ordem. Precisava de foco. — Quero os relatórios da venda de hoje na minha mesa até o final da tarde. Sem rasura, sem erro de centavo. E avisem pra geral da contenção: amanhã o baile tem que ser sem falha, quero tudo organizado no nível máximo, padrão gestão VK. Quero os acessos blindados, os vapores na atividade dobrada, radinho na mão e olho no asfalto. O som vai ser no talo, mas a disciplina vai ser maior ainda. Não quero nenhuma fofoca de briga lá dentro, quem arrumar caô no meu baile vai ser cobrado na hora, sem conversa. O asfalto vai subir e eu quero que a gestão mostre quem manda nessa p***a com ordem, poder e respeito. O GT assentiu, já saindo da sala pra passar a visão pros moleques da linha de frente. Ficou só eu e o BR naquele vácuo, o clima ainda meio denso depois do esculacho. Ele deu o último trago no baseado, jogou a ponta no chão e pisou em cima com gosto, me olhando com aquela cara de quem ia soltar alguma pérola. — Qual foi a de amanhã, VK? Tu tá pilhado com a segurança, mas eu tô focado é na carne nova que tá vindo pro nosso camarote — ele soltou, tentando mudar o clima, com aquele sorriso de canto que sempre indicava que ele tava planejando alguma safadeza. — Carne nova? Tu não cansa não, Bruno? Já te falei mil vezes que essas mina do asfalto só trazem atraso, fofoca e polícia pro nosso lado — respondi, encostando o fuzil no canto da mesa e me jogando na cadeira de couro, sentindo os ossos estalarem. — Que nada, mano! Dessa vez o bagulho é outro patamar. Convidei uma mina que conheci pelo tal do aplicativo... Tinder! — ele soltou a gargalhada, e eu não aguentei, dei um riso seco da cara de p*u dele. — É sério, VK! A mina é uma deusa, papo de capa de revista, pele de seda e marra de rainha. O nome dela é Bárbara. Conversamos um tempão, ela é universitária, marrenta pra c*****o e disse que não tem medo de morro, que quer sentir o grave bater no peito. — Tinder, Bruno? Tu tá de s*******m com a minha história — debochei, cruzando os braços e negando com a cabeça. — Tu é o braço direito da gestão, influente no crime, tem a mulherada do morro toda na tua mão e tá buscando mulher em aplicativo de playboy? Onde é que esse mundo vai parar, parceiro? Tu corre o risco de botar uma informante, uma P2 ou uma doida pra dentro do nosso camarote por causa de um r**o de saia. — Relaxa, chefinho! Eu já fiz a varredura completa nela, a mina é limpa, sem BO, família de bem. E ela não vem sozinha não, ela disse que vai trazer uma amiga pra não ficar no vácuo. Pelo que eu vi nas redes, a tal da amiga é uma morena de parar o trânsito, o nome dela é Maitê. Parece que a mina estuda Medicina, é toda dondoca da Zona Sul, herdeira de sobrenome importante, mas tá doida pra conhecer o "Lado Oposto" da cidade. O bonde das doutoras vai brotar no Alemão, VK. Imagina só a cena: as universitárias morenas descendo até o chão no meio da nossa contenção. Vai ser o evento do ano. Fiquei em silêncio por um momento, as engrenagens da cabeça girando. Medicina. Zona Sul. Uma morena marrenta chamada Maitê. É exatamente o tipo de perfil que eu desprezo: gente que tem tudo no colo, que nunca passou um perrengue na vida e vem buscar adrenalina onde a gente derrama sangue pra não morrer de fome. Eles acham que a nossa dor é atração turística. Mas, por outro lado, uma diversão nova, um rosto que não cheirasse a pó e miséria, não faria m*l pra desestressar desse dia de cão que terminou em execução. — Só toma cuidado pra essa tua Bárbara do aplicativo não virar dor de cabeça pra gestão — avisei, a voz voltando a ficar séria, o tom de comando voltando pro lugar. — Se essas minas subirem, a responsabilidade é toda tua. Se elas virem o que não devem ou se acharem que o meu camarote é playground de luxo pra fazer stories, eu não vou ter um pingo de paciência. Tu sabe que no meu domínio a regra é clara: curtiu, deu o que tinha que dar e tchau, cada um pro seu lado. Não quero nenhuma dessas dondocas achando que pode fazer selfie com o meu fuzil ou postar localização da minha boca. Se elas vacilarem, o bicho vai pegar pro teu lado também. — Que isso, VK! Tu acha que eu sou amador? — BR levantou, já indo em direção à porta, todo empolgado. — Elas vão saber exatamente onde estão pisando. Eu já passei a visão que aqui o sistema é bruto. Amanhã tu vai ver as peças e depois tu me diz se eu tive bom gosto ou não. Prepara o teu psicológico, porque se a tal da morena Maitê for metade do que parece nas fotos, até tu vai esquecer esse teu lema de coração de gelo por umas horas. O asfalto vai descer, mas o clima vai subir! — Vai sonhando, Bruno. Mulher nenhuma faz eu esquecer quem eu sou — murmurei, vendo ele sair da sala todo animado, parecendo um moleque que ia ganhar brinquedo novo. Fiquei ali sozinho de novo, o silêncio da boca sendo cortado apenas pelo som distante de um radinho chiando no corredor. Limpei o suor do rosto com a mão, sentindo a aspereza da pele. Maitê. Morena, futura médica... Nome de quem nunca lavou uma louça, de quem dorme em lençol de mil fios enquanto os meus soldados dormem com um olho aberto e outro fechado. Mas o BR tinha razão numa coisa: a rotina de guerra cansa o espírito. Às vezes, ver um rosto novo, que não exala desespero, é o que a gente precisa pra não virar um bicho de vez. Só que no meu mundo, nada vem de graça, e eu já tava sentindo que esse baile de amanhã ia render muito mais do que só uns amassos no camarote. A ordem tava dada, a segurança tava no ponto, o estoque tava cheio. Agora era só esperar pra ver o que o asfalto ia cuspir pro meu lado. Se a tal da Maitê queria conhecer o perigo, ela tava prestes a entrar no covil do lobo. E eu? Eu ia adorar ver a pose de dondoca dela derreter no calor do meu baile.
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