NARRADO POR: DANIEL LACERDA O som seco do "tu-tu-tu" no telefone foi como uma sentença de morte proferida por um juiz que não aceita apelação. Maitê tinha desligado na minha cara, e o silêncio que ficou na linha era o mesmo silêncio que eu ajudei a cavar no peito dela durante vinte e cinco anos de uma ausência presente. Joguei o celular sobre a mesa de carvalho maciço um móvel que custou o preço de um apartamento popular, mas que não conseguia sustentar o peso da minha consciência e me afundei na poltrona de couro. Senti o cansaço acumulado de décadas de farsa esmagar meus pulmões como se eu estivesse sendo enterrado vivo sob o mármore desta mansão. O escritório estava às escuras, uma penumbra fúnebre iluminada apenas pela luz pálida de um abajur de cristal e pelo brilho frio da lua que

