Benjamin Rollins
Bati na porta do quarto dela uma. Duas vezes.
Ela não respondeu. Eu só escutei um baque surdo e bem baixo contra a porta, como se ela tivesse jogado um travesseiro contra a madeira.
Ótimo.
Era tudo o que eu precisava. Minha irmãzinha, com raiva de mim porque eu disse que ela era uma péssima aluna.
— Amanda… Abre aqui… — pedi, encostando a testa na porta.
— Me deixa em paz!
A voz dela do outro lado não tinha mais o tom agudo da infância. Estava mais grave, mais firme, e essa pequena variação acústica foi como um estalo no meu crânio. Eu ainda me lembrava de como ela chorava quando raspava o joelho; agora, ela chorava por causa de uma discussão sobre pipoca e a minha indiferença — ou o que ela achava que era indiferença.
Eu não era um i****a.
Eu era um o****o do c*****o.
Amanda só precisava de um maldito biquinho birrento para acabar comigo.
Quando ela tinha cinco anos e eu saia para jogar com meus amigos, esse bico me fazia ficar em casa. Quando ela menstruou pela primeira vez, esse mesmo bico me fez atravessar o país inteiro só para que ela dormisse quentinha no meu abraço.
E por esse mesmo bico… nenhum dos meus relacionamentos dava certo.
— Amanda, por favor — tentei de novo, a voz um sussurro rouco. Meus dedos, por puro hábito, acariciaram a maçaneta, mas não giraram. Eu não tinha o direito de entrar. Eu não tinha o direito de consertar nada. — Eu só… eu não quis dizer aquilo.
Mentira. Eu disse exatamente o que precisava dizer para mantê-la longe, e agora eu estava ali, morrendo por dentro para que ela me deixasse entrar.
E se eu apelar? Às vezes funcionava…
— Minha princesa… — disse, um pouco mais alto, dando mais dois toques na porta. — Por favor…
— Eu não quero! — a voz dela soou abafada, quase distorcida pela madeira.
Aquilo deveria ter sido o suficiente. Ela não queria. Eu deveria virar as costas, caminhar até o meu quarto, tomar um banho gelado e tentar não pensar no contorno daquele coque desfeito ou na forma como o hálito dela, cheirando a pipoca e vodka, ainda parecia pairar ao meu redor.
Mas meus pés não se moveram. A humilhação de ter sido recusado — eu, que sempre era a resposta para tudo o que ela precisava — queimou mais do que o álcool que eu tinha bebido.
— Princesa, me escuta… — minha voz falhou, e eu a odiei por isso. — Eu sou um babaca. Eu sei que sou. Mas não me deixa aqui fora no escuro, como se eu fosse um estranho. Você sabe que eu não consigo dormir se souber que você está chorando.
E você sabe que eu não consigo viver se você estiver longe de mim.
Houve um silêncio do outro lado da porta. Daqueles que pareciam suspeitos demais, principalmente vindo dela. E então…
Click.
A porta abriu só uma frestinha.
— Vem cá… — chamei uma vez, mantendo a testa encostada na moldura da porta.
Amanda levantou a cabeça, os olhos estavam úmidos. Por favor, não faz isso comigo. Não aqui. Não com nossos pais dormindo no quarto ao lado.
— Me desculpa… — pedi baixinho, empurrando a porta devagar com os dedos.
— Você me odeia…
Não. Por tudo o que é mais sagrado, eu não odeio.
— Eu amo você, Amanda. Você é minha pirralha, esqueceu? — murmurei, encaixando meu indicador entre seus dedos. — Vem cá.
Entrei no quarto sem soltar a mão dela. O ambiente cheirava a lavanda e ao perfume que ela usava, um contraste doce demais para a minha lucidez já despedaçada. Amanda não recuou. Ela estava de pé, bem ali, e a luz fraca do abajur iluminava o brilho das lágrimas nos seus olhos verdes, tornando-os quase transparentes.
— Eu nunca te odiaria — completei, minha voz m*l saindo acima de um sussurro.
Estávamos perto demais. Eu podia ver o ritmo da respiração dela, o subir e descer do peito logo abaixo da camiseta que eu conhecia tão bem. O quarto pareceu diminuir, as paredes parecendo se fechar sobre nós. Eu deveria dar um passo atrás, manter a distância segura que eu vinha tentando construir há anos.
Mas meus dedos, ainda enlaçados aos dela, puxaram-na levemente. E, pela primeira vez, eu não me importei com as consequências. Eu só queria que ela parasse de chorar e que o resto do mundo, lá fora, deixasse de existir por alguns minutos.
A culpa era toda minha por ter crescido fazendo absolutamente todas as vontades dela. A culpa era minha por nunca ter sabido dizer não a ela.
E isso ela tinha plena consciência. Palavras dela mesma.
— Eu acho bom mesmo! — ela rosnou, esfregando o nariz pequenininho no meu peito.
Eu disse.
— Você é muito chantagista, sabia? — resmunguei, beijando o tipo de sua cabeça.
— Então você não pode dizer que eu sou uma péssima aprendiz…
Todas às vezes eu caía feito um patinho. Eu sabia que era chantagem. Sabia que nada tinha a magoado de verdade. E mesmo assim deixava.
Talvez porque vê-la tirar uma onda com a minha cara era melhor do que não tê-la por perto. Ou talvez… porque eu gostava.
E a segunda opção era a que mais me aterrorizava.
O silêncio do quarto era pesado, carregado com o cheiro dela e o som da nossa respiração. Eu deveria soltá-la. Deveria dar um passo para trás, desejar boa noite e fechar a porta, retirando-me para o meu próprio exílio. Mas meus braços — braços que passavam meses carregando livros pesados de medicina — pareciam ancorados ali, mantendo-a presa contra mim.
— Pode dormir comigo? — perguntou, naquele tom infantil que me levava direto para o inferno.
Eu queria dizer que não. Eu devia dizer que não.
Mas como eu disse… eu não negava nada a ela.
Se Amanda me desse um prato com veneno, provavelmente eu comeria, se isso a fizesse feliz.
— Posso.
Ela não esperou pela minha autorização final. Soltou-se do abraço apenas para mergulhar sob o cobertor, dando espaço para que eu me acomodasse ao seu lado. O colchão afundou sob o meu peso, e o contraste entre o meu corpo grande e o dela, que parecia desaparecer no meio das almofadas, foi uma facada na minha sanidade.
Apaguei o abajur, mergulhando o quarto em uma penumbra azulada que parecia ocultar melhor os meus pecados. Amanda se virou de lado, as costas coladas ao meu peito, a respiração já se tornando ritmada. Ela estava em paz. Ela estava em casa.
Enquanto isso, cada centímetro do meu corpo estava em chamas. Eu era um estudante de medicina que entendia de anatomia, de fluxos sanguíneos, de como o coração respondia a estímulos de adrenalina.
Mas ali, naquela cama, eu não conseguia sequer controlar a minha própria respiração para não acordá-la. Eu estava condenado, e o pior era que, deitado ali, cercado pelo cheiro dela, eu não conseguia imaginar outro lugar onde preferisse estar.
No meio da noite, ela rolou por cima de mim. Uma daquelas manias estranhas que todos têm. Ela dormia por cima dos travesseiros. E quando tinha alguém como companhia, fazia a mesma coisa.
E o que já estava terrível, conseguiu piorar drasticamente.
Sua respiração batia contra meu peito suavemente. Às vezes ela soltava pequenos roncos que para mim soavam como um ronronar de um gato. Às vezes esfregava o nariz contra meu pescoço. Ou então se ajeitava entre as minhas pernas.
Por que isso tinha que acontecer justo comigo?
Eu tentei recorrer aos manuais de fisiologia. Tentei pensar em patologias, em prontuários, em qualquer coisa que não fosse a pressão da perna dela sobre a minha. Mas o meu cérebro, antes um instrumento preciso, estava se tornando uma massa informe de sensações. A cada vez que ela se movia — um suspiro profundo, um ajuste de braço, aquele nariz esfregando contra a minha pele — uma descarga elétrica percorria a minha coluna.
Não pense. Apenas respire. Você é o irmão mais velho. Você é o protetor.
Mas a biologia era uma traidora. O meu corpo não entendia o contexto social, a história, o tabu. Ele apenas entendia que ela estava ali, que ela era minha, e que cada fibra da minha sanidade estava se desfazendo sob o peso daquele sono indiferente. Eu fechei os olhos com força, afundando a nuca no travesseiro, sentindo-me como um cirurgião que, no meio de uma operação delicada, percebe que as próprias mãos não param de tremer.
Amanda era minha provação divina. Meu castigo. E a p***a da minha salvação.
Se é que existia salvação para mim.