A plataforma do terminal estava com barulho, pessoas indo e vindo. Gente dando adeus e bem vindo. O cheiro de diesel e café, misturava no ar. Minha mae estava chorando, preocupada com a minha tia e comigo, ao mesmo tempo. Ela queria ir, mas não queria me deixar. O ônibus azul da viação já estava com o motor ligado, soltando aquela fumaça escura que deixava o ar ainda mais pesado.
Breno estava do meu lado, com uma das mãos pousada na minha cintura. Ele usava uma calça jeans escura e um casaco de moletom que cobria qualquer vestígio do mundo que ele comandava lá em cima na Rocinha. Ele parecia um rapaz de bem, o genro que qualquer mãe pediria a Deus.
— Vai em paz, dona Maria — Breno disse, dando um passo à frente. Ele se inclinou com um respeito fingido que hoje me revira o estômago e deu um beijo estalado na testa da minha mãe. — A senhora não precisa esquentar a cabeça com nada no Rio de Janeiro. A sua filha vai estar totalmente segura comigo. Ninguém trisca na Pietra enquanto eu respirar. Foca em cuidar da sua irmã.
Minha mãe limpou uma lágrima no canto do olho, olhou para ele com gratidão e depois me abraçou apertado.
— Fica com Deus, minha filhinha. Ouve o Breno, tá? Não sai na rua à toa. Juízo.
— Pode deixar, mãe. Te amo — respondi, com a voz embargada, acenando enquanto ela subia os degraus do ônibus.
Ficamos ali, lado a lado, vendo o onibus da ré e sumir na rodoviária. Breno mudou o aperto na minha cintura. Não era mais um toque suave; seus dedos afundaram um pouco mais na minha pele, me puxando para perto.
Voltamos para Rocinha no carro dele, um silêncio, mas a minha cabeça rodava em festa. Quanco chegamos na "nossa" casa, ele entrou atras de mim e trancou a porta. Eu me lembro do estalo da fechadura. Breno largou as chaves na mesa, veio por trás de mim e envolveu meu corpo com seus braços fortes. Ele enterrou o rosto no meu pescoço, respirando fundo, e me deu um beijo molhado perto da orelha.
— Finalmente sozinhos, princesa — ele sussurrou, a voz rouca, me apertando tanto que eu quase não conseguia respirar. — Agora você tá segura. Aqui dentro é o nosso mundo. Ninguém entra, ninguém te atrapalha. Você é minha.
Aquele "você é minha" soou como poesia para a menina boba que eu era.
Era nossa primeira noite, como casal, na nossa casa. O quarto iluminado pela luz do poste, que entrava na janela. O lençol na cama era azul. Eu estava nervosa, meu coração parecia bateria de escola de samba. Eu ia ter a minha note de princesa, iria me tornar uma mulher.
Breno veio devagar, tirando a minha blusa com um carinho que me fez delirar. Eu me entreguei para ele por inteiro, acreditando que aquela noite selaria o nosso amor para sempre. Eu queria que fosse especial.
Mas não foi.
No momento em que o ato começou, o carinho sumiu como se nunca tivesse existido. O corpo de Breno ficou pesado, rígido. Ele segurou meus dois pulsos acima da minha cabeça com apenas uma das mãos, apertando com tanta força que o sangue parou de correr. Quando tentei me mover, senti uma dor aguda, um desconforto que me fez perder o ar.
— Breno... espera — pedi, com a voz espremida, tentando puxar minhas mãos. — Tá doendo. Para um pouco, por favor. Eu não quero mais assim... vai devagar.
Ele nem sequer me olhou nos olhos. O rosto dele estava fixo, os maxilares travados. Ele usou o outro braço para prensar o meu peito contra o colchão, tirando quase todo o meu fôlego.
— Cala a boca, Pietra — ele rosnou, a voz completamente diferente do rapaz manso da rodoviária. Era a voz do vapor do morro. — Para de frescura. Você tá na minha casa agora, sob o meu teto. Eu banquei o o****o por um mês inteiro, esperando a tua boa vontade. Agora você vai abrir as pernas sim. A mamãezinha já foi embora, parou o teatrinho de santinha.
Eu chorei. Enquanto ele me obrigava, eu chorava. Ele, parecia se divertir com os meus gemidos, os soluços, o medo. Quando terminou, eu estava em choque, com dor e sangrando. Eu percebi ali, que tudo ia mudar. Ele saiu da cama, tomou banho e um tempo depois voltou. Os olhos com lagrimas, um copo de água e desculpas.
A raiva no rosto dele, tinha sumido. Agora, era o arrependimento.
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— Ei... desculpa — ele falou, a voz mansa de novo, sentando do meu lado. Ele começou a passar a toalha úmida nas minhas pernas com uma delicadeza assustadora. — Desculpa, minha princesa. Eu errei, pegou pesado com você. É que eu sou muito estressado, a vida no morro é muita pressão na minha mente, você não faz ideia dos problemas que eu carrego. Eu fiquei cego de desejo porque eu te amo demais, Pietra. Eu sou louco por você. Não chora, por favor.
Ele me puxou no colo dele, acariciando meu cabelo. Implorando perdão, dando beijos. Me deu água, cuidou de mim, me mandou tomar banho. Naquela note, dormimos agarrados. Eu achei que foi um caso isolado, sabia que o trabalhar dele era dificil.
Eu entendi a "pressão" dele.
Duas semanas depois, as garras dele começaram a aparecer durante o dia.
Ele me buscou no curso e um amigo me deu tchau, dizendo "Até amanhã" e eu respondi. Quando eu entrei no carro e me inclinei para beijar ele, eu vi o ódio no olhar dele. Ele cravou os cinco dedos no meu braço esquerdo, apertando o músculo com tanta força que eu gritei.
— Quem é aquele filho da p**a, Pietra? — ele perguntou, com os olhos injetados, o rosto a centímetros do meu. — Que i********e é essa de te dar tchauzinho no meio da rua? Você tá achando que eu tenho cara de o****o?
— É só um menino do curso, Breno! Ele só estuda comigo, juro por Deus! — falei, sentindo as lágrimas subirem, tentando soltar o meu braço, mas o aperto dele só aumentava, os dedos dele afundando na minha carne.
— Se eu ver esse desgraçado olhando para você de novo, eu pico ele na bala, tá ouvindo? — ele sibilou, soltando o meu braço com um empurrão que me fez perder o equilíbrio.
Depois disso, só foi piorando. Ele me ameaçava, dizendo que se eu falasse pra minha mae, ela voltaria correndo e eu teria matado a minha tia.
— E ó... não adianta ligar chorando para a tua mãe não — ele dizia, com um sorriso frio que me congelou a espinha. — Se você falar qualquer merda para a velha, ela vai largar a tua tia lá no hospital do interior para voltar. E se a tua mãe vier embora, a tua tia vai morrer sozinha lá, sem os cuidados dela. A culpa da morte da tua tia vai ser sua, Pietra. Você quer carregar essa culpa nas costas? Quer matar a tua tia por causa de uma bobeira sua?
Aquele terror psicológico me calou. Então, comecei a mentir para a minha mãe.
Depois de um mês, o que eu achava que não podia piorar, piorou.
Eu não comprei o refrigerante dele para o almoço. Quando ele chegou e não viu a garrafa na mesa, ele surtou. Ele jogou a cadeira longe, quebrando na parede, virou a mesa e eu sai correndo, porém, no quintal, ele me pegou pelos cabelos e puxou. O puxão foi tão violento que alguns fios se soltaram e eu caí no chão de cimento.
— Você não serve nem para fazer a p***a de um almoço direito! — ele gritou, desferindo o primeiro tapa na minha cara.
Enquanto eu processava a dor, a queimação. Veio o chute na costela, seguido do ar sumindo. Eu protegi minha cabeça no chão, enquanto os chutes vieram, ele me levantou pelos cabelos dizendo que isso era pra eu aprender a ser mulher. Eu sangrava pelo nariz, a boca cortada.. Mas o Breno era esperto, ele evitava deixar o meu rosto roxo.
Com dois meses, a minha vida tinha acabado de vez. Cheguei em casa, aliviada que ele não foi me buscar de carro. Porém, o alivio foi embora no mesmo instante. Ele estava queimando meus cadernos, meus livros, apostolas do meu técnico e antes que eu falasse qualquer coisa, ele pegou a pistola. Eu cai no chão, chorando, desesperada. Todo o meu sonho, meu futuro, reduzido a cinzas.
— Acabou a palhaçada de curso, Pietra — ele decretou, olhando para as chamas com os braços cruzados. — Mulher minha não fica de safadeza na rua, eu te dou tudo. Acabou essa palhaçada.
Eu não reclamei. Eu estava cansada, com medo e sozinha. Minha única amiga, a Íris, tentou me mandar mensagens nos dias seguintes perguntando por que eu tinha sumido, mas o Breno viu. Ele pegou o meu celular e, sem pensar duas vezes, arremessou o aparelho contra a parede.
— Pronto. Agora não tem mais distração — ele disse, pisando nos restos do aparelho.
Depois disso, acabou. Eu não saia mais para o curso. Eu não falava com a Isis, nem com a minha mãe - só pelo celular dele. Eu mentia para minha mãe, dizendo que estava estudando muito e tudo estava uma correria.
Breno ficava atrás da camera, segurando a arma. Como uma ameaça silenciosa, dizendo "Vai, conta pra ela que eu quero ver". Minha mãe ficava feliz, dizendo que iria ficar mais tempo no interior e ai, o Breno vinha para o meu lado, dizendo que ela poderia ficar la de vez, que a Pietra estava bem cuidada, gordinha, comendo bem, estudando.
— Opa, dona Maria! Tudo certo com a senhora aí? — ele falava, a voz mais simpática do mundo, acenando para a tela. — Olha aqui a sua filha, tá gordinha, bem cuidada. Eu não deixo faltar nada para a minha princesa não, pode ficar tranquila. A senhora tá bem? E a tia? Manda um abraço para ela.
Minha mãe sorria do outro lado, com os olhos brilhando de gratidão.
— Deus te abençoe, Breno. Você é um anjo na vida da minha filha. Obrigada por cuidar dela por mim.
— Que isso, dona Maria. É minha obrigação. Família é para essas coisas — ele respondia, me apertando um pouco mais forte contra o corpo dele, um aviso silencioso que só eu entendia.
Quando a ligação terminava e a tela ficava preta, o "anjo" sumia instantaneamente. Ele jogava o celular na mesa, pegava o fuzil de volta e me olhava com aquele desprezo que fazia eu me sentir o menor ser humano da terra.
Meu Deus, como dói lembrar de tudo isso...
E agora, eu estou aqui, 4 meses depois, descobrindo que estava grávida. Sozinha. Presa com um maluco.