Assim que acordo, sinto algo quente e macio grudado nas minhas costas. Abro os olhos devagar, meio zonza, e vejo um braço envolvendo minha cintura. O mundo parece girar, minha cabeça lateja e tento juntar os pedaços na minha mente. O que aconteceu?
Fecho os olhos por um instante, tentando puxar da memória os fragmentos da noite passada. Aos poucos, tudo começa a voltar — o jantar, o vinho, as risadas, as lembranças, a dança… o beijo… e depois…
Sinto o coração acelerar. A presença atrás de mim é familiar. O cheiro é inconfundível. É ela. Joice.
Meu corpo estremece levemente, não de arrependimento, mas de nervosismo. Como se algo tivesse mudado, se quebrado e, ao mesmo tempo, se encaixado.
Respiro fundo, tentando não fazer nenhum movimento brusco. Mas a verdade é que estou me perguntando se tudo isso realmente aconteceu... ou se ainda estou presa em algum sonho doce e confuso.
A ponta dos dedos dela roça levemente minha pele, como se mesmo dormindo, ela não quisesse me soltar.
E eu… sinceramente… não sei se quero que ela solte.
Devagar, tiro o braço de Joice de cima de mim, com todo o cuidado para não acordá-la. Coloco meu travesseiro no lugar, e ela logo se aconchega nele, ainda mergulhada no sono.
Me levanto, e é só então que percebo — estou completamente nua. Um calor sobe pelo meu rosto, não sei se pela lembrança ou pela vergonha. Pego o roupão pendurado atrás da porta e o visto às pressas.
Vou até o banheiro do meu quarto. A luz branca me recebe com um contraste duro demais para meus olhos ainda sonolentos. Me aproximo do espelho... e congelo.
Fico espantada com as marcas vermelhas espalhadas pelo meu pescoço e s***s. São intensas, como a noite em que vivemos. Meus dedos tocam, sem querer, uma delas, e um arrepio percorre minha espinha.
A imagem refletida diante de mim carrega mais do que apenas os vestígios físicos da noite anterior — carrega confusão, desejo, medo... e algo mais profundo que começa a brotar no fundo do peito.
Foi real. Tudo aquilo realmente aconteceu.
Fecho os olhos por um instante, respiro fundo, tentando acalmar a tempestade dentro de mim. E, por mais que a minha mente ainda esteja embaralhada, uma coisa é certa: nada mais será como antes.
Devagar, tiro o roupão, sentindo o ar fresco da manhã tocar minha pele sensibilizada. Caminho até o chuveiro e ligo a água morna, deixando o jato cair suavemente sobre meu corpo.
O calor da água relaxa os músculos tensos, e sinto cada gota levar consigo um pouco das dúvidas e confusões da noite passada. Fecho os olhos, deixando o vapor envolver meu rosto, enquanto tento organizar meus pensamentos.
Aquele momento no chuveiro é um refúgio — um instante só o meu, antes que tudo o que vivemos precise ser confrontado novamente.
Finalize o banho e desligue o chuveiro, sentindo o vapor subir no ar. Enrolei meu corpo na toalha macia, ainda sentindo a pele quente e relaxada. Caminho até a pia, molhando o rosto para despertar de vez, escovando os dentes e ajeitando o cabelo com calma.
Cada gesto é uma tentativa de retomar o controle do meu dia, mesmo com as marcas daquela noite ainda viva em mim — e na minha mente.
Saio do banheiro e vejo Joice ainda dormindo na minha cama, agora de barriga para cima, com os s***s à mostra. Aproximo-me devagar, cubro-a com o cobertor, mas não deixo de admirá-la por alguns segundos.
Depois, vou até meu armário e escolho uma calcinha preta de renda combinando com o sutiã. Para me vestir, opto por um short de moletom cinza e uma camiseta preta de manga curta com gola V, que realça meus s***s. Nos pés, calço meus chinelos.
Saio do quarto com cuidado para não fazer barulho, fechando a porta devagar atrás de mim. O apartamento está silencioso, com a luz suave da manhã entrando pelas frestas das cortinas da sala. Respiro fundo, sentindo o corpo ainda meio leve — e o coração, um pouco confuso.
Caminho até a cozinha, passo os dedos pelos cabelos tentando organizar os meus pensamentos. Ainda era cedo, mas algo em mim precisava daquele silêncio, daquele momento, sozinha… antes de tudo começar de novo.
Então comecei a organizar a cozinha, que ainda guardava vestígios do jantar da noite anterior. As taças vazias, os talheres esquecidos sobre a mesa, pequenos respingos da calda de chocolate no pires… tudo parecia carregar as marcas daquele momento especial — e intenso — que vivemos.
Guardei com cuidado o que sobrou do macarrão maluco e do bolo formigueiro colorido com cobertura de chocolate, tentando não sorrir ao lembrar dos olhares trocados, das palavras, dos toques. Aquele jantar tinha sido mais do que comida; tinha sido entregue.
Depois, fui até a sala. As almofadas fora do lugar, o controle caído no chão, a garrafa vazia de vinho ao lado da poltrona... Peguei tudo e organizei, passando a mão pelo estofado como se quisesse apagar, ou talvez preservar, os traços daquela noite.
Só então, com tudo limpo e em ordem, respirei fundo e me preparei para fazer o café da manhã. Coloquei água para ferver, peguei o pó de café, e comecei a separar o pão, a manteiga e algumas frutas. O aroma do café logo começou a tomar conta do ambiente, e por um instante, tudo pareceu em paz.
Mas lá no fundo, o meu coração ainda batia acelerado — não só pela lembrança do que aconteceu, mas pelo que poderia vir a seguir.
Deixei um pouco a preparação do café de lado ao me lembrar do meu celular. Provavelmente minhas mães tinham mandado mensagem ou ligado, e eu ainda não tinha visto. Fui até meu quarto, onde Joice ainda dormia. Ela parecia tão serena, tão diferente daquela Joice agitada e intensa quando acordada — era lindo vê-la assim.
Peguei o meu celular que estava na mesinha de cabeceira e saí do quarto. Voltei para a cozinha e, ao ligar a tela, vi que havia uma ligação perdida da minha mãe, Nicole.
— Alô? Bom dia, dona Eliza Martinez! Lembrou que tem mães? — escutei a voz da mamãe Nicole do outro lado da linha, já começando com suas gracinhas.
Sorri automaticamente, aquele jeitinho dela sempre me aquecia o coração.
— Alô, mãezinha Nicki… como a senhora está? E a mamãe Júlia? E meu irmãozinho Bernardo, está aprontando muito?
— Senhora é a tua avó, garota! — ela respondeu, com aquele tom brincalhão de sempre. — Estamos bem, meu amor. Só com saudades de você.
Meu sorriso se suavizou com a menção de saudade. Respirei fundo antes de responder:
— Mãe… eu queria conversar com você e com a mamãe Júlia sobre uma coisa. Mas é melhor pessoalmente. Amanhã, depois da faculdade, posso passar lá na loja. Tudo bem?
Houve uma breve pausa do outro lado da linha, e eu senti que ela entendeu que o assunto era sério.
— Claro, meu amor. A gente vai estar te esperando, tá bom? Com direito a café e bolo, como você gosta.
— Combinado, mãezinha. Amo vocês.
— Também te amamos, minha ruivinha.
— Também te amamos, minha ruivinha. — disse mamãe Nicki, com a voz mais suave agora.
— Manda um beijo pra todo mundo aí, tá? E diz pro Bernardo que vou levar aquele chocolate que ele gosta.
— Pode deixar. E vê se aparece mais, viu? A casa fica vazia sem você.
Sorri, sentindo um calor gostoso no peito.
— Eu sei… Também sinto falta de estar aí. Até amanhã, mãezinha.
— Até, meu amor. Se cuida.
Desliguei a chamada com um leve suspiro e fiquei olhando a tela do celular por alguns segundos. Aquela conversa breve foi o suficiente pra aquecer meu coração e me lembrar de onde sempre encontrei amor de verdade.
Guardei o celular e voltei a preparar o café da manhã com um sorriso discreto nos lábios.
Minha cabeça ainda está latejando, como se um tambor estivesse batendo dentro dela. Reviro os olhos e solto um suspiro. Definitivamente, eu não devia ter bebido tanto ontem…
Abandono a preparação do café por um momento e vou até a gaveta da bancada da cozinha. Abro com certa pressa, mexendo entre as cartelas de remédios e envelopes esquecidos. Vasculho até encontrar um comprimido pra dor. Graças a Deus.
Pego um copo, encho com água e tomo o comprimido, apoiando os cotovelos na pia logo em seguida. Fico ali, por alguns segundos, sentindo o frescor da água e torcendo para que o remédio comece a fazer efeito logo.
Respiro fundo. A dor ainda está ali, mas bem lá no fundo, algo em mim também sente aquele calor que ficou da noite passada — confuso, intenso, e, de certo modo… bonito.
Consigo finalizar o preparo de tudo: pão quentinho na torradeira, ovos mexidos com um toque de queijo, fatias de frutas frescas — morangos e banana —, suco de laranja natural e café recém-passado. Coloco tudo com cuidado sobre a mesa, organizando cada prato e copo, concentrada no que estou fazendo.
Quando me viro para pegar uma xícara no armário, percebo que está muito alto para eu alcançar sozinha. De repente, sinto um braço quente envolvendo minha cintura.
— Bom dia, minha ruivinha — Joice sussurra no meu ouvido, com aquela voz doce que me derrete o coração.
Sinto o abraço apertar um pouco mais, e ela sorri perto do meu ouvido.
— Deixa que eu pego pra você a xícara — diz, suave e cuidadosa.
Com uma mão ainda envolta na minha cintura, ela se estica, alcança a xícara no armário alto e me entrega com um olhar cheio de carinho.
— Aqui está, minha ruivinha — murmura, fazendo meu coração acelerar.
Saio do transe e respondo:
— Bom dia! minha maluquinha favorita.
Nos sentamos à mesa para tomar café, e, entre um gole de suco e outro, percebi Joice fazendo uma careta de dor. Ela massageou as têmporas com os dedos e soltou um resmungo.
— Tô com uma dor de cabeça horrível… e o pior é que não lembro quase nada da noite passada.
Ao ouvir isso, senti um aperto no peito. Tentei não demonstrar, forçando um sorriso enquanto olhava para minha xícara de café. Será que ela realmente não se lembrava? Tudo o que vivemos… os beijos, o carinho, a entrega… Será que foi só eu que senti com tanta intensidade?
Respirei fundo, tentando manter a calma.
— Você… você não lembra de nada mesmo? — perguntei, baixinho, sem encará-la diretamente. — Nem mais ou menos?
Joice me olhou, confusa por um instante, depois coçou a cabeça, tentando puxar alguma memória.
— Eu lembro da gente jantando… da música... do vinho… — ela disse devagar, franzindo a testa como se lutasse contra a névoa na mente. — Mas depois… tá tudo meio embaralhado.
Meu coração apertou mais um pouco. Balancei levemente a cabeça, tentando não deixar transparecer a decepção.
— Ah… entendi. — murmurei, levando um pedaço de morango à boca, mais para disfarçar o incômodo do que por fome.
De repente, Joice me olha nos olhos, meio hesitante, e pergunta:
— Liz, eu acordei nua na sua cama... mas não consigo me lembrar de nada do que aconteceu ontem.
Meu peito dispara. Fico congelada por um instante, tentando decidir se conto tudo pra ela ou se é melhor esperar. E se, no fundo, eu for só mais uma? Se, pra Joice, aquilo foi só mais uma noite qualquer?
A dúvida me consome. Será que fui apenas mais uma?
Respiro fundo e respondo, tentando parecer tranquila:
— Eu... só te dei banho, Joice. Você tava meio bêbada e não deixou eu te vestir. Quando eu vi, você já estava dormindo na minha cama. Foi só isso.
Fico esperando a reação dela, insegura se ela vai acreditar. Mas, no fundo, sinto que foi melhor assim... pelo menos por enquanto.
Joice ficou em silêncio por alguns segundos, processando minhas palavras. Seus olhos ficaram marejados, mas não parecia triste — parecia aliviada.
— Obrigada por cuidar de mim, Liz… — ela sussurrou, apertando minha mão sobre a mesa. — Eu sei que você não faria nada que eu não quisesse.
Um sorriso tímido surgiu no meu rosto, e meu coração aqueceu.
— Nunca faria — respondi, olhando bem nos olhos dela. — Você é a pessoa mais importante pra mim.
Ela segurou minha mão com mais força e me puxou para um abraço apertado.
Naquele momento, soube que, apesar das dúvidas e medos, estávamos construindo algo verdadeiro.
No mesmo dia, algumas horas depois
O céu, que até então exibia tons suaves de manhã ensolarado, foi escurecendo de repente. Nuvens pesadas se formaram como um cobertor sobre a cidade e, em poucos minutos, a chuva começou a cair. As gotas batiam forte contra os vidros da janela, criando aquele som ritmado e acolhedor que sempre me trazia uma estranha sensação de paz.
Joice se espreguiçou no sofá, vestida com uma camiseta larga que, pelo jeito, era uma das minhas — e que nela parecia ainda mais provocante. Ela me olhou e sorriu, levantando uma sobrancelha de forma brincalhona.
— Acho que o universo conspirou pra gente ficar em casa hoje… — disse, olhando pra janela. — Dia perfeito pra maratonar umas séries e filmes, hein?
Assenti com um sorriso, aconchegando meu corpo no sofá ao lado dela. Peguei o controle remoto enquanto ela puxava uma coberta felpuda e nos envolvia com ela, sem pedir permissão. Já era o jeito dela — tomar espaço no meu mundo sem nem precisar bater na porta.
— A gente começa por comédia, drama ou terror? — perguntei, mexendo nas opções da TV.
— Comédia primeiro. Quero rir com você antes de chorar com drama e gritar com terror — ela respondeu, com aquele sorriso que sempre me fazia esquecer de respirar.
Apertei o play e logo as primeiras cenas começaram a rolar na tela. Joice colocou a cabeça no meu ombro e, instintivamente, entrelacei nossos dedos debaixo do cobertor. O calor da pele dela misturado ao som da chuva criava um cenário tão confortável, que eu desejava congelar o tempo ali mesmo.
Entre uma gargalhada e outra, trocamos olhares cúmplices. Às vezes, ela fazia comentários bobos só pra me fazer rir ainda mais. Em determinado momento, peguei um pouco de pipoca e brinquei, tentando acertar sua boca com ela.
— Errou feio! — Joice riu, pegando a pipoca do sofá e comendo. — Mira horrível, ruivinha.
— Você que não colaborou — retruquei, rindo, cutucando suas costelas de leve, fazendo ela se contorcer sob a coberta.
Assim passamos boa parte da tarde: pipoca, filmes, risadas, um carinho no cabelo aqui, um beijo no ombro ali. E enquanto a tempestade rugia do lado de fora, dentro de casa, havia só aconchego — e a sensação de que, de alguma forma, estávamos exatamente onde deveríamos estar.
A chuva continuava a cair lá fora, preenchendo o silêncio confortável que se instalava entre nós. Já estava ficando tarde, e depois de horas assistindo filmes e séries, a fome começou a apertar.
— Que tal pedir umas pizzas? — sugeri, sorrindo para Joice, que estava enroscada na coberta ao meu lado.
— Melhor ideia do dia, ruivinha. Meio a meio? — ela respondeu, piscando para mim.
Fui até o celular e fiz o pedido: meia calabresa e quatro queijos, a favorita dela, e a doce de chocolate com morangos que eu não resistia. Completei com uma Coca-Cola para dividir.
Quando as pizzas chegaram, a gente montou um verdadeiro banquete na sala, jogadas no sofá com as caixas abertas em cima da mesinha.
— Eu juro que essa pizza doce é uma das melhores invenções do universo — Joice disse, mordendo um pedaço com aquele sorriso encantador.
— E eu que achava que você só gostava de salgado — provoquei, com um riso.
— Ah, ruivinha, tem que variar. E comer doce com você fica ainda melhor — ela respondeu, piscando.
Comemos sem pressa, entre conversas leves e risadas, trocando olhares cheios de cumplicidade. O relógio parecia desacelerar e eu me sentia feliz, simples assim.
— Depois dessa, acho que vou precisar de uma soneca — falei, bocejando.
— Eu também, minha ruivinha — Joice concordou, ajeitando a coberta sobre as pernas.
Nos levantamos para guardar as caixas e limpar a bagunça, já sentindo o cansaço bater.
— Vou pro meu quarto, preciso de um banho — falei, ainda sorrindo.
— Eu também — ela respondeu, me abraçando rápido.
Cada uma seguiu para seu quarto. Eu deitei na minha cama, o coração quentinho, ainda sentindo o cheiro do perfume dela que ficou no ar. Sabia que, mesmo dormindo separadas, estávamos mais próximas do que nunca.