Filipa
Não me culpe pelo primeiro passo. Eu te juro que você poderá fazer isso mais para frente (nove vezes, talvez), mas quem iniciou tudo isso não fui eu, pelo contrário, eu até tentei evitar. Quem, em plena era tecnológica, n**a os avanços e continua lidando com a mídia como acontecia nos anos 80? Eu avisei mais de uma vez. Mas para minha tia, eu sou a garota que lhe deve um favor, que trabalha para ela porque não conseguiu um emprego melhor.
Ouso dizer que só o passo um deveria valer por uns oito, afinal, ela quase foi à falência e arrastou todos os funcionários para o fundo do poço, junto com ela. Mas tudo bem, a intenção não é tirar a responsabilidade de cima da minha cabeça, mesmo me achando uma funcionária prestativa e responsável.
—FILIPE, ANDA LOGO— Gritei, encarando o fim do corredor. Ok, isso foi meio inesperado, me desculpe! Eu prometo que não sou o tipo de pessoa que começa a gritar do nada, pelo menos não quando não tenho motivo. Digamos que eu não estava no melhor dos meus humores, seria um dia difícil e o atraso do meu irmão mais novo não estava ajudando.
—Vou com a abuela. Você sabe como eu odeio que me leve até a escola— Ele saiu de seu quarto, apressado.
Não estava com paciência para pirraça adolescente, então entreguei o copo térmico de café e o sanduíche embalado no papel laminado em suas mãos, jogando minha bolsa sobre os ombros e abrindo a porta do apartamento, arrastando o caçula para fora.
Eu me dava bem com meu irmão, sempre foi assim. Acontece que depois que nossos pais decidiram se aventurar nas estradas pelo Brasil, eu me tornei a “chefe da casa”, já que minha avó era bem cabeça oca e Filipe não tinha idade para tal responsabilidade.
E aí, eu tive que começar a ser um pouco mais dura com ele, como sua responsável legal e a pessoa que tinha autonomia para educá-lo e corrigi-lo. Não que o trabalho fosse muito duro, uma vez que bem feito nos primeiros anos de vida, depois tudo era consequência e meu irmão era um garoto tranquilo.
—Não entendo o porquê. Nós dois sabemos que chegaria na escola pingando de suor, se fosse andando. Além do mais, abuela não está em casa — Esmaguei o botão que chamava o elevador.
—Ela saiu mais cedo para a aula de yoga e me largou? De novo? Acho que vou comprar uma bike e ir pro colégio pedalando, porque isso já está virando rotina — Falou, quando as portas se abriram bem em nossa frente.
—Ela me mandou uma mensagem de madrugada, dizendo que decidiu estender a noite de bingo na casa daquele “amigo” dela. Com a idade dela, ela não deveria dormir às oito da noite e levantar antes do sol nascer?
—Você deveria estar acostumada, ela foge de todos os padrões. Como se sente sabendo que a abuela tem a vida s****l mais agitada que a minha e a sua, somadas?
—Pipo, você tem 17 anos, não vou falar da minha vida s****l com você. Além do mais, você como adolescente deveria ser o primeiro a saber que não se transa só a noite, muito menos só dentro de seu próprio quarto. Mas assim, quem sou eu para te dar m*l exemplo, pelo contrário, prefiro que traga suas namoradinhas, ou peguetes, em casa.
—E quem disse que eu quero saber de alguma coisa? Credo! Só acho que você não deveria ir para a casa de qualquer cara que m*l conhece, muito menos arrumar buraco para t*****r. É grandinha o suficiente para assumir a responsabilidade de trazer seus peguetes em casa, mas assim, prefiro ignorar a existência deles —Ele me rebateu.
—Isso não impede que seus amigos pareçam bem interessados no cargo de cunhado.
—Vai ver é por isso que não gosto que me leve pra escola, Filipa!
—Então é por isso que prefere chegar no colégio de fusquinha amarelo com a abuela? E nem é como se algum de seus amigos tivesse chance... Ou mais de 18 anos.
—Eles não param de falar de você! Toda vez que te veem eles— Meu irmão não completou a frase, mas me encarou com olhos arregalados— Se um deles fosse maior de idade, teria chance?
—O que? Não! Por acaso tenho cara de Sugar Mommy?
—De dona de creche, um pouquinho— Lhe dei um pescotapa e saímos do elevador— Mas então, porque a pressa de estar na redação antes das oito da manhã?
—A equipe de São Paulo está chegando, a última edição da revista física saiu há alguns dias e a partir de hoje as mudanças começam: vídeos no Youtube, postagens no i********:, as matérias completas no site e um programa de assinatura.
A revista Torres do Rio sempre abordou diversos assuntos que, de alguma forma, estivessem ligados à cidade ou aos cariocas. Mas minha tia errou, e muito, quando abriu mão das colunas de fofoca e dos assuntos ligados à mídia e celebridades.
Quer dizer, ainda assim, seu maior erro foi ter ignorado completamente a tecnologia e não ter usado as mídias sociais a seu favor. Mas agora tudo seria diferente, trazendo proximidade entre os funcionários e os leitores, assim como voltando a trazer entrevistas e aquilo que todo mundo gosta (mesmo que finja que não): fofoca.
—Foi tudo ideia sua, não foi?
—Foi. Mas nós dois conhecemos nossa tia e o amor genuíno que ela nutre por mim, então também entendemos que meu nome não estará nos créditos.
—É quase uma reinauguração, ela podia pelo menos fazer uma festa.
—Com que dinheiro? Ela só aceitou as mudanças quando percebeu que não tinha como manter a redação de São Paulo. Quero só ver quem foi demitido e quem foi transferido pra cá...
Pode parecer estranho que uma revista carioca, que fale especificamente de assuntos relacionados ao Rio, tenha uma sede em São Paulo. Mas tinha e posso dizer que funcionou por um bom tempo, sendo até a ser cogitada a hipótese da a******a de uma versão “Torres de São Paulo”, que nunca chegou a acontecer.
E Torres? Era o sobrenome da parte espanhola da família, ou seja, vinha de minha avó, carinhosamente chamada de Abuela, por nós. Dentro da redação eu optava por usar meu sobrenome paterno: Schmidt. Apesar de todos saberem que eu e minha tia não éramos lá melhores amigas, preferia evitar toda essa identificação de parentesco entre nós, para não causar uma primeira impressão errada, em quem nos conhecesse.
Odiava pensar que eu poderia só ter um emprego por causa da minha família, não da minha competência.
—Ela não deveria contratar mais gente, pra ajudar com as plataformas digitais e no novo formato? — Perguntou, enquanto entrávamos no carro, que rapidamente tirei da garagem.
—Deveria, mas não tem dinheiro pra isso. Sinto que vai me explorar mais um pouco e vou continuar exercendo um cargo pelo qual não fui contratada!
—E não recebe pra isso.
—Exatamente! Acredita que eu tive que traduzir um artigo científico inteiro, porque um redator precisava ler para uma nova matéria?
—Vocês não tinham um tradutor, até uns meses atrás?
—Tínhamos, mas porque contratar alguém para exercer uma função, quando sua sobrinha pode fazer de graça, não é? Além do mais, ele era da equipe paulista.
—Pipa, você precisa de um emprego novo. É sério, não é porque ela é nossa tia que pode fazer isso contigo e te manter calada. Se saísse distribuindo currículos, arrumaria um emprego melhor, ganhando mais e trabalhando menos.
—O problema é que ali dentro eu tenho estabilidade, sei que ela não me mandaria embora por causa da mamãe e da abuela. E tenho respeito, consigo impor isso por ser sobrinha de Estela.
—Mesmo com ela te explorando e te xingando? Vale mesmo a pena? Quem te respeita lá? Porque a tia Estela com certeza não faz isso.
—É mais complicado que isso, Pipo. Mas vamos ver como vai ficar agora, com a equipe de São Paulo se juntando a nós e com a “Revolução Digital”.
—Vai que algum carinha bonito foi transferido, hum? Um namorado seria bom pra você aliviar todo esse estresse.
—Garoto, cala a boca. Você está passando muito tempo com a abuela.
—Talvez seja justamente o contrário: Você está passando muito tempo longe da abuela.
—Deve ser porque eu tenho um emprego.
—E uma chefe que te explora e te faz trabalhar 14 horas por dia. Isso não é saudável, ela pelo menos te paga hora extra?
—Nos meses em que o faturamento é bom e isso melhora o seu humor...
—Sai dessa furada, Pipa. Você merece e é capaz de arrumar coisa melhor!
—Tem dinheiro pra um Uber, se a abuela não aparecer para te buscar?
—Vou andando, não é como se eu fosse desmaiar ou levar mais de 15 minutos pra chegar em casa— Ele deu de ombros.
—Qualquer coisa liga— Falei, assim que ele saltou para fora do carro.
—Não deixe ela te enlouquecer— Disse alto, antes que eu desse partida novamente.
O caminho do Humaitá até o Jardim Botânico era curto demais para que eu conseguisse colocar meus pensamentos e angústias no lugar. Estava com medo e nem era por conta do crédito que sabia que não ia levar, mas porque se desse errado, aí sim eu teria meu nome atribuído, responsabilizado e culpado.
Mas não podia dar errado, não tinha como. A única coisa que podia sair do controle e piorar era eu e a nova carga que seria colocada em minhas costas. Eu esperava não ser mais do que eu podia aguentar.
Avistei o prédio em que passava mais tempo do que em casa e acenei para o porteiro, que abriu o portão da garagem. O térreo do edifício comercial abrigava a agência de um banco e uma lanchonete, por isso, o estacionamento se localizava no segundo andar.
A área era separada para as diferentes empresas que funcionavam ali e, por isso, a revista tinha um espaço de vagas específico e limitado para apenas alguns funcionários, identificadas por marcações.
Parei minha Captur branca no espaço destinado a mim e desci do carro. Enquanto andava até o elevador, conferi se estava tudo certo com minha roupa. Eu vestia uma calça preta e camisa social da mesma cor, com estampa de bolinhas brancas e alguns botões abertos, deixando o sutiã rendado à mostra. Ele também era preto, assim como a sandália de salto e a bolsa.
É, preto era minha cor preferida. Meus pais são roqueiros, não era como se alguém pudesse esperar outra coisa de mim. Se bem que a abuela é meio hippie, desde os anos 70, na verdade... Acho que ela nunca saiu dessa fase. Dobrei cuidadosamente as mangas no cotovelo, enquanto esperava pelo elevador. Queria estar um pouquinho mais apresentável que o normal, já que conheceria meus novos colegas de trabalho naquela manhã.
—Ryan? Achei que não vinha hoje!