06 - RUSSO

1047 Words
O motor da minha XT 660 roncava alto na subida do Morro dos Macacos, o território dos nossos aliados. Eu tinha 26 anos, mais de um metro e noventa de altura, o corpo fechado no porte musculoso de quem carregava o peso da Rocinha nas costas. O vento da madrugada batia na minha cara, mas minha mente estava no automático. Eu amo os bailes, papo reto, amo o ritmo do grave sacudindo as estruturas, a adrenalina da favela pulsando. Mas, p***a, se tem uma parada que me estressa é esse monte de p**a em cima de mim, achando que só porque eu tenho o poder nas mãos, eu vou me derreter por qualquer r**o de saia que rebola na minha frente. Estacionei a moto na contenção perto da quadra e desci. Logo atrás de mim vinha o meu sub-chefe, o Henrique, que no crime todo mundo conhecia pelo vulgo de Rato. O apelido não era porque o moleque roubava — longe disso, o cria trabalhava na pureza —, mas porque desde moleque ele tinha um vício doentio em comer queijo. Se você olhasse para o bolso da jaqueta dele agora, com certeza ia achar um pedaço de queijo prato ou de minas embrulhado num plástico. Junto com a gente, subiram mais alguns crias da nossa linha de frente, incluindo o Breno, que tinha subido na hierarquia da nossa barreira recentemente e andava se achando o dono do mundo por causa disso. Assim que pisamos no camarote principal, o bagulho já estava daquele jeito: fumaça, uísque do caro e o grave estourando os tímpanos. O dono do Morro dos Macacos, o meu parceiro de longa data vulgo Cangaceiro, correu na minha direção com um sorriso de orelha a orelha. O cara tinha acabado de conquistar a liberdade, saindo da tranca daquela prisão de segurança máxima na semana passada, e a festa hoje era por conta dele. — Russo, meu irmão! — Cangaceiro gritou, me dando um abraço forte e batendo nas minhas costas. — Brotou na pureza! Hoje o bagulho não tem hora para acabar, menor! Tudo liberado, consome o que quiser, a favela é nossa! — Fé, meu mano. Liberdade cantou, você merece — respondi, dando um aperto de mão firme e um abraço de lado nele. Não demorou dois minutos para o camarote começar a entupir. Uma fila de putas começou a subir os degraus, rebolando e caçando os olhares dos caras que estavam com os fuzis no peito. Breno, que m*l tinha chegado e já exalava aquele perfume forte de quem passou o dia na rua, não perdeu tempo. Com aquela arrogância que já estava me irritando, ele puxou uma p*****a de short curto pelo braço e botou do lado dele, rindo alto e querendo se gabar para os outros crias. Eu olhei aquilo e senti o meu estômago revirar. Odiava aquela merda, aquela falta de postura. Mas como a gente estava fora da Rocinha, em morro alheio, eu não podia ditar as regras do camarote nem mandar ele se portar. Fiquei na minha. Rato, do meu lado, já estava de olho em uma loira que estava rebolando perto do combo de vodca. Ele deu um gole na bebida dele, pediu uma porção de frios no balcão, com a satisfação de comer o queijo dele e deu um passo na direção da mina, já se engraçando e soltando o caô dele. Eu caminhei até o fundo do camarote e sentei num sofá de couro, cruzando os braços e mantendo a cara fechada de poucos amigos. Uma p*****a de cabelo vermelho tentou se aproximar, rebolando na direção das minhas pernas, mas eu só dei um olhar frio, daqueles que fazem o sangue congelar, e apontei o dedo para fora. Ela entendeu o recado na hora e se afastou. Nenhuma era maluca de insistir. A única mulher que eu ainda deixava encostar em mim de vez em quando, no meu canto, era a Amanda. Mas o esquema com ela era seco, na risca: sem beijo na boca, sem chupada, sem p***a nenhuma de i********e emocional. Era só o ato ali na carne para aliviar a tensão do plantão, e tchau. Os caras do morro achavam que eu era frio, que eu era um bicho sem coração que só pensava em guerra e em gerenciar a boca de fumo. Eles achavam que eu vivia na pista porque gostava da p*****a. Mal sabiam eles. No fundo, bem escondido atrás dessa marra de chefe implacável, o que eu guardava no peito era uma parada que eu jamais abriria a boca para falar para alguém. Meus pais tinham morrido há uns 8 anos, em uma das piores fases da minha vida, mas a lembrança do que eles tinham dentro de casa nunca sumiu da minha mente. Eles eram perfeitos um com o outro. O meu coroa, mesmo vivendo no crime - na frente da Rocinha, sempre fez questão de respeitar a minha mãe como se ela fosse uma rainha. Tratava ela na maior pureza, com um carinho e uma dignidade que eu nunca vi em outro lugar. E, no fundo da minha alma, era exatamente aquilo que eu queria para mim. Eu queria uma mulher de verdade, uma menina de família para eu cuidar, respeitar e colocar no topo do meu mundo, honrando o que meu pai me ensinou antes de partir. Mas o crime não aceita fraqueza, e se eu falasse isso alto, os caras iam achar que o chefe estava amolecendo. O único ser humano na terra que sabia desse meu lado, e que lembrava de como era a minha casa antes de eu perder os meus coroas, era o Rato. A gente foi criado lado a lado, comendo no mesmo prato desde moleque, dividindo o mesmo teto quando as coisas apertavam. Ele conhecia o Russo por trás do fuzil. Olhei de canto de olho para o Breno, que estava quase engolindo a p*****a no canto do camarote, rindo igual um o****o e ostentando o ouro no pescoço. Uma sensação r**m bateu no meu peito, um pressentimento de que a postura daquele moleque ainda ia dar problema na minha barreira. Dei um longo gole no meu uísque puro, mantendo os olhos fixos na pista lá embaixo, esperando o tempo passar enquanto a favela tremia sob os meus pés.
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