Nós éramos de turmas diferentes na escola, apesar de estarmos exatamente no mesmo ano letivo. Eu ficava em uma sala e ela em outra, e aquele corredor que nos separava parecia uma distância injusta para quem tinha acabado de encontrar uma conexão tão forte. Foi então que tive uma ideia que, na hora, me pareceu genial: resolvi mover céus e terra, enfrentar a burocracia da secretaria e pedir transferência definitiva para a turma da Eliza. Eu pensava: "Assim a gente pode passar cada segundo juntas, né?". Era o plano perfeito.
Os amigos dela, no entanto, não curtiram muito a novidade, não. Quando coloquei os pés naquela sala pela primeira vez como aluna oficial, rolou aquele "climão" básico que você sente na pele. Foram caras feias, olhares de julgamento de cima a baixo e uns sussurros m*l disfarçados que ecoavam pelas paredes. Eles me viam como a intrusa, a garota tatuada e expulsa que estava "corrompendo" o grupo. Mas, sendo muito sincera? Eu ignoro a opinião deles. Se não gostaram, o problema é deles, porque eu não saio do lado da minha ruiva por nada.
A Eliza ficou em choque no começo. Ela me olhou com aqueles olhos verdes arregalados, do tipo: "Você está maluca, Joice? Mudou de turma só por minha causa?". Eu apenas dei de ombros com o meu melhor sorriso "descarado", e depois de um tempo ela até achou graça da minha audácia. No fim das contas, a minha presença ali virou rotina, algo tão natural quanto respirar. E, pouco a pouco, sem percebermos fomos ficando cada vez mais próximas, entrelaçando nossas vidas de um jeito que não tinha mais volta.
Com o passar dos meses e anos, descobri algo profundo: eu não conseguia mais ficar longe da minha ruiva esquentadinha. Ela já era parte integrante dos meus dias — das nossas risadas escandalosas, das brigas bobas por qualquer motivo e dos silêncios confortáveis que só quem se conhece de verdade consegue compartilhar. Sem eu perceber, a Eliza se tornou o meu lugar seguro no mundo, o meu ponto de paz em meio ao caos.
Nesse exato momento, enquanto escrevo isso mentalmente, estou deitada na cama do meu quarto, no apartamento que meus pais e as mães da Eliza nos deram de presente. Cara, eles foram incríveis, sério. Nunca pensei que fossem topar tão fácil a ideia de morarmos juntas logo que entramos na faculdade... mas eles toparam, e com direito a um lugar só nosso. E aqui estamos: dividindo um cantinho, cada uma com seu espaço, mas sempre conectadas por esse corredor que agora é só nosso.
Apesar de, às vezes, a Liz querer me matar — e ela tem motivos, eu confesso! — está indo tudo bem. A convivência é tranquila… bom, dentro do possível para duas personalidades intensas. O único problema real — segundo ela — é que eu vivo trazendo as garotas com quem fico para pernoitar aqui. Aí já viu o desastre, né? A ruiva vira uma fera de verdade. Ela começa a reclamar, diz que o apartamento virou um desfile, um motel, uma bagunça sem fim... fala de tudo. Mas, no fundo, eu fico me questionando: será que ela só quer manter a ordem do lar ou será que é um ciúme escondido que ela não quer admitir? Vai saber o que passa naquela cabecinha ruiva.
E tem uma coisinha específica que anda me incomodando faz um tempo. Tem um cara na faculdade — um tal de Anthony — que vive rondando a Liz durante o intervalo. O sujeito se acha o último biscoito do pacote, o rei do pedaço, só porque faz Medicina. Sério, pensa num cara metido, insuportável e com um ego que parece não caber num prédio de dez andares. É ele.
O Anthony vive aparecendo do nada com aquele sorrisinho forçado de comercial de pasta de dente e um papo furado que só ele mesmo acha interessante. Ele fica ali, tentando bancar o charmoso, fazendo umas piadinhas sem graça e elogiando a Liz de um jeito invasivo que me dá uma vontade absurda de jogar o meu copo de café quente bem no meio daquela cara dele. E o pior de tudo? A Liz é educada demais para mandar ele pastar de uma vez por todas. Ela sorri, é gentil, e isso só faz o cara crescer mais ainda.
Tenho uma vontade louca de dar uns tapas nesse cara, falo sério. Ele fica ali, todo metido, agindo como se fosse o dono do mundo e a pessoa mais importante da faculdade. Eu só fico de longe, de olho em cada movimento, esperando o momento certo para intervir e mandar ele se catar. Mas, claro, a Liz sempre percebe as minhas intenções e não deixa eu fazer "besteira" — pelo menos por enquanto, porque a minha paciência tem limite.
Ele se acha o máximo só porque tem um carro conversível que brilha no estacionamento. tipo Para ele, o carro já é o suficiente para ser o rei da faculdade. Como se um carrinho desses fosse capaz de comprar uma personalidade de verdade, né? Aff, que saco de cara.
Mas a verdade dói para ele: eu sou muito melhor que esse babaca engomadinho. Sério mesmo. Ele pode até ter aquele sorrisinho treinado, o cabelo sempre perfeitamente arrumadinho e o carro que brilha mais que testa de calouro na semana de prova, mas ele nunca vai ser eu. Ele nunca vai entender a Liz como eu entendo, no olhar.nunca vai fazer ela rir do jeito que eu faço, até ela perder o ar. nunca, em mil anos, vai ser quem realmente precisa ter por perto.
No meu aniversário de dezoito anos, o meu velho me deu o maior presente da minha vida: a moto que era dele, uma Harley Davidson Iron 883. Modéstia à parte? Eu fico simplesmente incrível em cima daquela máquina de metal. Quando saio com aquela belezinha, sinto o poder do ronco do motor entre as minhas pernas. O que tem de garota virando o pescoço para me olhar na rua... é quase um desfile de moda sobre duas rodas. A Liz diz que eu fico me achando demais, que sou convencida, mas eu mesma já peguei ela me olhando de um jeito diferente quando eu chego com a jaqueta de couro e aquele barulho da moto ecoando pelo estacionamento. Ela não tira os olhos de mim, eu sei disso.
Mas agora... eu acho que a Liz vai me matar. Tipo, de verdade, sem direito a defesa.
Ontem ela foi jantar na casa das mães dela e, como eu sabia que ia pernoitar sozinha e o silêncio do apartamento me dá agonia, aceitei o convite de uns amigos da faculdade para ir em uma balada. Só que, né… balada, música batendo no peito, uns drinks de tequila para animar… e aí quem eu encontro lá? Justamente ela. A Marina. Aquela garota com quem eu já tinha ficado uma vez e que a Liz simplesmente detesta com todas as forças. A Marina é bonita, divertida e bebe tequila como ninguém — e é completamente odiada pela minha ruiva.
A gente dançou, deu risada, bebeu mais um pouco… e bem, vocês sabem como as coisas acabam. Agora estou aqui, deitada na cama do meu quarto com uma ressaca batendo, e a tal garota está bem aqui do meu lado, acordada, sorrindo para mim como se nada de errado estivesse acontecendo.
— Quero café — a Marina diz agora, se espreguiçando com preguiça, sem ter a menor noção da bomba atômica que está prestes a explodir no meio desta sala.
E eu? Eu estou aqui paralisada, olhando fixamente para o teto, pensando: ferrou de vez. Porque a qualquer momento a Liz vai entrar por aquela porta achando que vai me encontrar sozinha para tomarmos café juntas. E quando ela der de cara com essa cena... bem, talvez hoje seja o meu último dia com todos os dentes intactos e o rosto inteiro.
Levanto e vou até o banheiro tentar dar um jeito nessa minha cara amassada pela noite m*l dormida. Preciso tirar o cheiro de bebida, o rastro de suor e esse peso de arrependimento que está nos meus ombros. Tomo um banho demorado, daqueles com a água bem quente, tentando lavar não só o corpo, mas também toda a confusão que armei ontem à noite sem pensar nas consequências.
Quando termino o banho, me encaro no espelho. Tá, o reflexo diz que eu continuo viva. Com uma cara de culpada que não dá para esconder, mas viva. Agora é a hora da verdade. É hora de enfrentar a fera ruiva, que com certeza já está na cozinha preparando o café da manhã... ou talvez afiando a língua para me esfolar viva na frente da visita.
E nem adianta tentar bolar uma explicação mirabolante para a presença da Marina no meu quarto. Melhor não dizer nada e agir naturalmente. Vai que a Liz simplesmente não percebe? É, claro, Joice. Como se fosse fácil esconder uma garota semi-nua pedindo café em voz alta no meio do corredor.
Respiro fundo, tomo coragem e saio do quarto. Lá vou eu para o abate.
Chego na cozinha e, para a minha total surpresa, a Liz parece estar em um ótimo humor. Ela já está sentada à mesa, tomando o café dela tranquilamente, com um sorriso enorme grudado no rosto enquanto olha fixamente para a tela do celular.
Me aproximo devagar, sentindo cada passo ecoar, dou um beijo suave no rosto dela — exatamente do jeitinho carinhoso que eu faço todas as manhãs — e solto um:
— Bom dia, minha ruiva esquentadinha.
Ela nem parece ter sentido nada de estranho ou notado a minha tensão. Por um segundo, eu realmente achei que ia conseguir escapar dessa ilesa…
A Liz sorriu para mim de volta e disse com uma voz doce:
— Bom dia, Jô! Olha só que coisa mais linda essa foto do meu novo irmãozinho, o Bernardo. Ele tem 6 anos, e as minhas mães finalmente conseguiram a guarda temporária dele hoje!
Fiquei olhando para a foto daquela criança, sentindo um calor gostoso no peito. Era um momento lindo e, por um instante, esqueci da burrada que eu tinha feito. Parecia que, apesar de toda a minha bagunça, a vida estava encontrando um jeito de ser incrível para a gente. Começo a preparar o meu café, ouvindo a Liz falar animada sobre os planos para o Bernardo, mas a minha mente não parava de calcular como eu ia tirar a garota do quarto sem que a Liz percebesse.
Mas o destino não é bonzinho comigo. De repente, ouvi aquela voz vinda da porta da cozinha:
— Joicinha... cadê meu café?
Olhei para a porta e meu coração parou. Lá estava a Marina, encostada no batente, com um sorriso provocador, vestindo apenas uma camiseta minha e calcinha.
A Liz virou o pescoço devagar para olhar a cena. O frio na barriga que senti foi tão forte que achei que ia desmaiar. Meus últimos segundos na Terra estavam oficialmente contados. Ela respirou fundo, e o rosto dela mudou de cor em segundos, ficando de um vermelho tão intenso quanto o cabelo dela.
E então, com uma voz carregada de uma raiva que fez as xícaras tremerem, ela sibilou o meu nome:
— Joice Vianna... O QUE essa p*****a da Marina está fazendo aqui dentro da nossa casa?!
— Qual é o seu problema, Liz? — a Marina rebateu imediatamente, mantendo o sorriso ácido. — Você não cansa de tentar bancar a dona da Joice, não? Confessa logo para todo mundo… no fundo, você morre de vontade de estar no meu lugar. Você gosta dela, admite.
A Liz estreitou os olhos, as mãos fechadas em punho, dando um passo firme à frente. O clima ficou elétrico.
— Você cala a sua boca, garota. Eu não estou dirigindo a palavra a você, e sinceramente? Eu não estou nem aí para o que uma p*****a como você acha ou deixa de achar.só quero você fora da minha casa AGORA.
Ela virou para mim, com fogo nos olhos, e apontou com força em direção ao corredor dos quartos.
— vou para o meu quarto agora me trocar. Vou demorar exatamente cinco minutos. Quando eu voltar aqui, Joice, se essa p*****a ainda estiver pisando no meu chão, eu mesma vou arrastar ela pelos cabelos para fora. Você me entendeu bem?
Ela saiu da cozinha como um furacão.ainda estava tentando processar tudo, meu cérebro simplesmente entrou em curto-circuito. Só consegui pensar uma coisa enquanto via a poeira baixar: pelo menos eu ainda continuo respirando... por enquanto.
A Marina me lançou um último olhar — uma mistura de irritação profunda com um pouco de mágoa — antes de bufar bem alto, dar as costas e sair pisando firme em direção ao meu quarto para se vestir.
Agora era oficial e definitivo: eu tinha despertado a fúria da maior fera ruiva do planeta... e ainda tinha deixado a Marina solta e brava dentro de casa. Ótimo trabalho, Joice. Nota dez para a minha burrice.
Fui atrás da Marina, claro. não podia deixar ela sair assim, precisava tentar amenizar as coisas. Mas assim que entrei no quarto, ela já estava pronta, pegando a bolsa, com o rosto vermelho de humilhação e os olhos brilhando de raiva.
— É o seguinte, Joice — ela disse, com a voz firme e decidida. — Nunca mais na sua vida ouse me procurar, entendeu? Essa foi a última vez que caí seu papo. Esquece que eu existo, apaga o meu número, porque eu não nasci para ser humilhada por uma amiga sua. Passar bem!
E ela saiu sem me dar um segundo para abrir a boca e pedir desculpas. A porta do apartamento bateu atrás dela com um estrondo que pareceu uma explosão no silêncio que ficou. Tudo o que restou foi uma sensação amarga de derrota no meu peito... e o medo real do que a Eliza ia fazer comigo quando saísse daquele quarto.