7- BIA

1144 Words
Capítulo 07 Beatriz narrando O relógio marcava 17h42 quando salvei o último relatório e fechei o notebook. A cabeça já tava pesada, o corpo cansado, mas o coração... o coração tava leve. Faltava menos de um mês pro casamento, e aquela sensação de estar prestes a realizar um sonho me dava forças, mesmo nos dias mais puxados. Estiquei os braços pra trás e dei um suspiro longo, sentindo as costas estalarem. Peguei o celular e desbloqueei a tela, esperando encontrar uma mensagem do Vinicius me dizendo a hora e o local onde a gente ia se encontrar pra resolver os últimos detalhes da festa. Mas… nada. Atualizei a conversa. Esperei mais um pouco. Ainda nada. Resolvi tomar a frente e digitei: – Oi, amor. Já tá de pé nosso encontro mais tarde? Fiquei encarando as bolinhas que indicam se a pessoa está digitando. Nenhuma reação. Nem visualizado. Tentei não criar paranoia. Ele devia estar ocupado. Talvez em alguma reunião, no trânsito, sei lá. A cabeça de noivo também devia estar a mil, certo? Certo? Levantei da cadeira e fui até o espelho do banheiro do andar. Soltei o cabelo, passei um pouco de batom e ajeitei a blusa. Tinha combinado de encontrar com ele pra revisar os detalhes do buffet, do cerimonial e da lista de convidados. Ainda tinha dúvida se o vestido da madrimha ia combinar com a decoração. Olhei meu reflexo com calma. A noiva ali… era eu. Mesmo com todas as inseguranças, os quilinhos a mais, os medos guardados. Eu tava ali. Prestes a realizar um sonho. Respirei fundo e voltei pra mesa. Peguei a bolsa, desliguei o computador e dei tchau pro pessoal do financeiro. Antes de sair, ainda passei na copa pra dar um tchau à Dona Vera, que lavava as últimas xícaras do dia. — Tá indo, noivinha? — Tô. Hoje tenho missão com o noivo — sorri. — Que bom! Aproveita. Cê merece ser feliz, menina. Saí com o coração aquecido pelas palavras dela. Mas lá no fundo… uma pontinha de angústia começava a querer se formar. Aquela sensação estranha de que algo, mesmo pequeno, tava fora do lugar. Desci até a garagem com o coração apertado, mas ainda me convencendo de que era só coisa da minha cabeça. Talvez o Vinicius tivesse perdido a hora, ou estivesse em uma reunião daquelas que ninguém pode nem olhar pro celular. Entrei no meu carro, coloquei a bolsa no banco do passageiro e liguei o carro. O rádio ligou junto, tocando uma música romântica que eu, normalmente, adoraria cantar. Mas naquela hora… só me incomodou. Peguei o celular, conectei no Bluetooth e disquei o número dele. Chamando... Chamando... Nada. A ligação caiu direto na caixa postal. — Tá. Deve estar sem bateria — murmurei pra mim mesma, tentando manter o pensamento positivo. Dirigi até o apartamento dele. Já tinha ido ali dezenas de vezes, mas pela primeira vez senti um desconforto estranho conforme me aproximava. Um aperto no peito. Um silêncio dentro de mim que parecia gritar. Estacionei na rua e caminhei até a portaria, ajeitando o cabelo e segurando firme a bolsa como se ela pudesse me proteger. — Boa noite, dona Beatriz — o porteiro, seu Mauro, me cumprimentou com aquele sorriso cansado. — Boa noite, seu Mauro. O Vinicius já chegou? Ele consultou o monitor com as câmeras e depois olhou a planilha de anotações na mesa. — Ainda não. Desde cedo que ninguém subiu no apê dele, e o carro dele não tá na garagem. — Ah… tá. — tentei disfarçar a decepção no rosto. — Ele falou que ia me encontrar hoje. Deve estar preso no trânsito, né? — Pode ser. Aqui em São Paulo isso é mais comum que sol de verão — ele disse, tentando aliviar o clima. Sorri sem graça, agradeci e me afastei. Voltei pro carro, fechei a porta e fiquei ali, parada com as mãos no volante. O celular na mão de novo. Disquei outra vez. Chamando... Chamando... Caixa postal. Olhei o visor. Última visualização: 15h13. Meu peito começou a apertar de verdade agora. O silêncio dele não era comum. Não com uma reunião marcada. Não comigo. Mandei uma mensagem: – Vinicius, tá tudo bem? Tô aqui no seu prédio. Me avisa, por favor. Esperei. Nada. Os minutos passaram, e o medo foi virando angústia. E a angústia… começava a dar lugar a algo pior. Desconfiança. Engoli em seco, olhei pro céu que já começava a escurecer, e senti o coração dar uma leve fisgada. Como se, lá no fundo, algo estivesse tentando me avisar: Tem coisa errada, Beatriz e pela primeira vez, eu comecei a ouvir. Olhei o visor do celular pela quinta vez em menos de dez minutos. Nenhuma resposta. Nenhuma ligação. Nenhuma explicação. Suspirei fundo, encostei a cabeça no banco do carro e fiquei ali, com os olhos perdidos nas luzes do prédio. Já fazia mais de uma hora que eu tinha chegado. E nada. Liguei de novo. Chamando... Chamando... Caixa postal. Meu estômago roncou alto, me lembrando que eu não comia desde o almoço. A dor de cabeça começou a latejar devagar, como quem chega só pra avisar que vai ficar pior se eu não me cuidar. Mas eu fiquei. Esperei mais um pouco. Mais uma ligação. Mais uma chance de ele aparecer. Duas horas. Eu fiquei ali por duas horas, olhando pra entrada do prédio onde tantas vezes ele me recebeu com um sorriso, um beijo, um senti sua falta. Dessa vez, nem a sombra dele. Meu corpo tava cansado, a fome agora dava lugar ao cansaço emocional. E por mais que meu coração ainda quisesse encontrar uma desculpa qualquer pra justificar o sumiço dele… minha razão já começava a sussurrar outra coisa. Engoli o nó na garganta, respirei fundo e peguei o celular mais uma vez. – Tô indo pra casa. Espero que esteja tudo bem. Me avisa quando puder. Enviei. Nada. Liguei o carro, engatei a marcha e comecei a dirigir de volta pra casa, com as mãos trêmulas no volante e o coração pesado. A cidade passava pelos meus olhos como um borrão, faróis, buzinas, postes, gente demais… e eu sozinha. Sozinha, tentando fingir que tava tudo bem. Sozinha, tentando não chorar no trânsito. Sozinha, mesmo achando que tinha alguém. Cheguei em casa quase 21h. Patrícia tava no sofá vendo série, mas desligou a TV na hora que me viu entrando com aquela cara. — O que houve, Bia? — ela perguntou, se levantando. Fechei a porta atrás de mim, larguei a bolsa no chão e só respondi, num fio de voz: — Ele não apareceu. A boca dela se abriu, surpresa. Mas eu fui direto pro quarto. Não queria conselhos. Não queria teorias. Só queria não sentir o que tava sentindo e deitar. Deitar e torcer pra acordar no dia seguinte com uma mensagem dele me explicando tudo. Continua ......
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