~Um ano atrás~
O baile estralava na quadra, do jeito que o crime gosta. Mulher gostosa, bebida gelada, droga de qualidade e som alto. O grava batia no peito que chegava a machucar, se alguém parasse de frente com as caixas, sairia com costelas quebradas. O cheiro da maconha, misturado com narguile e cigarro, o lança-perfume, os perfumes baratos e bebidas, formavam uma nevoa grossa, pesada, que fazia a mente ficar perdida. No teto, as luzes coloridas iluminavam a quadra parte a parte, piscando na cara da galera e deixando geral animado, no ritmo do proibidão. A favela tremia aquela noite.
Eu tinha 24 anos, disposição de sobra e ódio correndo nas veias. Naquela época, eu ainda era vapor da parte baixa, mas o chefe já estava de olho na minha postura. Eu trabalhava certo, não dava mole, minha boca de fumo não tinha quebra de dinheiro e, na pista, a minha palavra era a lei. O fuzil no meu peito parecia que fazia parte do meu corpo; o peso do aço não era nada perto do tamanho do meu ego e do meu orgulho. Eu sabia que era questão de tempo para o mano me dar o cargo de "02" da contenção. Eu tinha sangue nos olhos, não corria de confronto e os crias sabiam que se tentassem me atrasar, o cano ia esquentar pro lado deles.
As vagabundas do morro, batiam, empurravam e se humilhavam só pra tentar no camarote improvisado do meu lado, querendo atenção, um gole do combo ou só um pente e rala. Mas pra mim, mulher era só mercadoria, carne para comer de noite e aliviar o estresse do trampo. Sempre odiei frescura, choro e cobrança. Meu negócio, era as dificeis. Isso que me dava t***o. Amava caçar as santinhas, as puras da familia, que sonhavam com um principe encantado, que ia mudar bandido com papinho de "eu te amo",
Era rápido e simples o plano. Eu ligava o modo príncipe de favela, perfume do bom, bancava o protetor, o segurança, sempre com o máximo respeito. O cara perfeito que mesmo na vida errada, iria tirar elas do perigo e dar uma vida de rainha. Elas caíam igual patinho, achando que tinham encontrado a salvação.
No momento em que elas confiavam, abriam as pernas e iam pra minha cama, meu parceiro, o teatro acabaca e eu mostrava quem mandava, quem eu era de verdade, no minuto seguinte. Eu gosto de quebrar a pose, gosto de ver o orgulho sumindo do olho de mulher e dando lugar ao medo. Depois que eu tirava o que eu queria, que eu gastava o corpo delas, eu jogava fora igual lixo. Mulher minha, tinha que andar na régua, porr.a. Cabeça abaixada, falar baixo e me obedecer, sem criticar, sem questionar.
Eu era estressado, sempre fui. Gosto de controle e ser tirado de o****o - não era o meu forte, muito menos se for por mulher. Se tentasse peitar, bater de frente, denunciar para o dono do morro, o tempo fechava e a mão entrava na cara, sem pensar, sem arrependimento. No meu mundo, ninguém me desobedece e na maioria das vezes, eu mandava elas embora do morro.
Eu estava escorado perto da grade do camarote, com um copo de uísque e gelo de coco na mão esquerda, rindo com os crias da contenção sobre uma operação que a gente tinha barrado na semana anterior. Eu ostentava o meu cordão de ouro com o pingente gigante de cifrão bem no meio do peito, brilhando cada vez que as luzes do baile apontava para o camarote. O meu cabelo estava cortado na régua perfeita, o reflexo loiro nas pontas chamando atenção, e as piranhas lá embaixo ficavam jogando a b***a na minha direção, caçando o meu olhar. Eu só ignorava, já estava enjoado daquela mesmice de sempre, daquelas marmitas de traficante que se entregavam por um copo de whisky barato.
Foi aí que meus olhos saíram do meio da pista e foram direto para um poste de iluminação bem na beira da quadra. A fumaça do narguilé abriu por alguns segundos, e eu vi uma cena que não combinava em nada com aquela sujeira toda do baile.
Era uma mina bem novinha, devia ter uns 1,60m no máximo. Morena clara, cabelo com cacho preto e volumosos caindo pelas costas, brilhando sob a luz. Ela tinha uns olhos gigantes, arregalados, que ficavam olhando para os lados feito um bicho acuado que caiu numa armadilha de lobo. Ela vestia um short jeans, comportado até demais, uma blusinha preta simples que não mostrava quase nada de pele e um par de tênis brancos, simples.
Dava para sentir o cheiro de inocência dela daqui de cima. Ela estava completamente perdida, visivelmente assustada, puxando a barra do short para baixo a cada dois minutos, morrendo de vergonha das coxasque estavam de fora. Aquilo me deu um estalo imediato na mente. Sangue novo. Carne fresca. E, pelo desespero dela, era intocada. Uma virgenzinha pronta para ser moldada do meu jeito.
Senti uma vontade doentia subir pelo meu corpo, a possessão tomando conta de quem sempre domina e nesse segundo, eu decidi que era seria minha. Dei um cutucão forte no menor da contenção que estava do meu lado e apontei com o bico do copo na direção do poste.
— Pega a visão daquela ali, menor — falei, com um sorriso de lado, a voz saindo grossa, sem tirar o olho da garota. — Aquela joia ali vai ser minha. Ninguém trisca.
O menor olhou para a direção do poste, apertou os olhos por causa da luz e soltou uma risada boba, tentando fazer graça.
— Ih, Breno, deixa baixo, pô. Aquela ali é a filha da vizinha caxias lá do fundo do morro. A garota vive trancada em casa estudando para parada de hospital, não sai para nada, a mãe dela é neurótica, odeia o crime. Aquela morena ali não dá moral para nenhum cria, já tentaram desenrolar e ela nem responde. É mó santinha.
Aquilo foi o faltava para eu explodir. A minha mente já tinha decidido. O fato dela ser proibida, trancada pela mamãe, odiar o tráfico, só atiçou meu ego. Aquela barreira, eu ia quebrar em mil pedaços, maior o pedestal, maior o tombo.
— Não quer saber de nada? Papo reto, menor... Vou botar aquela santinha dentro da minha casa e vou adestrar aquela p***a rapidinho — comentei, limpando o canto da boca com as costas da mão, sentindo o gosto do whisky e da maldade pura. — Em menos de um mês eu tiro essa pose de marrenta dela. Ela vai estar fazendo tudo o que eu quero, implorando pela minha atenção, chorando no meu pé. Aposto o meu cordão de ouro com você que eu dobro essa marra dela antes da próxima quinzena.
Os moleques deram risada, achando que só papo furado, mas eu não atava brincando. Quando eu quero, vou atras. Eu vou um bicho. Ajeitei o fuzil na bambolera, deixei o copo na mesa e arrumei o cabelo. Dei aquele sorriso de malandro, mas com confiança, que molhava qualquer calcinha e fui descendo a escada, tirando do meu caminho quem ficava na minha frente, sem pedir licença. O perfume deixa as piranhas malucas e elas tentavam segurar o meu braço, mas eu passei direto, focado apenas no meu alvo.
Fui chegando na beira da quadra com calma, frio. Escorei no poste, do lado dela, invadindo de proposito do espaço dela, atiçando o ego dela, até que lea sentisse meu toque "sem querer". O meu perfume invadiu o naris dela e quando levantou a cabeça assustada, quase chorou ao ver o fuzil no peito, eu bem mais alto que lea - o que não era dificil.
Olhei bem no fundo daquela inocência, reparei na boca fina dela que estava tremendo e soltei a minha voz mais mansa, fingindo ser o homem mais calmo e protetor do mundo, aquele mesmo teatro de sempre que eu sabia que funcionava.
— Tá perdida, princesa? — perguntei, deixando o hálito de uísque chegar perto do rosto dela por causa do som alto do DJ. — Nunca te vi por esses lados. E olha que eu conheço cada morador dessa Rocinha.
Ela engoliu em seco, tentou engrossar a voz de um jeito todo bobo, achando que estava me enganando, que estava parecendo uma mulher madura e vivida.
— Não tô perdida não — ela respondeu, embora as mãos estivessem agarradas no copo de plástico de um jeito tão tenso que os dedos estavam brancos. — Só tô curtindo o baile.
Soltei uma risada curta, mostrando os dentes muito brancos contra a minha pele bronzeada, e dei mais um passo para a frente, colando meu peito no ombro dela. Ela tentou se encolher, mas não tinha para onde fugir. m*l sabia ela que, no momento em que me olhou com aquele medo misturado com admiração, e me disse que o nome dela era Pietra, a sentença dela já estava assinada na minha mente.
Ela achava que tinha encontrado um porto seguro no meio daquela confusão do morro, mas ela tinha acabado de cair no colo do próprio demônio. Eu seria o dono dela, de cada centímetro daquele corpo, e ela ia aprender da forma mais violenta e dolorosa o preço que se pagava por entrar no caminho do Breno. Aquela santinha ia ser minha propriedade, e eu ia quebrar aquela inocência dela pedaço por pedaço.