E no domingo... os risos, os filmes, a leveza de estar perto, mesmo sem dizer muita coisa. Tudo tão simples e, ao mesmo tempo, tão intenso.
Um sorriso bobo escapa sem que eu perceba. Meu corpo ainda reage só de lembrar o jeito que a Joice me olhou — como se eu fosse a única pessoa no mundo que importava.
Mas, de repente, uma sombra se aproxima. Sinto antes mesmo de ver. Abro os olhos devagar e meu estômago revira no mesmo instante.
Anthony.
— Olá, princesa Eliza. Tudo bem? — ele diz, com aquele sorriso que ele acha sedutor, mas que sempre me parece forçado. — Que pena que você não aceitou minha carona hoje.
O perfume dele é forte demais, doce e enjoativo. Tento não franzir o nariz.
— Como moro junto com a Joice, não é necessário. Sempre viemos juntas, sabe?
Ele força um riso, inclinando a cabeça levemente, analisando cada palavra.
— Entendi… Então, Eliza, o que acha de ir tomar um sorvete comigo depois da aula? Tem uma sorveteria nova, inaugurou semana passada. Sabores sofisticados — diz, como se isso fosse me impressionar.
— Obrigada, mas já tenho compromisso. Vou passar na loja das minhas mães depois das aulas.
Quando menciono minhas mães, noto um leve estremecer em sua expressão. Um franzir quase imperceptível no canto da boca. Mas logo ele recompõe a máscara galanteadora.
— Se quiser, posso te dar uma carona até lá — insiste, com um sorriso enviesado.
— Obrigada, não vai ser necessário. Joice me leva até lá.
Nesse momento, sinto algo familiar se aproximando pelas costas. Um calor suave, um perfume conhecido. Joice.
Ela surge ao meu lado com duas sacolas nas mãos, e antes que eu diga qualquer coisa, passa um dos braços em volta da minha cintura. Me puxa levemente para perto, e sem hesitar, me dá um selinho.
Meu coração dispara. O quê?! Joice me beijou. Em público. Sóbrio. Sem desculpas ou álcool. Simplesmente… me beijou.
— Tá aqui os lanches, minha ruiva esquentadinha — ela diz com aquele sorriso maroto, completamente confortável com a situação.
Anthony parece engasgar com a própria presença. Suas palavras morrem antes de formar som. Fica parado por alguns segundos, o sorriso finalmente caindo da cara dele.
— Bom... então… até depois, Eliza — ele diz, antes de se afastar, claramente incomodado.
Fico ali, com o rosto queimando, ainda sentindo os lábios de Joice nos meus.
— Você me beijou — sussurro, olhando nos olhos verdes claros dela.
Joice dá de ombros, mas o sorriso é cheio de intenção.
— E faria de novo, ruivinha. Aliás… quem mandou esse cara ficar se achando?
Meu peito se aquece, e por um instante, me esqueço do mundo ao redor. Só consigo pensar que, talvez… só talvez… a gente esteja começando algo que nem mesmo entende ainda. Mas que já faz um bem danado.
Nós comemos os lanches em completo silêncio, cada uma imersa em seus próprios pensamentos. O clima estava leve, mas havia uma tensão sutil no ar, como se o que tinha acabado de acontecer não precisasse ser dito — pelo menos, não naquele momento.
Quando o sinal tocou, anunciando o retorno às aulas, levantamos as sacolas vazias quase sem falar, cientes de que a rotina nos chamava de volta.
Sem pressa, guardamos nossas coisas e seguimos juntas pelo corredor, lado a lado, sabendo que o que importava não estava nas palavras, mas naquele espaço silencioso que compartilhávamos.
Duas horas depois, a aula termina e somos liberadas para ir embora.
Enquanto estamos saindo para pegar os capacetes no armário, me virei para Joice.
— Jô, você se importaria de me deixar na loja das minhas mães? — perguntei, com um sorriso tímido. — Prometi que ia passar lá hoje.
Ela parou, me olhando com aquele olhar tranquilo, quase protetor.
— Claro, ruivinha. Pode deixar que eu te levo.
Senti meu coração aquecer. Era simples, mas naquele gesto havia muito mais do que apenas uma carona. Era cuidado, era companhia — e talvez o começo de algo mais.
O motor da moto vibrava suavemente enquanto cruzávamos a avenida principal. O vento bagunçava meus cabelos mesmo com o capacete, e eu mantinha meus braços firmemente envoltos na cintura da Joice. O sol da tarde já começava a baixar, tingindo o céu com tons dourados e alaranjados, e as ruas pareciam mais tranquilas do que de costume.
O silêncio entre nós era confortável. Eu sentia o calor do corpo dela, a firmeza com que pilotava, e meu peito se apertava num misto de gratidão e algo mais profundo que eu ainda não conseguia nomear direito.
De vez em quando, Joice olhava pelo retrovisor, e nossos olhos se encontravam por um segundo que parecia se alongar no tempo. Ela não dizia nada, mas seu olhar dizia tudo: “Tô aqui, tá segura”.
A loja das minhas mães não ficava tão longe. Logo dobramos a esquina da rua arborizada onde ficava a vitrine de vidro elegante com o letreiro dourado: "Brilho de Família – Joias e Sentimentos".
Joice estacionou a moto bem na frente, desligou o motor e tirou o capacete, sacudindo os cabelos de um jeito despreocupado que só ela tinha. Eu desci devagar, ainda um pouco presa àquele instante.
— Chegamos, minha ruiva — ela disse, com aquele sorriso que sempre faz meu coração bater mais rápido.
Tirei o capacete e arrumei os cabelos com as mãos. Me aproximei dela, sem pressa.
— Obrigada por me trazer, Jô. Mesmo.
Ela inclinou o rosto levemente, me olhando nos olhos.
— Sempre que você quiser, eu te trago. Qualquer lugar.
Sorri, tocando de leve o braço dela. Queria dizer mais. Queria segurar aquele instante. Mas o som da porta da loja se abrindo nos interrompeu. Minha mãe Nicole acenava animada, sorrindo.
— Liz! Entra logo, garota, já estava achando que tinha esquecido da gente!
Ri, balançando a cabeça, e olhei mais uma vez pra Joice antes de entrar.
— Me espera uns minutinhos?
— Te espero o tempo que for — ela respondeu, com aquele brilho no olhar.
Entrei na loja com o coração leve. Por mais confusa que estivessem algumas coisas… com ela, eu me sentia exatamente onde deveria estar.
Dei um abraço apertado na mamãe Nicki, sentindo aquele calor de sempre, e logo avistei a mamãe Júlia vindo ao nosso encontro com um sorriso acolhedor.
— Queria muito conversar com vocês sobre uma coisa que tá acontecendo — falei, tentando controlar a ansiedade na voz.
Mamãe Nicki me olhou com carinho e respondeu:
— Claro, filha. Só esperar fecharmos a loja e aí conversamos com calma, tudo bem?
Senti meu coração acalmar um pouco. Saber que elas estavam ali, dispostas a ouvir, já era um conforto enorme.
— Tá bom, mãe. Obrigada — respondi, dando um sorriso leve.
O clima na loja era tranquilo, mas eu sabia que aquela conversa era importante. Enquanto aguardava, olhei pela vitrine e pensei no quanto a minha vida estava mudando — e contar com elas era fundamental.
Já no escritório, sentei-me no sofá, com mamãe Nicki e mamãe Júlia acomodadas uma de cada lado, como de costume nas conversas importantes. A luz suave entrava pelas janelas, trazendo uma calma aparente, mas o peso do que eu precisava dizer apertava meu peito.
Respirei fundo e comecei:
— Tem algo que preciso compartilhar com vocês... é sobre a Joice, sobre nós.
Elas me olharam com atenção, esperando que eu continuasse. Aos poucos, a coragem foi surgindo enquanto as palavras tomavam forma.
— De uns tempos para cá, meus sentimentos em relação à Joice mudaram... No sábado, fiquei furiosa por ela ter trazido uma qualquer para casa. Não consigo vê-la rodeada de outras garotas — isso me irrita, me desestabiliza. O cheiro dela, aqueles olhos verdes claros... me deixam sem conseguir ficar longe.
Continuei, com a voz firme apesar da emoção:
— Naquela noite, ela fez um jantar especial para se desculpar, preparou meu prato favorito, comprou o bolo e até o vinho que eu gosto... Foi a melhor coisa que ela já fez por mim.
Mamãe Nicki sorriu levemente, enquanto mamãe Júlia segurava minha mão com carinho.
— Querida, é normal sentir tudo isso quando alguém se torna tão importante para você — disse Nicki. — O que importa é que vocês se entendam e se respeitem.
— Estamos aqui para o que precisar — completou Júlia, apertando minha mão.
Senti o coração aquecer com o apoio delas, pronta para enfrentar o que viesse, sabendo que não estava sozinha.
— Eu nunca tinha gostado de garotas antes, mamães — confessei, desviando o olhar, sentindo uma mistura de vergonha e alívio por dizer aquilo em voz alta.
Mamãe Nicki sorriu compreensiva e falou, com a voz doce:
— Filha, não existe certo ou errado quando o assunto é o coração. O importante é que você seja feliz e verdadeira consigo mesma.
Mamãe Júlia concordou, apertando minha mão com carinho:
— O amor pode chegar de formas inesperadas, e quando ele chega, a gente só precisa abraçar.
Fiquei ali, ouvindo suas palavras, sentindo pela primeira vez que podia ser quem eu realmente era, sem medo, com o apoio das pessoas que mais amava.
Mamãe Nicki olhou para mim com aquele olhar cheio de ternura e disse:
— Minha filha, o que importa é ser sincera. Guardar sentimentos só pesa no coração. Mas você precisa escolher o momento certo, com calma e respeito.
Mamãe Júlia completou, sorrindo:
— E saiba que, independente do que acontecer, você merece amor e verdade. Se ela não sentir o mesmo, não é o fim do mundo — é só o começo de um novo caminho.
Respirei fundo, sentindo um pouco mais de coragem crescer dentro de mim. Talvez fosse hora de enfrentar esse medo, de abrir meu coração para Joice, e confiar que o que for, será o melhor.
Depois de me despedir de minhas mães, saí da loja e encontrei Joice encostada na moto, o olhar tranquilo, esperando por mim.
Ela sorriu ao me ver e chamou:
— Vamos para casa, ruiva?
Senti um calor gostoso no peito ao ouvir aquele apelido, respondi com um sorriso:
— Vamos sim, Jô.
Subi na moto, ajeitei a mochila e segurei firme a cintura dela enquanto saíamos pela rua, deixando para trás as preocupações, seguindo juntas para nosso refúgio.
Chegamos em casa. Cada uma foi para seu quarto. Deixei minha mochila em cima da cama, tirei a jaqueta e deixei na cama, tirei os tênis e fui até o banheiro para tomar um banho rápido.
Enquanto estava no banho, decidi que hoje eu iria dizer tudo o que sinto para Joice.
Finalize o banho, saio do banheiro e vou até o guarda-roupa. Escolho uma calcinha rosa de renda, uma camiseta preta larga e um short de moletom soltinho cinza.
Sai do quarto determinada a me declarar para Joice, e fui até o quarto dela. Entrei sem bater. Lá estava ela, terminando de vestir uma camiseta cinza larga, e só de calcinha azul claro.
Meu coração disparou. Não consegui pensar em mais nada. Apenas me aproximei dela, ficando bem na frente. Fiquei na ponta dos pés, segurei o rosto dela delicadamente em minhas mãos e a beijei com desejo.
O beijo foi intenso, cheio de tudo o que eu estava guardando até então — vontade, medo, esperança. Senti o calor do corpo dela se aproximando, o toque suave dos seus lábios me puxando para mais perto.
Naquele instante, não existia mais nada além de nós duas.
Senti as mãos dela deslizando pela minha cintura, puxando meu corpo com uma urgência doce, como se quisesse apagar toda a distância que existia entre nós. O calor do toque dela me invadia, fazendo meu coração acelerar ainda mais.
Joice me segurava firme, como se não quisesse me deixar ir, enquanto nossos lábios continuavam colados, trocando aquele beijo carregado de desejo e promessa.
Por um instante, tudo ficou em silêncio — só o som das nossas respirações entrelaçadas preenchia o quarto. Eu sabia que aquele momento era o começo de algo novo, algo que nenhuma de nós tinha coragem de admitir antes.
— Liz… — ela sussurrou, a voz rouca de emoção, — eu também sinto tudo isso.
Meu sorriso se abriu, aliviado e feliz, enquanto nossas mãos se entrelaçavam, selando sem palavras o que nossos corações já sabiam.
Então, com o coração batendo forte e as mãos ainda entrelaçadas, olhei profundamente nos olhos dela, buscando coragem nas profundezas da minha alma.
— Joice — comecei, com a voz trêmula, mas sincera — eu não sei exatamente quando tudo mudou, mas sei que você se tornou a pessoa mais importante na minha vida. Eu te amo. Amo cada detalhe seu, cada sorriso, cada toque... E não quero mais esconder isso.
Fiquei esperando, com o peito apertado, pronta para qualquer resposta, sabendo que finalmente tinha sido honesta comigo mesma e com ela.
O sorriso dela foi imediato, suave e cheio de ternura. Joice passou os dedos devagar pela minha bochecha, como se estivesse tentando guardar aquele momento na memória.
— Eu também sinto o mesmo, minha ruiva esquentadinha — ela disse, com a voz carregada de emoção, mas com aquele jeitinho brincalhão que só ela tem. — Acho que sempre senti... só estava esperando você perceber também.
Ela se inclinou e me beijou de novo, agora com calma, do jeito que só alguém que ama sabe fazer. Um beijo que dizia tudo o que as palavras não conseguiam expressar. Ali, nos braços dela, eu soube: eu estava exatamente onde devia estar.
O beijo foi se tornando mais intenso, carregado de tudo o que havíamos segurado por tanto tempo. As mãos dela na minha cintura me puxavam com firmeza, e antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, senti Joice me erguer com facilidade, me fazendo rir baixinho contra os lábios dela.
Com um movimento ágil, ela me levou até a cama, ainda no colo dela, sem romper o contato entre nossas bocas. Caímos ali, juntas, o mundo todo ficando pequeno ao nosso redor.
— Você não faz ideia do quanto eu esperei por isso — ela sussurrou, com a testa encostada na minha.
Meus dedos se entrelaçaram aos dela, e, com um sorriso tímido, respondi:
— Eu acho que sempre quis... só tinha medo de admitir.
Nos olhamos por um segundo longo e cheio de significado, antes de nos beijarmos novamente — agora sem pressa, com a certeza de quem finalmente se encontrou.
Joice me olhou com uma mistura de nervosismo e doçura nos olhos, ainda com as mãos entrelaçadas às minhas. Ela respirou fundo, como se estivesse reunindo toda a coragem do mundo, e então falou, com a voz levemente trêmula:
— Eliza... você quer namorar comigo?
Antes que eu pudesse responder, ela esticou o braço para o criado-mudo ao lado da cama, abriu a gaveta e tirou de lá uma caixinha pequena de veludo azul-marinho. Meu coração quase parou.
Ela abriu a caixinha, revelando um anel simples, delicado, mas lindo — e ainda mais especial por vir dela.
— Eu guardei esse anel já faz um tempo… só esperando o momento certo. E… bem, acho que agora é esse momento. Então, minha ruivinha esquentadinha… aceita namorar comigo?
Fiquei sem ar por alguns segundos, os olhos marejando. Então sorri, sentindo meu coração explodir de felicidade.
— Claro que sim, sua maluquinha. É tudo o que eu mais quero.
Ela colocou o anel no meu dedo com mãos trêmulas, e nos abraçamos ali mesmo, rindo e chorando um pouquinho. O mundo podia esperar. Naquele instante, só existíamos nós duas — e um amor que finalmente tinha nome.