Ciúmes à flor da Pele

1436 Words
Nós éramos de turmas diferentes, apesar de estarmos no mesmo ano. Mas aí eu tive uma ideia genial: resolvi pedir transferência pra turma da Eliza. Assim a gente podia passar mais tempo juntas, né? Os amigos dela não curtiram muito, não. Rolou aquele climão básico, umas caras feias, uns sussurros m*l disfarçados. Mas, sinceramente? Não tô nem aí pra opinião deles. A Eliza ficou surpresa no começo — do tipo: "você tá maluca?" — mas depois até achou graça. No fim das contas, minha presença ali virou rotina. E, pouco a pouco, a gente foi ficando cada vez mais próxima. Com o tempo, descobri que não conseguia mais ficar longe da minha ruiva esquentadinha. Ela já era parte dos meus dias — das risadas, das brigas bobas, dos silêncios confortáveis. Sem perceber, Eliza se tornou o meu lugar seguro. Nesse momento, estou deitada na cama, no quarto do apartamento que meus pais e as mães da Eliza nos deram de presente. Cara, eles foram incríveis, sério. Nunca pensei que fossem topar tão fácil a ideia de morarmos juntas... mas toparam. E aqui estamos: só nós duas, dividindo um cantinho só nosso. Apesar de, às vezes, a Liz querer me matar, tá! indo tudo bem. A convivência é tranquila… na medida do possível. O único problema — segundo ela — é que eu vivo trazendo as garotas com quem fico. Aí já viu, né? A ruiva vira uma fera, começa a reclamar, diz que o apê virou desfile, motel, bagunça... essas coisas. Mas, no fundo, eu sei que ela só quer manter a ordem — ou é ciúmes? Vai saber. Tem uma coisinha que anda me incomodando faz um tempo. Um cara da facul — um tal de Anthony — vive rondando a Liz no intervalo. Se acha o último biscoito do pacote só porque faz Medicina. Sério, pensa num cara metido, insuportável e com ego do tamanho de um prédio. É ele. O cara vive aparecendo com aquele sorrisinho forçado e um papo furado que só ele acha interessante. Fica ali, tentando bancar o charmoso, fazendo piadinha sem graça e elogiando a Liz de um jeito que me dá vontade de jogar o meu café na cara dele. E o pior? Liz é educada demais para mandar ele pastar. Tenho vontade de dar uns tapas nesse cara, sério mesmo. Ele fica ali, todo metido, achando que é o dono do mundo, e eu só fico de olho, esperando o momento certo pra mandar ele se catar. Mas, claro, Liz não deixa eu fazer besteira — pelo menos por enquanto. Ele se acha só porque tem um carro conversível. Tipo, só isso já faz ele andar por aí como se fosse o rei da faculdade. Como se um carrinho desses fosse capaz de comprar personalidade, né? Aff, que saco. Mas eu sou muito melhor que esse babaca engomadinho. Sério. Ele pode até ter aquele sorrisinho forçado, o cabelo arrumadinho e o carro que brilha mais que a testa de calouro em semana de prova, mas ele nunca vai ser eu. Nunca vai entender a Liz como eu entendo. Nunca vai fazer ela rir do jeito que eu faço. Nunca vai ser quem ela precisa. No meu aniversário de dezoito anos, meu velho me deu a moto que era dele — uma Harley Davidson Iron 883. Modéstia à parte? Eu fico simplesmente incrível nela. Sério. Quando saio com aquela belezinha, o que tem de garota virando o pescoço pra me olhar... é quase um desfile. A Liz diz que eu fico me achando demais, mas ela mesma não tira os olhos quando eu chego com a jaqueta de couro e aquele ronco da moto ecoando. Acho que a Liz vai me matar. Tipo, de verdade. Ela foi jantar ontem na casa das mães dela e, como eu sabia que ia ficar sozinha, aceitei o convite de uns amigos da facul pra ir numa balada. Só que, né… balada, música boa, uns drinks… e aí quem eu encontro? Justamente ela. Aquela garota com quem eu já tinha ficado uma vez. Bonita, divertida, bebedora de tequila — e completamente odiada pela Liz. A gente dançou, riu, bebeu mais um pouco… e bem, vocês sabem. Agora estou aqui, deitada na cama do meu quarto, e a tal garota tá do meu lado, acordada, sorrindo como se nada estivesse acontecendo. — Quero café — ela diz, se espreguiçando, sem nem saber a bomba que está prestes a explodir. E eu? Eu tô aqui olhando pro teto, pensando: ferrou. Porque a qualquer momento a Liz vai entrar por aquela porta achando que vai me encontrar sozinha. E quando vir essa cena... bem, talvez seja meu último dia com todos os dentes intactos. Vou até o banheiro dar um jeito nessa minha cara amassada, tirar o cheiro de bebida, suor e arrependimento. Tomo um belo banho, daqueles demorados, tentando lavar não só o corpo, mas também a confusão que armei ontem à noite. Quando termino, me olho no espelho. Tá, ainda tô viva. Com cara de culpada, mas viva. Agora é hora de enfrentar a fera ruiva, que com certeza já tá na cozinha preparando o café... ou afiando a língua pra me esfolar viva. E nem adianta tentar explicar a presença da garota no quarto. Melhor nem falar nada. Vai que ela simplesmente não percebe? É, claro, Joice. Como se fosse fácil esconder um corpo semi-nu pedindo café em voz alta. Respiro fundo. Lá vou eu. Chego na cozinha e, pra minha surpresa, Liz parece estar de bom humor. Já está sentada, tomando café tranquilamente, com um sorriso grudado no rosto enquanto olha o celular. Me aproximo devagar, dou um beijo no rosto dela — do jeitinho que faço todas as manhãs — e solto um: — Bom dia, minha ruiva esquentadinha. Ela nem parece ter percebido nada de estranho. Acho que vou conseguir escapar dessa vez... Liz sorriu e disse: — Bom dia, Jô. Olha só essa foto do meu novo irmãozinho, o Bernardo. Ele tem 6 anos, e minhas mães conseguiram a guarda temporária dele. Fiquei olhando a foto, sentindo aquele calor no peito — como se, apesar de tudo, a vida estivesse encontrando um jeito de ser boa pra gente. Começo a preparar meu café enquanto Liz falava animada sobre o Bernardo, mas minha mente não parava de pensar em como ia fazer para ela não perceber a garota no meu quarto. De repente, ouvi alguém me chamar na porta da cozinha: — Joicinha... Olhei e lá estava a garota que estava no meu quarto, encostada na parede perto da porta, vestindo só uma camiseta e calcinha. Liz virou para mim com um olhar que me deu um frio na barriga — parecia que meus últimos segundos na Terra estavam contados. Ela respirou fundo, e o rosto dela já estava vermelho como o cabelo. E então, com uma voz carregada de raiva, ela falou meu nome: — Joice Vianna, O QUE essa p*****a da Marina tá fazendo aqui?! — Qual é, Liz? — Marina rebateu com um sorriso provocador. — Você não cansa de bancar a dona da Joice, não? Confessa logo… no fundo, você gosta dela. Liz estreitou os olhos, dando um passo à frente. — Você fica quieta, garota. Eu não tô falando com você, e sinceramente? Não tô nem aí pro que você acha. Só quero você fora da minha casa. Ela virou para mim e apontou em direção ao corredor. — Vou pro meu quarto me trocar. Quando eu voltar, se essa p*****a ainda estiver aqui, eu mesma coloco ela pra fora. Entendeu? Eu ainda estava tentando processar tudo o que tinha acabado de acontecer. Sério, meu cérebro simplesmente travou. Só consegui pensar uma coisa: pelo menos estou viva... por enquanto. Marina me lançou um último olhar — meio irritado, meio magoado — antes de bufar alto e sair pisando firme em direção ao meu quarto. Agora era oficial: eu tinha despertado a fúria da ruiva... e ainda deixado a Marina solta dentro de casa. Ótimo, Joice. Parabéns pra mim. Fui atrás da Marina, claro. Não dava pra simplesmente deixar tudo daquele jeito. Mas assim que entrei no quarto, ela já estava saindo, com o rosto vermelho e os olhos brilhando de raiva — ou talvez mágoa. — É o seguinte, Joice — ela disse, firme. — Nunca mais na sua vida me procura, ok? Essa foi a última vez. Esquece que eu existo, tá bom? E saiu sem me dar tempo de responder. A porta bateu atrás dela com um estrondo surdo, e tudo que restou foi o silêncio… e uma sensação amarga no peito.
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