Ela é Carioca

2775 Words
Ela é carioca Ela é carioca Bata o jeitinho dela andar Nem ninguém tem carinho assim para dar Eu vejo na lux dos seus olhos (na cor dos seus olhos) As noites do Rio ao luar - Tom Jobim. Filipa Caminhei digitando no celular, deixando o resto das minhas amigas e os dois novos colegas de trabalho andarem na minha frente. Pela hierarquia atual, Talia, Marcela e Naomi estavam em posições superiores às nossas, como Diretora de Reportagem, Redatora e Redatora Chefe, respectivamente. Porém, eu e Nicolas éramos chefiados diretamente pela primeira, já que nosso principal cargo era como repórter. Karina, como secretária de toda a redação, acabava recebendo informações, ordens e comandos de quase todos, não sabia como ela aguentava tanta gente achando que poderia mandar/ estava em uma posição superior a ela. Mas formalmente falando, somente minha tia e os outros três que estavam no alto escalão da revista que a chefiavam. No celular, minha mãe estava me mandando mensagens, dizendo que tinham acabado de deixar o Pantanal mato-grossense e agora seguiam para Goiânia. Também perguntei para Ryan se ele realmente viria, mas o mesmo me respondeu que tinha acabado a última entrega do dia, passaria na faculdade para entregar um trabalho e só então poderia vir ao nosso encontro. Nós pegamos uma mesa de oito lugares, mesmo estando em seis até o momento. Preferi me sentar entre Karina e uma das cadeiras vazias, para manter aquele lugar para Ryan. Naomi estava de frente para esse lugar vago e Nicolas era quem se mantinha cara a cara comigo. Marcela estava sentada na frente de Ka e era Talia quem ocupava o lugar de uma das pontas, enquanto a outra abrigava apenas a bolsa de Naomi. Como ainda era cedo, o local não estava cheio e o garçom chegou na mesa ao mesmo tempo que nós, praticamente. Pedimos algumas porções de aperitivos e cervejas, além de refrigerante para Marcela e Nicolas, que ainda iriam dirigir. —Então, eu venho pensando em como podemos nos conhecer melhor, desde o momento em que soube que receberíamos colegas de São Paulo, para trabalhar conosco— Ma disparou a falar. Ela era extremamente espontânea e, muitas vezes engraçada. Estava sempre falando e adorava dinâmicas e joguinhos, o que normalmente acabava irritando algumas pessoas de dentro da redação. —Qual é a sua ideia? — Talia questionou, já esperando o que estava por vir. —Eu tentei conversar com Estela sobre fazer uma dinâmica de boas vindas, mas ela achou que poderia ser uma ideia r**m, porque os recém chegados vinham de outro esquema de trabalho, eram mais quietos e podiam se sentir forçados a participar ou que nós estávamos invadindo seu espaço— ela rolou os olhos. —Mas é claro que você não deixaria passar, não é? Afinal, tia Estela ser uma estraga prazeres não é uma surpresa para ninguém— eu falei, mas ninguém foi capaz de levantar voz para concordar comigo, mesmo que eu soubesse que, no fundo, partilhávamos da mesma opinião. Eu sentia que ninguém ali confiava o suficiente em mim para saber que eu não os deduraria para minha tia, caso reclamassem dela na minha frente. —Por que não fazemos o seguinte, cada um de nós falamos a impressão que tivemos de Naomi e Nicolas, depois eles fazem o mesmo conosco? Assim nós podemos nos conhecer melhor e vermos se estamos dentro das expectativas e como podemos fazer para mudar uma possível impressão r**m, ou para manter a impressão boa em dia. —Não é melhor a gente só conversar e se conhecer, como pessoas normais? — Escapou da minha boca, mas em tom leve. Ela deu de ombros: —Você soou tanto como a sua tia, agora— Talia se limitou a dizer, antes que Marcela voltasse a defender a sua ideia com um único argumento: —O normal é chato, Pipazinha. —Pipazinha é o pior apelido da face da terra— Karina falou. Fui obrigada a concordar, de onde haviam tirado aquilo? —Na verdade, a ideia de Marcela me parece bem legal— Naomi disse, mas não sabia se ela tinha verdadeiramente gostado ou se só estava tentando ser agradável —Se ninguém se importar, eu posso começar. —Claro— Talia falou por nós, ela tinha um espírito de liderança aflorado, mas eu não tinha do que reclamar, gostava de ser comandada por ela. Era justa e amigável, sem deixar de ser pulso firme. Puxava as minhas orelhas quando tinha que puxar e não tinha medo de fazer isso por eu ser sobrinha da dona, mas também, sempre era a primeira a reconhecer quando eu fazia algo legal e a me elogiar pelos meus bons trabalhos. Não tinha tanta i********e com ela quanto tinha com Karina e Marcela, achava que era importante estabelecer um limite um pouco mais claro, para não acabarmos misturando e confundindo a relação de amizade com a de chefe, assim poderíamos nos autosabotar. Agora, voltando a dinâmica meio boba desenvolvida por Marcela, Naomi realmente foi a primeira a tomar frente para falar. Pelos próximos dois minutos, ouvi a japonesa (eu achava que era japonesa, não queria ser xenofóbica chamando-a assim, mas como ela era paulista e há muitos descendentes de j*******s na Liberdade, não conseguia pensar em outra hipótese. Além de que, tive a impressão de ouvir ela comentar, ainda no escritório, que havia crescido no bairro) lançar elogios para as meninas ao meu lado. Não sabia se ela estava se forçando a ser legal ou se era realmente tão simpática, mas ela não parecia precisar se esforçar para falar bem da gente. Quer dizer, delas, porque ainda não tinha chegado a minha vez. —Agora Filipa— ela sorriu em minha direção e eu enlacei meus dedos. Esse tipo de situação sempre me trazia um pouco de nervoso, eu não sabia quando ia ouvir algo que não gostava e, bem, preciso admitir que costumava remoer as coisas, bem mais do que deveria— Ainda não tivemos possibilidade de conversar, porque só te vi no período da tarde. Mas quando você saiu do elevador, pensei que era alguma modelo que tinha descido no andar errado, ou que iria fazer alguma publicidade para a revista, algo do tipo. Enfim, minha primeira impressão de você foi que você é muito linda. Na verdade, todas vocês são! —Eu, modelo? — ri, sentindo minhas bochechas esquentarem. Não sabia lidar com elogio, sempre ficava envergonhada e sem saber o que dizer. —Adriana Lima— Talia disse, forçando uma tosse no meio do caminho, para disfarçar. Revirei os olhos, ouvia a comparação com certa frequencia e acho que era o combo que vinha quando se juntava sangue brasileiro, cabelos pretos (no meu caso artificialmente dessa cor), olhos azuis e pele bronzeada. —Acho que eu vou, agora —falei, para tentar fugir daquele assunto e do desconforto de não saber como a agradecer pelo elogio à minha aparencia —Naomi, quando eu te vi hoje a tarde, a primeira coisa que pensei é que você tem cara de rica! —Hipocrisia, por aqui! — Foi Marcela quem interferiu, dessa vez. —Nossa, vocês não me deixam em paz hoje! Eu não sou rica, o marido da minha tia é, vocês já viram a casa em que ela mora? —Nossos padrões de riqueza são bem diferentes, Pipa— foi Karina quem falou. É, eu sabia que o que ela estava dizendo era uma verdade, mas ao mesmo tempo, podia afirmar que apesar de estar em uma posição mais privilegiada que a grande maioria da população brasileira, eu ainda estava muito longe do conceito de riqueza. —Rica é um pouco demais, eu tenho uma vida confortável. Mas voltando ao que eu estava dizendo, quando vi Naomi, meio que tive certeza que íamos nos dar bem. Não tem nada a ver com o fato de ter achado que você é rica, zero interesse no seu dinheiro hipotético, mas apenas senti que seremos amigas. —Fui sincera em minhas palavras, mesmo me sentindo um pouco tímida e desconfortável de expor as minhas impressões assim. —Isso é muito fofo, da sua parte! E a propósito, também tive a mesma sensação de conexão! E como você mesma disse, eu não sou rica, mas nesse caso, meus pais é que são! —Então você terá uma herança rica, dá praticamente no mesmo— Marcela deu de ombros e todos a repreendemos com o olhar, ela não tinha jeito e era exatamente por isso que a adorávamos, apesar de flutuar entre a sinceridade e a inconveniência, as vezes. —Agora vamos para o garoto tímido, aí! — encarei Nicolas, tomando cuidado com as palavras, porque o peguei me encarando algumas vezes durante a tarde e achava que ele não tinha ido com a minha cara. E assim, vamos lá, não dava para saber se ele estava me encarando porque gostava do que via ou porque já tinha me odiado logo de cara, porque era um psicopata e tinha me elegido para ser a sua próxima vítima. Eu preferia não arriscar a minha vidinha. —Quando o vi no elevador, por um segundo pensei que você fosse o Maluma, mas aí olhei para o seu rosto e vi que podem até se parecer no contexto geral, mas que realmente não tem os mesmos traços. Mas depois, realmente te achei tímido e calado, nada muito profundo, apenas algumas observações sobre o seu comportamento em seu primeiro dia no Rio —dei de ombros —E você, o que achou de mim? Sim, eu perguntei. Estava me corroendo de curiosidade (e um pouco de medo dele invadir meu apartamento e me m***r enquanto eu durmo, agora que sabe onde eu moro) e queria ver se ele seria sincero, porque minha intuição dificilmente falhava e, na minha mente, uma coisa era certa: o santo dele não tinha batido com o meu. Sobre o meu lado, eu ainda não tinha uma opinião formada, não sabia se iria odiar ou amar o meu novo colega de trabalho. —Sendo completamente sincero, primeiro, no elevador, achei que tem olhos bonitos. Depois, enquanto estávamos na sala de Estela, achei que você é uma patricinha metida do Rio. Uow, ele realmente foi sincero. Curto e grosso. E essa doeu, devo admitir. Quer dizer, ele tinha um tom de voz brando, mas ainda assim foi aquele tipo de resposta que se transformou em um tiro na testa. Percebi que estava com os olhos arregalados desde que as palavras saíram de sua boca, em surpresa. Achei que ele fosse encher linguiça, fazer uma meia sola e não dizer nada comprometedor, ainda mais em uma mesa cercada por amigas minhas. Mas eu não estava acostumada a deixar as coisas baratas. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua e essa era a próxima descoberta que ele faria sobre mim. —Bom, eu não nasci no Rio— dei de ombros. —Mas você tem sotaque carioca— rebateu de novo, ele era teimoso, cruzes! —Sempre morei aqui, mas não nasci no Rio. —Então onde nasceu? Outra cidade do estado? —Não— ri sozinha, ele nunca acertaria no chute e com certeza demoraria uma eternidade para acertar, se fosse por eliminação. —Só hoje te ouvi falando espanhol e alemão, isso me dá muitos lugares como opção. Falou “tu” várias vezes, também. —Não se fala “tu” só no Sul, também falamos aqui! —respondi, mas ninguém além de nós dois foi capaz de dizer uma palavra, naquela mesa. —Tanto faz, se for no Brasil, com certeza é no sul. —Isso virou um jogo? Gostei! — Marcela se intrometeu, revirei os olhos. —Dê um chute— continuei o encarando e esperando por mais um palpite. —Porto Alegre? Eu ri, Karina também. Ela era a única que sabia onde eu tinha nascido. Como minha família inteira morava no Rio, eu passei minha vida inteira aqui e tinha sotaque carioca, assim como meus documentos foram tirados em cartórios daqui, ninguém jamais imaginaria, se eu não falasse. —Passou muito longe! —Outra parte do Rio Grande do Sul? Paraná ou Santa Catarina? —Não foi no Sul. —Decidi facilitar, quer dizer, diminuir um pouquinho o grau de dificuldade das coisas. —Então, com certeza foi na Espanha ou Alemanha. Talvez Argentina, ou sei lá, Inglaterra, estou chutando para todos os lados que fazem sentido. Talvez seus pais tenham ido para os Estados Unidos, para você nascer, como os ricos adoram fazer— Ele continuou insistindo. —Eu falo espanhol porque minha avó nasceu em Madrid. Sempre morei com ela, sempre falei em espanhol com ela, minha mãe e minha tia. Falo alemão porque meu pai nasceu no Sul, em uma comunidade alemã, então aprendi o dialeto durante a infância e mais tarde estudei para aprender a língua como ela ainda é falada na Alemanha. Falo inglês porque aprendi na adolescência. Ou seja, não nasci fora do país. —Minas? Pode ser Espirito Santo ou Brasília. —Não! —Só falta me dizer que nasceu em São Paulo! —Bem, você falou da parte que não é esquecida do Brasil. Falou os lugares que tem mais status, até me surpreendi que lembrou do Espírito Santo, mas desse jeito vai demorar para acertar! —Onde? Desisto! —Eu até te daria o ponto se tivesse acertado o estado, porque a cidade é praticamente impossível. —Dei de ombros, antes de revelar a verdade —Nasci em Assunção do Içana, em um distrito de São Gabriel da Cachoeira, perto da fronteira com a Colômbia e a Venezuela, no Amazonas. —Você está blefando— ele respondeu, com uma certeza gigante. —Não, não estou! Eu nasci em uma aldeia indígena, quando meus pais estavam fazendo uma expedição e minha mãe entrou em trabalho de parto antes da hora. Não daria tempo de chegar no hospital mais próximo, quiçá em uma cidade ou conseguir voltar para o Rio. —Espera, eu também nunca ouvi você falar sobre isso— Marcela disse, revirei os olhos. Que ótimo, agora parecia que mais alguém duvidava de mim e clamava por provas, como se eu fosse a p***a de uma mentirosa. —Também não sabia— Talia falou e Nicolas me encarou com a maior expressão de vitória, como se eu tivesse motivos para criar uma história e tentar enganar todo mundo... —Eu sabia e posso afirmar que é verdade— Karina dá de ombros. Mas Nicolas não parecia acreditar e eu odiava ser desafiada, ou subestimada. Ele não sabia com quem estava brincando, por bobeira, ainda. Aquilo era ridículo, estávamos na segunda série? —Eu tenho certeza que Filipa pode provar que está falando a verdade! — Naomi me defendeu e com certeza ganhou mais alguns pontinhos comigo. —Bom, minha naturalidade na identidade está como carioca, porque vivi toda a minha vida aqui, nasci fora de um hospital e fui registrada aqui. Mas se formos um pouquinho mais longe, preciso apenas de alguns minutos para provar. Afinal, na certidão de nascimento consta a cidade em que nascemos. —Estamos todos esperando, Filipa— Nicolas desafiou, mais uma vez. Que ódio! Peguei meu celular e disquei o número do celular de minha avó. Filipe havia me dito que tomaria banho e sairia com os amigos, mas eu imaginava, e esperava, que ela estivesse em casa. Se não estivesse, eu mesma iria buscar minha certidão de nascimento para esfregar na cara de Nicolas. —Abuela? Oi— comecei a falar em espanhol, assim que ela atendeu a chamada— Pode me fazer um favor? Eu estou aqui na esquina com o pessoal do trabalho. —Está trabalhando nas esquinas agora, rodando a bolsinha, garota? — A voz dela saiu alta e, como o bar ainda estava quase que completamente silencioso e vazio, pelo horário, tenho certeza que todos na mesa escutaram o que ela disse, mesmo sem estar no viva-voz. —Abuela! —reclamei —Estou no barzinho da esquina, eu em! —Você é meio doida, sei lá! Vai que cansou de olhar para a cara de Estela todos os dias e resolveu encontrar outro tipo de emprego... —Eu quem sou doida, né? Mas então, está em casa? Preciso de uma foto da minha certidão de nascimento e é meio urgente! —Para quem você está querendo provar que nasceu no meio da Floresta Amazônica? —As sobrancelhas de Nicolas se levantaram, do outro lado da mesa. Eu sabia que ele estava ouvindo, só não imaginava que estava entendendo. —Ninguém importante! —respondi, com um sorriso sacana no rosto.
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