Crime e Farinha

1783 Words
Catalina Montoya  Já fazia quatro dias que o Sr. Simpatia estava fora. O pacote dele continuava exatamente onde eu havia deixado. Ao lado da batedeira nova, e ela estava começando a me atrapalhar. Olhei para a caixa de novo. Eu estava tentando terminar uma encomenda de vinte e quatro cupcakes de red velvet e o espaço que aquele pacote ocupava era exatamente o que eu precisava para a minha grade de resfriamento. — Você está ocupando espaço, coisa... Que dia o Ranzinza vai retornar para que eu me livre de você? — perguntei para o pacote, apoiando as mãos a cintura. Peguei a caixa com muito cuidado. Aquele troço pesava demais. Eu não sabia se eram tintas, pedras ou o próprio ego do Vincent ali dentro, mas meus braços reclamaram no mesmo instante. Tentei equilibrar o pacote contra o quadril para levá-lo até a mesa da sala, longe da zona de guerra que era a minha bancada de confeitaria. Mas a vida de uma confeiteira em Nova York é feita de obstáculos. Meus pés encontraram o tapete que eu insistia em não fixar no chão. — ¡Mierda! — o grito saiu antes que eu pudesse evitar. O mundo pareceu entrar em câmera lenta. Meu corpo pendeu para o lado, a caixa de Londres escorregou das minhas mãos e, num reflexo desesperado para não deixar o "tesouro nacional" do Vincent atingir o piso de madeira, eu me joguei. O baque foi surdo. Eu no chão, a caixa em cima do meu estômago, e um rastro de farinha de trigo flutuando no ar como neve de verão. Fiquei ali, imóvel, sentindo o peso do pacote contra minhas costelas. O silêncio do meu apartamento agora parecia uma zombaria. Se o Vincent estivesse ali, ele provavelmente teria um infarto só de ver o estado da embalagem, agora com uma marca de mão enfarinhada bem em cima do nome dele. — Ótimo, Catalina. Agora você é uma criminosa de arte. — suspirei, sentindo o cheiro de baunilha do meu cabelo se misturar ao cheiro estranho que vinha do papelão. Levantei-me devagar, colocando a caixa sobre o sofá com a reverência de quem carrega um artefato sagrado. Eu precisava limpar aquela mancha de farinha antes que ela grudasse. Mas, enquanto passava o pano seco, percebi que a fita adesiva de um dos lados tinha cedido com a queda. Uma fresta. Apenas uma fresta escura entre as abas de papelão. Eu deveria fechar. Eu deveria passar fita nova e esquecer. Mas meus olhos captaram o brilho de algo metálico lá dentro. — Só uma espiadinha... — murmurei para mim mesma, puxando mais um pouquinho daquela fresta. Eu não acredito nisso. Aquele pacote... Cheio de avisos para manusear com cuidado, que era frágil. Eram latinhas de tinta e verniz. Recuei um passo, sentindo uma mistura de alívio e uma vontade absurda de rir. Eu esperava o quê? O Santo Sudário? Uma joia da coroa britânica? Não, eram apenas solventes e pigmentos. O "trabalho de segurança nacional" do Sr. Vane envolvia basicamente... Pintar coisas velhas. — Todo esse drama por causa de tinta, Vincent? — balancei a cabeça, limpando a farinha do meu braço. Mas, conforme eu olhava para as latas metálicas, notei que uma delas tinha um rótulo escrito à mão, em um papel amarelado que parecia ter cem anos. "Vernis à retoucher - 1860". Foi aí que o peso da responsabilidade me atingiu de novo. Não era tinta de parede. Era o material para o quadro que ele tanto protegia. Para ele, aquelas latas eram tão vitais quanto o meu fermento era para os meus bolos. Se o fermento morre, o bolo não cresce. Se a tinta dele estivesse errada, a história desaparecia. Tentei fechar a aba da caixa com cuidado, mas a fita adesiva original estava imprestável por causa da farinha e da queda. — Droga. Eu não podia deixar a caixa aberta. Ele saberia. O olhar de raio-X dele identificaria a violação em segundos. Eu precisava de fita nova. E precisava tirar o cheiro de red velvet de perto daquelas latas antes que o Vincent voltasse e achasse que o que quer que fosse restaurado agora deveria cheirar a chocolate. Corri até a gaveta da cozinha, revirando tudo atrás de uma fita transparente, quando ouvi o som. O elevador. Ele não rangia assim para qualquer vizinho. Era o peso do 4B. Congelei com a mão na gaveta. O Miss Simpatia tinha voltado. E eu estava no meio da minha sala, com o pacote dele aberto, as mãos sujas de farinha e um rastro de "crime de arte" espalhado pelo chão. Deus, que seja qualquer pessoa, menos ele. Mas o som dos passos no corredor não deixava margem para dúvidas. Eram passos pesados, ritmados, de alguém que carregava o peso de uma mala e de um humor terrível. Ouvi o tilintar das chaves. O metal contra o metal da porta ao lado. Ele não entrou de imediato. Houve um silêncio. Eu sabia exatamente o que ele estava fazendo: olhando para o chão, procurando o pacote que o aplicativo disse que estava lá. Segurei a respiração. Meu coração batia tão forte que eu achei que ele ouviria através da parede. Toc. Toc. Toc. Três batidas secas. Autoritárias. O tipo de batida que não pede licença, mas exige explicações. Tentei desesperadamente fechar as abas da caixa, mas a fita adesiva estava tão enfarinhada que tinha a aderência de um chiclete velho. Desisti. Joguei o pano de prato por cima da caixa e caminhei até a porta, tentando limpar as mãos no avental, o que só resultou em mais manchas brancas. Abri a porta apenas uma fresta, esperando que a penumbra do meu hall de entrada escondesse o cenário de guerra atrás de mim. Vincent Vane estava parado ali. Ele parecia... Diferente. O sobretudo estava amarrotado, havia uma sombra de barba por fazer que o deixava com um ar perigosamente rústico, e os olhos glaciais estavam injetados de cansaço. Ele parecia ter acabado de sair de uma trincheira, não de uma biblioteca. — O meu pacote. — ele disse. Sem "bom dia", sem "como vai". Apenas a exigência. — Ah, olá, Vincent! — Forcei um sorriso que deve ter parecido um tique nervoso. — Você... Você voltou cedo. Ele não sorriu de volta. Os olhos dele desceram para as minhas mãos sujas de branco e depois subiram para uma mancha de farinha que, eu tinha certeza, estava bem na ponta do meu nariz. — O rastreio indicou que foi entregue aqui. Ou melhor, na minha porta. Onde ele está? Fechei os olhos por alguns segundos, e abri o que restava da da porta. Deixei que ele visse o caos. Se eu ia ser condenada por "homicídio culposo de materiais históricos", que fosse de uma vez. O rastro de farinha no chão do meu hall levava diretamente ao sofá, onde o pacote de Londres repousava sob um pano de prato xadrez, como um segredo m*l escondido. — Ele... Ele está ali. — Apontei com o indicador trêmulo, deixando uma pequena nuvem branca escapar do meu dedo. — O entregador estava desesperado, Vincent. Ele disse que não podia voltar com a caixa e... Bem, eu não podia deixar o seu "tesouro" no corredor à mercê de qualquer um, podia? Vincent não disse uma palavra. Ele deu um passo para dentro do meu apartamento, ignorando qualquer norma de etiqueta sobre ser convidado. O cheiro de terra úmida e cansaço que ele trazia consigo colidiu com o meu aroma de baunilha e chocolate. Ele caminhou até o sofá com uma precisão predatória. Seus olhos glaciais notaram o pano de prato. E, antes que eu pudesse inventar uma desculpa sobre "proteção contra poeira", ele puxou o tecido. O silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer rosnado. Ele encarou a aba da caixa, onde a fita adesiva estava visivelmente solta e decorada com a marca perfeita da minha mão enfarinhada. — Você abriu. — A voz dele não foi alta. Foi um sussurro frio, perigoso, o tipo de som que faz os pelos da nuca se arrepiarem. — Eu caí! — disparei, as palavras atropelando umas às outras. — Eu fui tirar da bancada para ter espaço para os cupcakes e o tapete me traiu. Eu juro que tentei salvar a caixa, Vincent. Eu me joguei no chão! Se eu não tivesse amortecido a queda, as suas latas de 1860 teriam virado decoração de piso. Ele se virou para mim lentamente. A sombra da barba deixava o maxilar dele ainda mais marcado, e por um segundo, o cansaço nos olhos dele foi substituído por uma irritação técnica absoluta. — O tapete traiu você? Ou você é um desastre ambulante que por onde passa deixa um rastro de farinha e barulho? O tom dele foi como um chicote. Eu senti meu rosto esquentar, e não era por causa do forno ligado. A injustiça daquela frase me atingiu em cheio. — Um desastre? — minha voz subiu uma oitava, e eu não fiz questão de baixar. — Escute aqui, Sr. Importância Nacional. Eu passei os últimos quatro dias desviando desse seu trambolho na minha bancada. Eu perdi espaço de resfriamento, eu quase quebrei um tornozelo para que as suas latas preciosas não virassem fumaça no chão e eu estou trabalhando desde as quatro da manhã para pagar um aluguel que, por sinal, é o mesmo que o seu! Dei um passo à frente, ignorando que ele era trinta centímetros mais alto e parecia um soldado que acabou de voltar de uma guerra perdida. — Se você não queria "rastro de farinha", deveria ter avisado aos Correios para não entregarem coisas quando o dono não está em casa para latir para o entregador! Vincent piscou. O choque no olhar dele foi quase satisfatório. Ninguém naquele prédio gritava com ele. Ninguém o enfrentava. Ele olhou para a caixa enfarinhada e depois voltou a olhar para mim. O silêncio no meu apartamento era tenso, carregado com o cheiro de red velvet e a irritação pura que emanava de nós dois. Ele parecia estar processando o fato de que eu não ia pedir desculpas. — Você gritou comigo. — ele constatou, a voz agora mais baixa, quase surpresa. — Gritei! E grito de novo! — apontei para a porta. — Pegue suas tintas de mil oitocentos e antigamente e saia da minha cozinha. Eu tenho cupcakes para entregar e você está... Você está contaminando o meu ar com esse seu mau humor! Vincent abriu a boca para retrucar, mas um som vindo da minha cozinha o interrompeu. Bip. Bip. Bip. O timer do forno. — Ótimo. Agora, se me der licença, o "desastre ambulante" tem trabalho de verdade para fazer.
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