Depois do baile, nos dias seguintes, eu achei que estava vivendo o meu conto de fadas - aqueles que assistimos na televisão e que achamos que nunca vai acontecer com a gente, menos ainda com uma menina da favela. O Breno no começo, era perfeito. Ele não sufocava, não cobrava, ao contrário, ele tinha cuidado, proteção. E meu celular, ficava dividido entre os despertadores, mensagens da Isis e mensagens dele.
Eram bom-dia carinhosos, perguntas se eu já tinha almoçado, áudios dizendo que não conseguia tirar meus olhos da cabeça.
No meio da semana, um motoboy bateu no nosso portão. Quando abri, ele segurava um buquê enorme de rosas vermelhas. Minha mãe, que estava na cozinha, correu para a sala com a expressão pálida, o coração saindo pela boca. Quando ela leu o cartão assinado apenas com a letra "B", o medo nos olhos dela foi tão nítido que hoje me dói a alma lembrar de como fui cega para aquele aviso - lembrando agora, eu tenho vontade de socar minha cara, sabe quando dizem que "quando é pra ser, até a mãe deixa?" Pois é, isso é real.
— Pietra, minha filha... quem é esse rapaz? — ela perguntou, a voz falhando , segurando o pano de prato com as mãos apertadas. — Você sabe quem ele é? Esse povo do baile... isso não é para você, minha filha. Pelo amor de Deus.
— É só um rapaz que conheci, mãe. Ele é legal, juro — eu disse, boba, abraçando as flores como se fossem um troféu, ignorando o nó que dava no estômago da mulher que me carregou no ventre.
Eu achando que eu tinha tirado a sorte grande...
Eu contei para o Breno do pavor da minha mãe e ele então, usou todo o poder que tinha. Ele não quis me er escondido, não queria me beijar no beco, nada. Então, numa quinta-feira, ele disse que estava colando em casa pra resolver isso. Eu achei que fosse morrer, achei que ele ia chegar com o cordão no peito, o fuzil nas costas, moto acelerando alto. Porém, quando eu abri a porta, tinha outra pessoa ali.
Estava sem o cordão do baile, sem armas. Uma bermudas e camiseta clara, o cabelo na régua. O perfum mais fraco, mas ainda marcante. O olhar agressivo do baile tinha sumido; no lugar, havia um rapaz de postura firme, mas com um sorriso educado.
Ele se sentou no nosso sofá de estampa, aceitou o café puro que minha mãe serviu com as mãos tremendo, e colocou as cartas na mesa com um cinismo que, hoje, me dá náuseas de recordar.
— Dona Maria, eu sei o que a senhora pensa de mim e não tiro a sua razão — ele começou, olhando bem no fundo dos olhos dela, a voz mansa, pausada. Colocando o café na mesinha de centro. — Eu tô na vida errada, não vou mentir para a senhora. O morro tem as suas leis e eu faço o meu trabalho. Mas eu tenho postura. Homem de verdade sabe separar as coisas. Eu não quero a Pietra para bagunça. Eu olhei para a sua filha e vi uma menina de família, uma joia que merece respeito. Para a senhora ter ideia, eu nem toquei nela ainda. Não dei um beijo sequer, porque prezo pelo respeito à casa da senhora.
Minha mãe escutava, com os olhos marejados, os dedos cruzados no colo. Breno então olhou para mim, fingindo uma admiração que quase me fez chorar de emoção na época.
Porém, por um milésino de segundo, eu hesitei. Será que é real? Mas ai..
— Eu sei que a vida que eu levo é perigosa, mas eu quero dar um futuro para a Pietra. Eu sei do sonho dela com o técnico de enfermagem, e quero ajudar. Quero pagar os livros dela, a faculdade que vem depois... quero cuidar dela. A senhora não vai precisar se preocupar com nada.
O papo de bom moço, de bandido que entrou no crime por falta de opção e que achou um rumo no amor, quebrou a minha mãe no meio e eu, também. Que mãe em sã consciência, não iria querer a filha protegida, cuidada e com estudos pagos? Ela cedeu. Eu me entreguei por inteiro. Eu estava apaixonada, ou melhor, amando, só não sabia que o sentimento, era de um personagem.
O nosso primeiro beijo rolou naquela mesma noite, no portão de casa, depois que a minha mãe entrou. Foi um beijo calmo, mas que me marcou de um jeito que eu achei que era o começo da minha felicidade. Nas semanas seguintes, quase um mês depois, ele se tornou o namorado perfeito. Me levava e me buscava no ponto de ônibus do curso todo santo dia, pagava meus lanches, me enchia de mimos.
Até que o destino jogou a favor do monstro.
Minha tia no interior piorou drasticamente. Minha mãe recebeu a ligação no meio da noite, chorando desesperada, sem saber o que fazer. Ela não podia me deixar sozinha de novo por tanto tempo e não queria largar a irmã morrendo no hospital. Breno chegou no nosso barraco antes mesmo do sol nascer, trazendo uma mala pequena nas mãos e a solução para todos os problemas.
— Dona Maria, vai em paz cuidar da sua irmã — ele disse, abraçando a minha mãe de lado, num teatro perfeito de genro carinhoso. — A senhora não vai deixar a Pietra sozinha. Ela vai morar comigo enquanto a senhora estiver fora. Eu cuido dela. Levo e busco no curso como já tô fazendo, ela vai ter tudo do bom e do melhor. Minha casa é simples, lá no alto, mas é boa, tem estrutura e ninguém trisca na minha mulher. Vai tranquila.
Minha mãe olhou para ele, depois olhou para mim. A urgência de salvar a irmã e a falsa segurança que o Breno passava falaram mais alto. Ela cedeu. E eu, boba, radiante com a ideia de viver uma vida de casada com o homem dos meus sonhos, também cedi. Arrumei minhas roupas numa mochila com o coração dando saltos de alegria.
Deus, como dói lembrar disso...
Eu queria só uma chance de voltar no tempo. Eu iria gritar com a Pietra, gritar com a minha mãe, implorar que ela me levasse para o interior. Eu jogaria no lixo as rosas, recusaria os lanches, as caronas, a proteção.
Hoje, eu sei que o cuidado dele, era possessão. Quando ele me buscava, não era proteção, era ele vigiando meus passos. O dinheiro para os livros era para me fazer dependente dele. E a casa "simples, mas boa" para onde eu mudei naquela manhã... não era um lar.
Era a porr.a de uma gaiola, que eu descobri tarde demais.. muito tarde. Eu entrei ali sorrindo, achando que estava subindo para o meu paraíso, sem saber que estava caminhando, por livre e espontânea vontade, para o meu próprio inferno.