A claridade cinzenta da manhã entrava pelas frestas da telha de amianto, cortando a escuridão do quarto e trazendo consigo o peso de mais um dia naquele inferno. Abri os olhos devagar, sentindo o meu corpo inteiro pesado, como se estivesse carregando toneladas de chumbo. Virei de lado com cuidado, sentindo um suor frio cobrir a minha testa. No mesmo segundo, a minha garganta travou. O estômago deu uma volta completa, um nó violento que fez a minha boca encher de saliva ácida.
Eu já sabia o que aquilo significava. Fazia exatamente um mês desde o dia em que eu tinha descoberto que estava grávida. Um mês desde o dia em que o teste que a dona Rosa comprou tinha mudado o rumo da minha existência.
Levei a mão trêmula até a minha barriga, por baixo da camiseta velha que eu usava para dormir. Ali, bem no pé do ventre, já dava para sentir um leve inchaço, uma curvinha tímida que quase ninguém notaria, mas que para mim era o foco de todo o meu mundo. Para a medicina, era só o começo; para mim, era o meu único motivo para continuar respirando.
Olhei para o lado na cama. Breno ainda estava apagado, de bruços, roncando alto com o braço jogado por cima do travesseiro. Ele exalava aquele cheiro pesado de uísque barato e cigarro que trazia dos bailes, misturado com o suor da noite. Senti um alívio imenso ao ver que ele estava longe de mim. Se existia um milagre no meio daquele pesadelo, era o fato de que ele não me procurava mais na cama. Desde o dia em que gritei que estava grávida e levei aquele tapa violento, ele passou a me olhar com repulsa.
— Não encosta em mim com esse corpo esquisito — ele tinha cuspido na minha cara duas semanas atrás, quando tentei me aproximar para pedir comida. — Tenho nojo de grávida. Mulher buxuda fica horrorosa, cheia de mancha, mole. Fica aí no teu canto que eu busco o meu prazer na pista.
Eu não dizia nada. No fundo, eu agradecia a Deus todos os dias por aquele nojo. O desinteresse dele era a minha única armadura. Era o que mantinha o meu corpo seguro dos abusos noturnos, o que me dava um pouco de paz no escuro.
O estômago contraiu de novo, mais forte. A náusea subiu rasgando o meu peito. Segurei a boca com as duas mãos, levantei da cama sem fazer nenhum barulho para não acordar o monstro e corri em direção ao banheiro pequeno nos fundos do barraco.
Mal consegui fechar a porta de plástico sanfonada. Caí de joelhos no chão de cimento frio, apoiei as mãos na borda do vaso sanitário e pus tudo para fora. Meu corpo inteiro sacudia com os espasmos. Como eu quase não conseguia comer à noite por causa do nervosismo, o que saía era apenas um líquido azedo e amargo que queimava a minha garganta e fazia os meus olhos lacrimejarem. Os enjoos matinais eram horriveis, uma tortura diária que parecia esvaziar minhas forças logo nas primeiras horas do dia.
Fiquei ali de joelhos por longos minutos, respirando arquejada, esperando a tontura passar. Quando o estômago finalmente se acalmou, estiquei o braço, liguei a torneira da pia e joguei um pouco de água fria no rosto. Minha pele estava pálida, os olhos castanhos cheios de olheiras profundas. Peguei a minha escova de dentes, coloquei um pouco de pasta e comecei a escovar, tentando tirar aquele gosto horrível da boca.
Eu estava terminando de enxaguar a boca, cuspindo a água na pia, quando o barulho pesado de passos no corredor fez o meu corpo congelar. O ar sumiu dos meus pulmões. Antes que eu pudesse me virar para fechar a porta de verdade, a estrutura de plástico foi empurrada com violência.
Breno estava em pé no vão da porta. Os olhos dele estavam vermelhos de sono, cheios de remela, e a expressão no rosto dele era pura irritação. Ele coçava a barriga, olhando para mim como se eu fosse um estorvo no caminho dele.
— Que p***a de barulho é esse logo cedo, Pietra? — ele rosnou, a voz grossa, arrastada pelo resto de sono. — Você não consegue fazer nada direito, nem vomitar em silêncio? Acordou a p***a do meu sono com essa tua função.
— Desculpa, Breno... — murmurei, secando a boca com as costas da mão, tentando dar um passo para trás para sair de perto dele. — É só o enjoô da gravidez. Já passou. Eu tava só escovando os dentes...
Eu não tive tempo de terminar a frase. Em um movimento rápido e brutal, a mão grande dele avançou na minha direção. Os dedos dele se cravaram com força no meio dos meus cachos pretos, bem perto da raiz, no topo da minha cabeça. O puxão foi tão violento que o meu pescoço estalou para trás. Dei um grito agudo de dor, sentindo os fios repuxarem e quase arrancarem do meu couro cabeludo.
— Enjoo é o c*****o! — ele gritou, me arrastando para fora do banheiro pelo cabelo, sem se importar com o fato de eu estar descalça e cambaleando. — Eu não quero saber de desculpa de bucho cheio não!
Ele me empurrou com força em direção ao corredor. Perdi o equilíbrio e o meu corpo foi direto contra a parede de tijolo texturizado da sala. O impacto bateu forte nas minhas costas e o lado esquerdo do meu rosto chocou-se contra a quina do portal de madeira. Senti a pele fina do meu lábio rasgar instantaneamente contra os meus dentes. O gosto metálico e quente do sangue inundou a minha boca na mesma hora.
— Vai fazer a p***a do meu café agora! — Breno berrou, apontando o dedo na minha cara, o rosto dele transformado pelo ódio doentio. Ele deu um passo na minha direção, me encurralando contra a parede enquanto eu chorava, limpando o sangue que já escorria pelo meu queixo. — Gravidez não é doença, tá ouvindo? Você não tá inválida nessa p***a de casa. Se você começar a perder o ritmo aqui dentro, se eu ver a casa suja ou a minha comida atrasada por causa dessa tua preguicinha de grávida, eu juro por Deus, Pietra... Eu tiro essa criança de dentro de você na porrada. Eu acabo com essa palhaçada rapidinho.
Aquelas palavras entraram no meu peito como uma facada. O medo que senti naquele momento não foi por mim. Eu já estava acostumada a apanhar, já estava acostumada com a dor física que ele me causava. Mas pensar que ele pudesse fazer m*l ao meu bebê... aquilo me causou um pânico que quase me fez desmaiar.
— Não... por favor, Breno... — supliquei, a voz saindo espremida pelo choro, os olhos arregalados de puro terror. — Eu vou fazer. Já tô indo. Desculpa. Não faz nada, por favor.
— Então anda, c*****o! Tá esperando o quê? — ele deu um tapa na parede, bem do lado da minha cabeça, fazendo um barulho estrondoso que me fez sobressaltar. — Se eu voltar do banho e o café não tiver na mesa, o tempo vai fechar de um jeito que você nunca viu.
Soltei-me da parede e corri. Corri para a cozinha minúscula como se a minha vida dependesse daqueles poucos metros. Minhas pernas tremiam tanto que eu quase caí no vão entre a sala e a cozinha. Minha boca latejava, o sangue continuava a pingar no meu colo, mas eu não me importava. Peguei um pano de prato limpo, apertei contra o lábio cortado para estancar o sangramento e, com a outra mão livre, apoiei-me no balcão da pia.
Olhei para trás por cima do ombro, com o coração parecendo que ia sair pela boca. Ouvi o barulho do chuveiro ligando no banheiro. Ele tinha ido tomar banho. Eu tinha poucos minutos.
Com as mãos trêmulas, peguei a caneca de alumínio, enchi de água e joguei em cima do fogão, acendendo a chama com o fósforo que quase caiu dos meus dedos. Peguei o pó de café, o açúcar, fazendo tudo no automático, com os movimentos acelerados pelo pavor. Cada barulho que vinha do banheiro me fazia dar um pulo.
Enquanto a água esquentava, a imagem do Breno ameaçando tirar o meu filho me veio à mente, e uma dor profunda misturada com desespero tomou conta de mim. Levei a minha mão direita, aquela que não estava segurando o pano no lábio, até a minha barriga. Apertei os dedos contra aquele leve inchaço na minha cintura, tentando, de algum jeito, esconder o meu bebê ali dentro, protegê-lo daquele monstro que estava a poucos metros de nós.
O choro veio silencioso, as lágrimas grossas borrando a minha visão e caindo dentro da pia. Senti uma culpa esmagadora corroer a minha alma. Eu estava completando três meses de gestação e não tinha feito uma única consulta médica. Eu não sabia se o meu bebê estava bem, se estava crescendo certo. Eu não tomava as vitaminas que a Íris sempre dizia no curso que eram essenciais para o feto. Eu não fazia exames de sangue, não sabia se tinha anemia. Tudo o que aquela criança recebia de mim era o cortisol do meu medo crônico, a dor dos impactos que o meu corpo sofria e a comida escassa que eu conseguia engolir entre um enjoô e outro.
Apoiei a testa na parede fria da cozinha, sentindo o calor do vapor da água do café subir no meu rosto. Fechei os olhos com força e comecei a rezar. Não era uma reza bonita, de igreja. Era um clamor desesperado de uma mãe que não tinha mais a quem recorrer na terra.
— Meu Deus... por favor — sussurrei, a voz sumindo no barulho da água que começava a ferver. — Pelo amor de Deus, protege o meu bebê. Não deixa ele fazer m*l ao meu filho. Eu aguento os tapas, eu aguento os xingamentos, eu aguento ficar trancada nessa escuridão... mas salva a vida do meu filho. Me dá forças para segurar esse bebê até o fim. Não deixa esse monstro tirar a única coisa de verdade que sobrou de mim. Protege o meu anjinho, Senhor... por favor, tem misericórdia de nós.
Passei a mão de cima a baixo na barriga, em um carinho necessitado, tentando transmitir algum conforto para aquela vidinha que nem sabia o tamanho do inferno que a cercava.
— A mamãe tá aqui, meu amor... — sussurrei bem baixinho, olhando para o chão. — A mamãe vai fazer de tudo. Eu vou ficar quietinha, vou fazer tudo o que ele quer, só para ele não encostar em você. Aguentar isso vai valer a pena se você nascer bem. Eu prometo.
O barulho do chuveiro parou. O silêncio que se instalou no barraco era o aviso de que o tempo tinha acabado. Limpei o rosto rapidamente com o pano de prato, engoli o resto das lágrimas e mudei a postura. Peguei a garrafa térmica, comecei a coar o café com a maior agilidade que consegui reunir, ajeitando as duas xícaras na mesa de plástico.
Eu precisava ser perfeita. Eu precisava ser invisível. Pelo bem do meu filho, a Pietra orgulhosa e cheia de sonhos tinha que morrer de vez, dando lugar a uma prisioneira obediente. Naquela manhã, com o gosto de sangue na boca e o café fumegante na mesa, entendi que a minha única missão de vida era sobreviver tempo suficiente para colocar aquela criança no mundo, longe das mãos do homem que jurou nos destruir.