Medo do escuro

1324 Words
Transilvânia, 1744 O medo nunca se apresentou a Eleno Montreal de forma simples. Ele não tremia diante da escuridão como os outros homens da vila. Não evitava caminhar sozinho à noite, nem sentia o coração acelerar ao ouvir histórias sussurradas sobre criaturas que se escondiam entre árvores antigas. Ainda assim, havia algo que o inquietava — não o escuro em si, mas o que ele despertava dentro dele. Na véspera da grande caçada, Eleno não conseguiu dormir. O vento batia contra as janelas do quarto como dedos impacientes. A casa, normalmente silenciosa, parecia estalar sob o próprio peso, como se respondesse a uma presença invisível. Eleno permaneceu deitado, os olhos abertos, encarando o teto de madeira escura. Sentia-se observado. Não por algo maligno — essa era a parte mais perturbadora — mas por algo atento. Consciente. Levantou-se antes do amanhecer, vestiu-se em silêncio e saiu da casa sem anunciar sua presença. O céu ainda estava pesado, tingido de um azul profundo que antecedia o dia. Ele caminhou em direção à floresta, como fazia desde jovem, ignorando o frio que mordia sua pele. Os limites da propriedade eram claros. Havia uma cerca baixa, mais simbólica do que funcional, marcando onde o mundo humano terminava e o desconhecido começava. Eleno parou ali, como sempre. Mas, naquela manhã, algo era diferente. A floresta parecia mais próxima. Não fisicamente — as árvores estavam onde sempre estiveram — mas havia uma sensação estranha de acolhimento. Como se o espaço entre os troncos respirasse junto com ele. Eleno deu um passo à frente. O coração não disparou. O corpo não recuou. Era como atravessar uma linha invisível que sempre esteve ali. O som mudou imediatamente. O vento parecia mais abafado, os pássaros mais atentos. Cada passo ecoava de forma diferente, como se o chão reconhecesse seu peso. Ele caminhou alguns metros para dentro da floresta antes de parar. — Eu sei que não estou sozinho — disse em voz baixa. As palavras não eram um desafio. Eram uma constatação. Nada respondeu. Ainda assim, Eleno teve certeza de que fora ouvido. Um arrepio percorreu sua espinha, não de medo, mas de antecipação. Como se estivesse à beira de algo que não compreendia, mas que sempre fez parte de seu destino. Voltou antes que o sol surgisse por completo. Sabia que Adrien não aprovaria aquela incursão solitária. O pai tolerava a curiosidade, mas não aceitava imprudência — e atravessar a floresta sem armas era algo que ele classificaria como fraqueza. Durante o café da manhã, Adrien observou o filho com mais atenção do que o habitual. — Você não dormiu — afirmou. — Não senti necessidade — respondeu Eleno. O pai franziu o cenho, mas não insistiu. A vila estava em alvoroço. Homens se reuniam, afiavam lâminas, verificavam rifles. Alguns demonstravam excitação; outros, nervosismo disfarçado de bravura. Histórias circulavam de boca em boca, cada uma mais exagerada que a anterior. — Dizem que não sangram como nós — comentou um dos caçadores. — Dizem que andam entre nós durante o dia — respondeu outro. — Dizem que seduzem antes de matar. Eleno ouviu tudo em silêncio. A palavra seduzem ficou ecoando em sua mente de forma desconfortável. Não pelo medo, mas pela estranha familiaridade que despertou. Ele não sabia explicar por quê. Antes do pôr do sol, a igreja enviou um representante. Um homem alto, de vestes escuras, olhar duro e voz calculada. Não se apresentou pelo nome — apenas pela função. — A fé caminhará com vocês esta noite — disse. — Onde a escuridão cresce, a luz deve acompanhar. Eleno sentiu um incômodo imediato. Havia algo naquele homem que não lhe agradava. Não era hostilidade direta, mas rigidez demais. Como se ele enxergasse o mundo apenas em linhas retas, incapaz de aceitar nuances. Quando o olhar do representante da igreja cruzou com o seu, Eleno sentiu um peso no peito. Não era reconhecimento — era avaliação. Como se estivesse sendo medido. — Você — disse o homem, apontando para Eleno. — Qual seu nome? — Eleno Montreal. Um brilho sutil passou pelos olhos do inquisidor. — Montreal… — repetiu. — Um nome respeitável. Adrien colocou a mão no ombro do filho, gesto raro. — Ele lidera comigo — informou. O homem assentiu lentamente. — Então rezarei por você — disse, mas não soou como uma bênção. Quando a noite caiu, tochas foram acesas e o grupo partiu. O cheiro de fumaça misturava-se ao de terra úmida. A floresta os recebeu em silêncio absoluto, como se prendesse a respiração. Cada passo adiante parecia afastar Eleno de tudo que conhecia. O caminho se tornava mais estreito, mais escuro. As árvores fechavam-se ao redor deles, e o som das próprias respirações parecia alto demais. Alguns homens murmuravam orações. Outros mantinham os olhos fixos à frente. Eleno sentia algo pulsar sob a pele. Não era medo. Era chamado. Em determinado ponto, o grupo se dividiu. Adrien seguiu com parte dos homens para o norte. Eleno ficou com outro grupo, acompanhado pelo representante da igreja. — Não se afaste — ordenou o homem. Eleno assentiu, mas algo dentro dele já havia se afastado há muito tempo. O silêncio se tornou opressor. Então, de repente, tudo parou. As tochas tremularam. O vento cessou. Eleno sentiu o mundo prender o fôlego. Foi então que ouviu um sussurro, tão próximo que parecia roçar seu ouvido. — Finalmente… O corpo inteiro enrijeceu. Ele girou, arma em punho, mas não havia ninguém atrás dele. A floresta, porém, não estava mais vazia. Eleno compreendeu, naquele instante, que o medo que sempre evitara não era do escuro. O grupo se dividiu sem cerimônia. Adrien seguiu para o norte com metade dos homens. Eleno permaneceu com os demais, acompanhado pelo representante da igreja. As tochas lançavam sombras irregulares entre os troncos, distorcendo rostos e criando formas que pareciam se mover por conta própria. — Não se afaste — ordenou o inquisidor. Eleno assentiu, mas o aviso soou tardio. Algo dentro dele já havia atravessado uma fronteira invisível. Caminharam por mais alguns minutos quando o primeiro sinal surgiu. O vento cessou de forma abrupta. As tochas vacilaram, como se o ar ao redor tivesse se tornado denso demais para alimentá-las. Um dos homens engoliu em seco. Outro fez o sinal da cruz. Eleno sentiu. Não ouviu. Não viu. Sentiu. Era como uma pressão suave atrás dos olhos. Um arrepio que não vinha do frio, mas de um reconhecimento profundo e inexplicável. Seu coração desacelerou, e isso o aterrorizou mais do que se estivesse disparado. — Algo está errado — murmurou um dos caçadores. O inquisidor ergueu a mão, exigindo silêncio. Foi então que Eleno ouviu. Um sussurro baixo, íntimo demais para ser confundido com o vento. — Eleno… Seu nome. Não dito em ameaça. Nem em fúria. Mas em posse. O mundo pareceu se estreitar ao redor dele. Eleno girou bruscamente, arma em punho, o coração agora martelando no peito. — Quem está aí?! — exigiu. Nada respondeu. Os homens se entreolharam, confusos. — Você ouviu alguma coisa? — perguntou um deles. Eleno abriu a boca para negar — e então congelou. Entre as árvores, onde a luz das tochas não alcançava, algo se moveu. Não foi rápido. Não foi brusco. Foi deliberado. Uma silhueta desprendeu-se da escuridão como se sempre tivesse feito parte dela. Alta. Imóvel. Observando. Os olhos brilharam por um instante — não como os de um animal, mas com consciência. O inquisidor deu um passo atrás. — Não… — murmurou. — Ainda não… Tarde demais. A presença avançou um passo. Eleno sentiu o corpo reagir sem comando. As pernas fraquejaram. O ar pareceu rarefeito. Cada instinto gritava para correr — mas algo mais forte o mantinha ali, enraizado. O medo finalmente chegou. Não do escuro. Mas do desejo inexplicável de não fugir. A última coisa que Eleno Montreal viu naquela noite foi o sorriso lento surgindo no rosto da criatura — um sorriso que prometia eternidade ou ruína. Talvez ambos.
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