IAN
Respiro fundo, refletindo sobre a última semana repleta de encomendas perigosas que colocaram minha vida em risco. O dilema entre sobrevivência e ilegalidade me atormenta, recordando uma entrega de drogas que, apesar de aliviar as finanças, trouxe a constante ameaça da prisão. A dualidade das minhas escolhas permeia meus pensamentos, revelando um cotidiano desafiador e cheio de incertezas.
Cada respiração parece carregar o peso das decisões que tomei para sobreviver. Nesta cidade implacável, onde oportunidades legítimas escasseiam, me vi mergulhado em um submundo de encomendas sombrias. A lembrança da entrega de drogas ecoa, os 500 reais aliviaram temporariamente o sufoco financeiro, mas o risco de ser arrastado para trás das grades paira constantemente.
As ruas tornaram-se um tabuleiro onde as peças se movem sem piedade, e eu, Ian, sou apenas mais uma delas. A dualidade das escolhas, como sombras persistentes, me acompanha a cada esquina, revelando um cotidiano onde a incerteza se tornou minha única certeza.
No íntimo, questiono até que ponto estou disposto a ir para manter meu fôlego neste jogo arriscado. A realidade é crua, e a linha entre a necessidade e a criminalidade se torna mais e mais a cada passo.
— Bom dia Jimmy.
_ Bom dia, pra onde você vai?_ pergunta meu amigo e companheiro de quarto
_ Vou trabalhar, precisamos arrumar o dinheiro do aluguel desse mês, se não vamos ser despejados
_ É verdade, eu tentei conversar com o dono mas dessa vez ele parece nem me ouvir.— Ele diz pegando seu casaco e logo em seguida calça os tênis.— Eu vou com você tenho umas encomendas para pegar no porto também. — fala Jimmy
— Tudo bem.— saímos de casa e fomos até o mercadão no porto, lá é um lugar onde você se encontra com cada tipo de pessoa, então todas as vezes que eu venho pegar aqui faço de tudo para não ser notado.
Chego no porto, e sou recebido por o odor marítimo misturando-se com a tensão no ar. Ando até um cara que estava com uma máscara no rosto e dois pacotes na mão, fui chamado pelo aplicativo para entregar dois pacote e ganhar, 30 mil Reais. Pego as encomendas de sua mão e a voz do desconhecido se faz presente
Desconhecido.— Ian, estas são valiosas. Cuidado com elas, e entregue pessoalmente. O cliente é exigente..— Ele me avisa e sem questionar, aceito.
— Certo, entendi. Alguma dica sobre o que estou transportando?— quis saber, porque o ganho é muito grande, tem que ser alguma coisa muito importante.
Desconhecido— Não, e é melhor que continue assim. Menos você souber, mais seguro estará.—
A resposta dele só intensifica minha curiosidade. O peso das encomendas é tanto físico quanto psicológico, enquanto me afasto do porto, rumo a destinos desconhecidos. O desconhecido se perde na multidão portuária, e eu me vejo mergulhado em uma jornada onde o desconhecido é meu único companheiro.
Caminho pelas vielas portuárias, as encomendas pesando como segredos indecifráveis. O sol reflete nas águas salgadas enquanto minha mente dança entre a ansiedade e a determinação. O diálogo com o desconhecido ressoa, e a pergunta sobre o conteúdo continua sem resposta.
Chego ao meu veículo, a sensação metálica da chave na minha mão traz uma mistura de excitação e apreensão. O motor ruge, ecoando meu próprio nervosismo. Durante a viagem, a estrada se estende diante de mim como um caminho de mistérios e perigos.
Ao chegar ao primeiro destino, um beco sombrio em meio à cidade, sou recebido por olhares desconfiados. O receptor, um sujeito de semblante sombrio, faz a conferência de uma das encomendas sem emitir uma única palavra. A troca é rápida, mas a tensão permanece.
Receptor— Espero que não tenha olhado o que está transportando, Ian..
— Não sou pago para fazer perguntas, apenas para entregar senhor.— Digo, ele que aceita a minha resposta e eu parto para o segundo destino, um cenário noturno que amplifica a obscuridade ao meu redor. Cada passo é calculado, cada sombra parece esconder segredos. No interior do veículo, encaro as encomendas restantes, sabendo que a linha entre sobrevivência e perigo iminente tornou-se ainda mais. Este é o meu fardo, e cada entrega é um passo mais profundo na dança arriscada entre o desconhecido e a necessidade.
Ao chegar ao local da última entrega, as luzes escassas destacam o nervosismo que me consome. De repente, a sirene policial ecoa, interrompendo minha trajetória. As luzes vermelhas piscam, e o veículo é cercado por autoridades uniformizadas. Respiro fundo, tentando esconder a inquietação.
— Calma Ian, não é com você.— falo para mim mesmo e nesse momento já estava suando de nervosismo.
— Ei cara, saia do veículo..— um policial armado fala batendo na janela do meu carro e eu desço
— O que está acontecendo senhor?— pergunto com a voz um pouco trêmula, pois eu ainda estava com uma encomenda que não sei o que é
_ Temos informações sobre contrabando.— um dos policial fala e vem me revistar e o outro vai até o meu carro e começa a olhar também.
— Capitão olha só o que eu encontrei aqui.— Olho em direção ao polícial que estava revistando o meu carro e ele estava com uma arma na mão e o pacote da encomenda que eu iria entregar.
— Essa arma não é minha.— falo rapidamente
— claro que não, ela não está em seu carro , valos vê o que temos nessa caixa.— o policial diz e começa a abri a caixa e o que tem dentro me deixa em choque.
— Pra onde você estava levando essas drogas? Onde você iria traficar elas
_ Senhor não são minhas eu juro, eu sou um entregador não fazia ideia que eram drogas aí dentro
— Você vai explicar isso direitinho na delegacia.— ele fala e só sinto o frio do metal das algemas se fecha em torno dos meus pulsos, a confusão toma conta do meu interior.
— Você está preso por envolvimento com o tráfico de remédios cladestinos, cocaína em pó e pose de armas ilegal.
— Não sei do que estão falando, eu só estou fazendo entregas, essa arma não é minha.— falo desesperado, e não importa o quanto eu quisesse explicar, pois parecia vazia diante das descobertas da polícia.
— Esses pacotes não são o que parecem, Ian. Vou dizer mais uma vez, você está preso.
O eco da sentença paira no ar enquanto sou conduzido à viatura policial, encarando as encomendas que, agora, revelam sua verdadeira natureza. A dança arriscada entre sobrevivência e o desconhecido alcançou um novo patamar, onde as consequências se desdobram perante a dura realidade da lei.
Encarcerado, as paredes frias da cela me cercam como testemunhas silenciosas de escolhas tumultuadas. A voz do policial ressoa na minha mente, ecoando as acusações que agora moldam meu destino incerto.
Ao chegar na delegacia eles mim dão direito a uma chamada e eu ligo para o Jimmy que atende depois do terceiro toque.
— Alô
— Jimmy sou eu, o Ian
_ Oi Ian, porque está me ligando? Não era pra você está fazendo entregas?
_ Sim, mais aconteceu um probleminha e agora eu estou no hospital, eu preciso da sua ajuda, eu estou preso.
_ O que? Como isso aconteceu?
_ Eu não sei, só sei que fui parado por uma aviatura que me pediu para descer e quando eles estavam investigando o carro eles encontraram uma arma e a encomenda que eu estava levando ela drogas, eu não tenho certeza mais acho que armaram para cima de mim.
_ Meu Deus meu amigo, eu vou tentar descobrir o que aconteceu, eu vou te tirar daí
— Faça isso põe favor.— falo .— pega os 15 mil que eu recebi pela primeira entrega e paga um advogado para mim por favor.
— certo eu vou fazer isso, conheço um que é muito bom, ele vai chegar aí logo
— Tá bom obrigado.
Desligo a chamada e eu volto para a sela onde iria ficar e no outro dia umas oito horas da manhã fui chamada por um policial para ir falar com meu advogado que estava alí, vou para outra sala e chegando la vejo um homem de meia idade sentado em uma cadeira, me aproximo e sento em sua frente.
— Oi Ian, eu sou o advogado Medeiros
— então senhor Medeiros, será se o senhor pode mim ajudar?
— Então Ian, as evidências são fortes contra você . Estamos lidando com acusações sérias, e sua única chance é colaborar. Fale a verdade.
Minhas palavras vacilam enquanto tento articular a complexidade da minha situação.
— Não posso negar que estava ciente da ilegalidade, mas não sabia exatamente o que transportava. Eu só queria sobreviver., aquela arma não é minha , estão armando contra mim.— falo ficando sem esperança e o advogado disse que no meu casso não podia fazer muita coisa.
Conforme os dias vão passando o processo judicial avança, testemunhas são chamadas, e a realidade da minha vida dupla é revelada perante a corte. Os olhares de julgamento perfuram minha alma, enquanto a balança da justiça oscila entre a compreensão e a condenação.
A sentença final é proferida, selando meu destino em uma cela fria. O preço da sobrevivência, agora, é pago com a liberdade perdida. Em meio à escuridão da prisão, sou deixado a refletir sobre as escolhas que me trouxeram até aqui, onde a linha entre certo e errado, sobrevivência e crime, se desfaz em sombras de arrependimento e o gosto da vingança para saber quem fez isso comigo, quem prantou aquelas provas em meu carro, quando eu sair daqui vou descobrir, custe o que custar.