Burguesinha

2142 Words
Vai no cabeleireiro No esteticista Malha o dia inteiro Pinta de artista Saca dinheiro, vai de motorista Com seu carro esporte, vai zoar na pista - Seu Jorge. Filipa Quando coloquei meus pés na Torres do Rio, como funcionária, pela primeira vez, todos me colocaram em uma posição de patricinha mimada. Eu era a sobrinha da dona da revista, a filha da fotógrafa incrível que estava se preparando para se aventurar pelas estradas do país, assumindo uma coluna de viagens, eu era apenas a neta de uma artista plástica talentosa, eu era o que as grandes mulheres da minha família são. Não que isso seja um coisa r**m, eu sou extremamente orgulhosa e realizada por vir de uma família cheia de empoderamento feminino e mulheres bem sucedidas as quais posso me espelhar, até mesmo tia Estela entra na lista. Não concordava com a forma com que ela vinha lidando com a revista, nos últimos anos, tampouco me sentia confortável com a postura que ela assumia como minha chefe, quando estávamos longe dos puxões de orelha da vovó. Mas o fato é, ela foi e continua sendo minha primeira e maior inspiração na carreira jornalística, é o exemplo que eu quis seguir desde cedo. E quanto ao patricinha mimada, bom, não ia me fazer de b***a e me fingir de cega para com meus privilégios. Eu realmente era o que diziam por aí, só não gostava quando esse título vinha entrelaçado com um poço de futilidade, menosprezo e mau-caratismo. Normalmente vinha, porque você sempre é considerada a própria Regina George. Uma coisa que as pessoas também não administravam bem, aquela informação que contestavam achando que eu estava sendo modesta, era sobre a situação financeira, o que era bem chato, porque ficar se justificando o tempo todo incomoda. E não, eu não era podre de rica. Na verdade, eu não era nem rica. Pelo menos não me considerava. Morávamos em um bairro bom, Humaitá. Era um local tradicional, sem toda aquela fama e poupa de outros locais da Zona Sul. Menos famosos e glamourizado do que a própria Barra da Tijuca e o Recreio, por exemplo,(pelo menos em minha opinião) que nem na Zona Sul ficavam. Também era seguro e o apartamento de vovó ficava no fim/topo de uma rua, morávamos no último andar e erámos agraciados bem de perto com a visão do Morro do Corcovado e do Cristo Redentor, assim como um clima bem mais ameno que em outras partes da cidade. Abuela sempre quis conhecer o Brasil e foi quando ganhou seu primeiro dinheiro significativo, como artista plástica, que veio parar nas terras latinas. Ela conheceu meu avô por aqui e eles trocaram cartas por anos, enquanto ela se estabelecia em Madrid e ele cursava a faculdade de direito. Quando ele se formou, abuela já tinha certo renome, mas sabia que não se tornaria mundialmente famosa, ou pelo menos, isso deixou de ser seu maior objetivo. Ela largou sua vida na Espanha e veio atrás do vovô e foi assim, com um casamento às pressas, já que só morar junto era fora de cogitação, naquele tempo, que com uns euros (na verdade eu não faço ideia se a moeda utilizada na Espanha naquela época já era o Euro, mas vocês entenderam o que eu quis dizer) guardados, ela arrematou esse apartamento. Quer dizer, eles pagaram o financiamento pelos próximos muitos anos, mas isso nos proporcionou uma moradia bem localizada e um apartamento enorme. Logo depois que meus pais se casaram, anos-luz atrás, meu avô tinha sofrido seu primeiro AVC e sem querer deixar os pais desamparados, minha mãe decidiu por não sair de casa, apenas agregar meu pai e, depois, eu e meu irmão. Nunca vivi separado de meus avós, talvez justamente por isso, a perda dele tenha sido uma grande facada no meu coração. De qualquer forma, se morássemos separados, não teríamos crescido com a mesma qualidade de vida que tivemos, porque apenas meus pais não conseguiriam sustentar um apartamento tão grande, em um bairro tão bom, logo no início de suas vidas profissionais. Diferente da minha tia, que logo se estabilizou como jornalista e casou com um médico cirurgião podre de rico, mamãe ralou para se consolidar e trabalha como fotógrafa da revista desde o momento em que ela foi criada, mas quando foi viajar pelo Brasil e soube que não podia exigir que minha tia a mantivesse no cargo, já que precisaria colocar alguém em seu lugar, pediu apenas um espaço semanal para falar de suas viagens. Em sua coluna, mamãe sempre compara seus pontos de parada com lugares espalhados pelo estado do Rio, é assim que ela faz a ponte para não fugir do tema da revista, mostrando como é possível encontrar um pedacinho de cada parte do Brasil, dentro do Rio. Ela também conseguiu espaço em outras duas revistas: em uma, escreve uma coluna de culináriae gastronomia, contando as experiências dos lugares por onde passa e ensinando receitas típicas de cada um deles. Na outra, específica de viagem, conta sobre suas andanças, com material parecido com o que desenvolve para a Torres do Rio, mas sem a comparação com nosso estado. Já meu pai, como biólogo, decidiu viajar pelo Brasil estudando espécies, comparando biomas e compartilhando isso com o público. Foi assim que meus pais foram parar no Youtube, colocaram a moto na caçamba da caminhonete e saíram por aí. Então não, eles não haviam deixado de trabalhar, não tinha como isso acontecer, não conseguiriam se sustentar se não encontrassem um emprego que os permitissem viver na estrada. Deu muito certo para eles, esse era o principal motivo pelo qual eu vinha insistindo para minha tia desenvolver um canal no youtube para a revista: daria certo, eu tinha certeza. Os funcionários eram carismáticos e, mostrando bastidores ou trazendo informações, as pessoas iriam passar a gostar de acompanhar aquela rotina. Agora, voltando a falar sobre meus pais, eles obviamente, ainda contribuíam financeiramente com a casa, até porque Filipe estudava em uma boa escola particular e provavelmente demoraria alguns bons anos para se tornar independente. Eu era a guardiã legal do meu irmão e, mesmo que informalmente, de abuela também. Desde que vovô se foi, com muitos sonhos guardados e nunca realizados, meus pais perceberam que deveriam correr atrás do que os fazia feliz, inspirados em abuela, que viveu seu luto viajando pelo país, por alguns meses. E não houve época mais feliz na vida dos meus pais, do que quando viviam viajando em expedições, próximo ao período em que nasci, daí também surgiu a ideia de voltar aos velhos tempos. Abuela, acumulando a aposentadoria dela e a dele, vinha conseguindo riscar itens na sua lista de coisas para fazer “antes de morrer”, palavras dela. E eu, bom, eu não conseguia ajudar com as despesas da casa, porque abuela dizia que aquilo era responsabilidade dela e de meus pais, a revista pagava meu plano de saúde e meu último problema financeiro foi quando quis estudar na PUC, mas a mensalidade ultrapassava demais nosso orçamento, então me matei de estudar e consegui uma bolsa de 85%. Meus gastos eram apenas comigo, eu até tentava ajudar, informalmente, em casa. Comprava as coisas que gostava de comer, para todos, itens de decoração, cama, mesa e banho, que vivíamos renovando e eletrodomésticos, quando era necessário. Mas em geral, não havia uma despesa fixa com que me preocupasse, dentro de casa, apenas minhas compras mensais de farmácia e outras coisas pessoais, por exemplo. Desde que comecei a trabalhar, sempre juntei uma boa parte do meu salário. Foi assim que comprei um carro bom, mesmo que usado, e planejava financiar meu próprio apartamento, quando meus pais voltassem para casa de vez, o que estava programado para acontecer em no máximo 3 anos. Já tinha até mesmo uma parte do meu enxoval comprado, vinha o fazendo aos poucos há alguns meses. Eu também ajudava no projeto de caridade que minha avó fazia trabalho voluntário e estava sempre de olho se algum amigo ou conhecido estava passando necessidade ou precisando de algo, eu adorava ajudar o próximo e me sentia útil o fazendo. Eu dei voltas e voltas, contei a história da minha família inteira, tudo isso para chegar em uma única conclusão: sei que tenho milhares de privilégios, reconheço que vivo em uma situação muito melhor do que a maioria da população. Mas não sou rica, nunca me considerei assim, não esbanjo, não tenho dinheiro para tudo que quero e nunca tive tudo que quis. Sempre soube muito bem dos meus limites, financeiros ou não. Não sou a garota de classe média/ classe média alta que se ilude achando que é rica, não mesmo. Ralei para entrar na faculdade e sei que é até injusto reclamar, porque muita gente teve que fazer 10 vezes pior que eu, e o esforço não foi nem só para estudar, mas para ter o que comer no fim do dia. Então detestava que me chamassem de fútil, porque eu sabia que isso era uma falácia, mas também sabia que se alguém me olhasse, sem me conhecer, e ouvisse aquilo da boca de alguém, iria acreditar. Ainda assim, mesmo me corroendo por dentro, não ficava me esforçando para mostrar quem eu sou de verdade, para todo mundo. Gostava de preservar minha imagem e meu acalento para quem realmente gostava de mim, e foi assim que consegui mudar a perspectiva de vários funcionários da revista, que hoje são amigos queridos. Ainda assim, o posto de melhor amiga anda vazio há um bom tempo, desde o fim da faculdade. Porém, deixando a falação de lado, porque eu tinha mais o que fazer, dentro da revista. Eu e Thales fizemos nosso trabalho com certa rapidez e quando voltamos para o Jardim Botânico, perto da hora do almoço, parecia que estávamos em um ambiente completamente diferente. Ao mesmo tempo que cada paulistano parecia carregar sua própria nuvem de chuva, no topo da cabeça, o que eu apelidei carinhosamente de “Sampalismo: Doença da Selva de Pedra”, todos já pareciam familiarizados com o ambiente e seus colegas de trabalho, mesmo que ainda fosse gritante a diferença entre as duas diferentes redações, justamente pelo jeito mais sério, profissional e apressado com que eles andavam para lá e para cá. Isso era visível até no jeito de se vestir, mas eu não entraria muito nesse tópico, se não acabaria sendo hipócrita, já que eu vestia preto e meu adjacente paulista, Nicolas, usava uma blusa da cor do oceano e calças claras. Eu reparei, ok? Não tinha nem como ignorar. —O que eu perdi? — questionei Karina, nossa secretária/faz tudo e uma das amigas mais próximas que eu tinha aqui dentro. —Estão todos se dando bem. Até marcamos um Happy Hour, com alguns dos paulistas que fomos com a cara. —Com marcamos, você quer dizer nossa panelinha ou a redação inteira? —Nossa panelinha, claro. —Mas hoje? Em plena quarta? —Amanhã é feriado, criatura. Dia da Consciência n***a. —Amanhã já é 20 de novembro? Estou perdida com datas, achei que hoje fosse dia 17, ainda. Mas já que não trabalhamos amanhã, então eu vou! —Ótimo, Ryan também vai— franzi o cenho, encarando a pele escura e hidratada de Ka, fingindo não entender. Preferi fugir do assunto: —Já está no dia de montar a árvore de Natal? —Ta doida, garota? Muito muito cedo, perturbada. Acho que é no dia 28 de novembro, que monta. E não tente fugir de assunto, o que está rolando entre você e meu primo? PS: eles não eram primos de verdade, mas tinham uma leve semelhança entre si, já que ambos tinham o formato do rosto, principalmente dos olhos puxados e do maxilar, extremamente parecido, além de tudo eram negros de pele não retinta, com tons de pele muito similares, de cabelos escuros com alguns fios naturalmente mais claros e olhos da cor de mel, quase verdes. Quando notaram a semelhança que tinham, começaram a se tratar assim, na brincadeira, e acabou que todos nós pegamos e nos acostumamos com a brincadeira que eles criaram. E sim, aqui nós levávamos essa coisa de semelhança a sério, tanto que Nicolas já virou Maluma, para nós. —Não tá rolando absolutamente nada, só continuo dando aquelas aulas de inglês que ele me pediu. —Hum, então você está mostrando uma nova língua, para ele? —É, tipo isso— fingi não notar a malícia, mais uma vez. —Te conheço, Pipa. Tu não me engana, depois vai me contar tudo. —Não é nada sério, estamos apenas curtindo a química que temos— pisquei um olho, me afastando de sua mesa. —É óbvio que vocês têm química, eu já avisei faz tempo. Você que é lerda e demorou para perceber! — ela respondeu alto, mas eu já estava de costas.
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