5-ARTHUR

1110 Words
Capítulo 5 ARTHUR NARRANDO: O som dos saltos da Beatriz se afastando da minha sala ecoou por alguns segundos mesmo depois que a porta se fechou. Ela sempre fazia isso, caminhava com cuidado, sem fazer barulho, como se estivesse pedindo desculpa por existir. E isso me irritava. Não por ela. Mas por mim. Voltei a encarar a tela do computador, embora não tivesse mais prestando atenção no que estava lendo. Eu sabia que fui seco. Sabia que ela merecia, no mínimo, um olhar. Um bom dia. Mas era mais forte do que eu. Criar distância era o meu modo de sobreviver. Beatriz é eficiente. Organizada. Atenta. Discreta. Ela me poupa o trabalho de dar ordens óbvias, e isso, no fundo, eu admiro. Mas não demonstro. Nunca demonstro. Desde que fui deixado no altar, aprendi que a indiferença protege. Que o silêncio afasta o risco. E que sentimento, quando entra, destrói. Mas tem algo nela que me intriga. A forma como ela tenta parecer firme, mesmo quando os olhos entregam o contrário. O cuidado nos detalhes. O jeito gentil de lidar com tudo. Ela não chama atenção. Não tenta agradar. E, ainda assim… é notável. Mantenho minha postura. Frio. Impecável. Profissional. Mas, às vezes, quando ela entra na sala, fico tentado a levantar os olhos. A perguntar como foi o fim de semana. A dizer qualquer coisa que vá além de contratos e reuniões. Mas não posso. Não devo. Porque quando a gente abre espaço… as pessoas entram. E entrar, pra mim, é sinônimo de partida. De dor. Voltei a digitar, enterrando tudo no ritmo das teclas. Deixa eu me apresentar. Me chamado Arthur e tenho 34 anos. E se alguém olhasse de fora, diria que tenho tudo. CEO de uma das maiores empresa do país, conta bancária gorda, apartamento de alto padrão com vista pro parque, carro importado, terno sob medida e respeito no mundo dos negócios. Mas ninguém vê o que vem por trás disso. Ninguém sabe o que custou. Nasci em uma família tradicional da zona sul de São Paulo. Filho único. Meu pai era empresário do ramo imobiliário, daqueles homens duros, exigentes, que acreditavam que carinho era sinônimo de fraqueza. Cresci entre cobranças e metas, até nos boletins da escola. – Você não precisa ser o melhor… precisa ser impecável. Essa era a frase preferida dele. Minha mãe era mais doce, mas vivia à sombra dele. Sempre silenciosa, sempre concordando com tudo. Eu aprendi cedo que amor, ali, era condicionado ao desempenho. Ser amado era um prêmio por um bom comportamento, e não um direito. Aos 17, entrei na faculdade de Administração. Com 22, já comandava projetos pesados na Ferrarezi Group. Com 28, assumi como CEO. Fui o mais novo da história da empresa. Não porque tive sorte, mas porque deixei de viver pra conquistar isso. Trabalhava 14, 16 horas por dia. Enquanto meus colegas estavam viajando, namorando, curtindo a vida… eu tava sentado em salas de reuniões, aprendendo a não sentir. E foi nesse meio-tempo que conheci a Júlia. Ela era advogada. Linda, inteligente, ambiciosa. Tinha o sorriso de quem conseguia tudo o que queria, inclusive a minha atenção. A gente começou a sair de forma leve. No começo, eu resisti. Mantive a postura fria. Mas ela foi entrando. Derrubando barreiras. Me fazendo rir. Me fazendo acreditar que talvez, eu pudesse ser diferente com ela. Depois de um ano e meio, pedi ela em casamento. E, por um tempo, achei que tinha encontrado o que todo mundo chamava de amor da vida. Mas a verdade é que… eu era só mais um degrau na escada dela. Três semanas antes do casamento, descobri que ela me traía com um sócio de um escritório de advocacia renomado. Um homem mais velho. Rico. Bem relacionado no meio político. Descobri pelos bastidores. Ninguém teve coragem de me contar diretamente. Quando confrontei, ela não negou. Disse que sentia muito, mas que aquele casamento não fazia mais sentido. E foi embora. Sem cerimônia. Sem culpa. Desde então, não me permiti mais. Mulheres? Claro. Mas nada sério. Nada duradouro. Só o suficiente pra distrair e depois esquecer. Eu me fechei. Transformei o coração numa sala trancada e joguei a chave fora. Porque quando você se entrega e é traído, o mundo deixa de fazer sentido por um tempo. Você passa a confiar no silêncio, na frieza, na lógica. Porque o emocional… o emocional te derruba. Hoje, vivo entre planilhas, contratos, reuniões e controle. É mais fácil assim. E se algum dia alguém me fizer sentir de novo… Vai ter que escalar um muro alto e forte. Porque o Arthur de antes… Ficou lá no altar, esperando uma noiva que nunca voltou. Depois da Júlia, nunca mais fui o mesmo. Não é drama. É fato. A traição dela me ensinou mais do que anos de faculdade ou negócios: que amor é frágil, volátil, e pode virar arma quando você menos espera. Desde aquele dia, prometi a mim mesmo que ninguém mais ia ter acesso às minhas fraquezas. Não dou brecha. Não me abro. Não me permito. Minhas noites são silenciosas. Chego em casa, tiro o paletó, largo a chave no balcão de mármore da cozinha e caminho por um apartamento que é bonito… mas vazio. Não tem fotos. Não tem bagunça. Não tem risadas ecoando. Tem silêncio, vinho caro, um sofá grande demais e uma TV que eu quase nunca ligo. Minhas relações são rasas, rápidas, seguras. Mulheres que sabem o que esperar: jantares, bons hotéis, presentes caros, e nada além disso. Não quero envolvimento. Não quero promessas. Não quero dar espaço pra ninguém mexer de novo nas partes que eu demorei anos pra costurar. E, sinceramente? Me acostumei. A solidão, pra quem já foi quebrado, às vezes é mais confortável do que a possibilidade de ser feliz. Porque ser feliz exige risco. E eu não sou mais homem de riscos emocionais. Na empresa, mantenho tudo sob controle. Sou temido por muitos, respeitado por todos. Não sorrio à toa. Não puxo assunto. Faço o que precisa ser feito, e ponto. Eles me chamam de arrogante. Frio. Inacessível. Talvez eu seja mesmo. Mas ninguém vê o que existe por trás disso. Ninguém enxerga o homem que teve que se reconstruir em silêncio. Que foi chamado de insensível, quando só estava tentando não cair. Que preferiu se enterrar no trabalho porque era o único lugar onde tudo fazia sentido. Às vezes olho pela janela da minha sala e vejo a cidade pulsando lá embaixo, a vida passando, pessoas se encontrando, se apaixonando, se perdendo… E me pergunto se, algum dia, eu volto a sentir alguma coisa de verdade. Por enquanto, sigo aqui. Controlado. Impecável. Intocável. Continua.....
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