Em cerca de vinte minutos de viagem, chegamos à faculdade. De longe, já vejo as piranhas de plantão — aquelas mesmas que vivem dando em cima da Joice, como se ela estivesse disponível. Reviro os olhos, respirando fundo. Mas mantenho a pose.
Joice estaciona a moto na vaga de sempre. Espero desligar o motor e, assim que o faz, desço da moto com um movimento leve. Tiro o capacete devagar, como quem não está com um pingo de ciúmes — mas é claro que estou. Passo os dedos pelos meus cabelos para ajeitá-los, dando uma olhadinha ao redor.
Sinto o olhar delas em cima de nós, e principalmente nela. Mas agora... ela está comigo. E eu faço questão de deixar isso claro, mesmo sem precisar dizer uma palavra.
Espero por Joice enquanto ajeito a alça da mochila no ombro. Ela desce da moto com aquele jeitinho despreocupado de sempre, tira o capacete e, como de costume, bagunça ainda mais o cabelo com as mãos — e, claro, fica linda do mesmo jeito.
Nem dá tempo de respirar: algumas daquelas piranhas já começam a se aproximar, com sorrisos forçados e olhares que deixam bem claro o que elas querem. Uma delas mexe no cabelo, a outra força um risinho tímido como se estivesse só passando por acaso.
Reviro os olhos discretamente. Já sei como isso funciona — e não tô a fim de dar show no estacionamento.
Cruzo os braços, fico ali parada observando, mas não escondo a expressão de quem tá prestes a intervir se precisar. E, sinceramente? Se alguma delas passar dos limites, eu passo também.
Joice pega a mochila do bagageiro da moto com calma, como se não estivesse nem aí pra movimentação ao redor. Ela lança um olhar rápido para as garotas que se aproximavam, mas logo volta os olhos pra mim com aquele sorrisinho de canto que só ela sabe fazer.
— Vamos, ruiva — ela diz, jogando a mochila no ombro e vindo até mim, como se nenhuma daquelas presenças inconvenientes existissem.
Me aproximo dela, e sem pensar duas vezes, seguro a mão dela com naturalidade. Não é só um gesto de carinho — é uma marcação de território, sim. E ela entende. Aperta minha mão de volta com firmeza, me lançando aquele olhar cúmplice e travesso ao mesmo tempo.
— Bora enfrentar mais um dia de aula, minha maluquinha — respondo, com um sorriso.
E seguimos lado a lado, deixando para trás os olhares curiosos — e, sinceramente, desnecessários. A gente já sabe quem escolheu quem.
Entramos no campus de mãos dadas, o barulho dos passos misturado com as conversas dos outros alunos que também começavam a se espalhar pelos corredores. Seguimos até os armários, e Joice guardou os capacetes com aquele jeitinho desleixado, mas eficiente dela — quase jogando, mas sempre acertando.
Nos olhamos por um breve instante, e eu sorri.
— Ainda bem que fazemos o mesmo curso — comentei, ajeitando a alça da mochila no ombro.
— Uhum, imagina ter que te ver só nos intervalos? — ela respondeu com uma careta dramática. — Eu ia viver arrumando desculpa pra invadir sua sala.
— E eu ia deixar — retruquei, rindo.
Seguimos então para a aula de Estúdio de Projeto Avançado (Urbanismo) e Sistemas Ambientais 3, atravessando o campus como se o resto do mundo tivesse ficado lá atrás, preso na garagem, junto com as piranhas. Ali, éramos só nós duas — focadas, determinadas… e, claro, com os corações batendo um pouquinho mais rápido do que qualquer conteúdo técnico conseguiria explicar.
Depois de algumas longas horas mergulhadas em análises urbanísticas, maquetes digitais e discussões acaloradas sobre sustentabilidade, finalmente o sinal tocou, anunciando o tão esperado intervalo.
Suspirei aliviada e me estiquei na cadeira, enquanto Joice girava a caneta entre os dedos e murmurava:
— Se eu ouvir mais uma vez a palavra "zoneamento", eu juro que surto.
Ri, apoiando o queixo na mão.
— E ainda temos Sistemas Ambientais depois do almoço… vai vendo.
Joice fez uma careta dramática e, antes que eu completasse o comentário, ela já estava em pé, puxando minha mão.
— Bora pro pátio, ruivinha. Preciso de café. Ou suco. Ou qualquer coisa que não envolva cidade inteligente por alguns minutos.
Saímos juntas da sala, e logo o barulho dos corredores tomou conta do ambiente. Estudantes iam e vinham, grupos se formavam em bancos e mesas espalhadas pelo campus. O céu estava parcialmente nublado, mas o clima fresco deixava o intervalo ainda mais agradável.
Encontramos nosso cantinho favorito debaixo de uma árvore próxima à lanchonete e sentamos no gramado, lado a lado.
— Quer o de sempre? — Joice perguntou, já de pé.
— Por favor — respondi, sorrindo.
Enquanto ela ia até a lanchonete, fiquei ali observando o movimento ao redor e sentindo a brisa leve no rosto. Era nesses momentos simples que eu mais gostava de estar com ela.
Enquanto espero por Joice com nosso lanche, deixo a cabeça tombar levemente para trás e fecho os olhos por alguns segundos. A brisa suave no rosto me ajuda a relaxar. A memória ainda quente do sábado à noite me invade de novo: os toques suaves, o cheiro amadeirado da pele dela, aquele olhar intenso antes do beijo... Como ela sussurrava meu nome, o jeito como me tocava com cuidado e desejo.