O Primeiro Erro
A fome voltou antes do esperado.
Não veio como um grito, nem como uma dor lancinante. Veio como um pensamento persistente, um incômodo atrás dos olhos, uma pressão silenciosa no fundo da garganta. Eleno despertou naquela noite com a certeza amarga de que algo estava errado.
O sangue do seu criador ainda circulava em suas veias. Ele sentia. Sentia o eco, o calor antigo, a presença que não desaparecia. O vínculo não se rompia com o sono — ele apenas adormecia.
E isso o aterrorizava.
Levantou-se da cama improvisada na cabana, caminhando até a pequena janela. A lua estava alta, branca demais, como um olho atento. A floresta permanecia quieta, mas ele sabia: não era silêncio, era expectativa.
— Isso não devia estar acontecendo — murmurou.
O vampiro ainda não havia despertado. Dormia como uma estátua esculpida na própria sombra, imóvel, perfeito, distante. Eleno o observou por um instante mais longo do que gostaria de admitir.
Parte dele queria odiá-lo.
Outra parte… queria compreendê-lo.
Virou-se bruscamente, como se o próprio pensamento fosse pecado.
Saiu da cabana.
A floresta o recebeu como um velho conhecido. Cada cheiro, cada som, cada vibração parecia falar diretamente com seus sentidos. Um coelho correu entre as raízes de uma árvore distante — Eleno sentiu a pulsação minúscula, o sangue frágil.
Não era suficiente.
Isso o assustou mais do que qualquer coisa.
Caminhou sem destino definido, tentando fugir da vila, fugir dos humanos, fugir de si mesmo. Mas a fome tinha vontade própria. Ela o conduzia.
Quando percebeu, estava perto demais.
A primeira casa surgiu entre as árvores como uma afronta. Uma pequena construção de madeira, isolada das demais. Luz fraca saía por uma janela. Um cheiro específico dominava o ar.
Sangue jovem.
Assustado.
Doente.
Eleno parou abruptamente.
— Não… — sussurrou.
O vampiro apareceu atrás dele como se tivesse sido invocado.
— Você sente, não sente? — disse calmamente.
— Não é seguro.
— Nada é seguro para nós.
Eleno virou-se, os olhos brilhando em vermelho contido.
— Há alguém ali dentro.
— Sempre há alguém em algum lugar.
O vampiro se aproximou da casa, avaliando.
— Uma criança — disse, indiferente. — Febril. Provavelmente não sobreviverá ao inverno.
O estômago de Eleno se revirou.
— Não diga isso como se fosse irrelevante!
O vampiro o encarou com curiosidade fria.
— A morte humana sempre é irrelevante. Você só ainda não aceitou.
Eleno avançou um passo, o corpo tremendo.
— Eu aceito a fome, aceito o que sou. Mas não isso.
— Você precisa se alimentar — respondeu o vampiro. — O vínculo não durará para sempre. Meu sangue não é uma solução eterna.
— Então me deixe enfraquecer.
— Não.
A palavra caiu como uma ordem absoluta.
— Eu não vou permitir que você se destrua por uma moralidade morta.
Eleno fechou os punhos.
— Essa “moralidade” é tudo o que ainda me resta.
O choro ecoou da casa.
Foi baixo, Fraco, mas suficiente.
O som atravessou Eleno como uma lâmina. Seu corpo reagiu antes da mente. As presas pressionaram, a visão escureceu por um segundo. Ele deu um passo em direção à porta.
— Eleno — chamou o vampiro, agora mais atento.
Tarde demais.
Ele não lembraria exatamente como atravessou a distância. Só lembraria do ranger da porta, do cheiro intenso, quase insuportável, do calor humano inundando seus sentidos.
A criança estava deitada em uma cama estreita. Um menino. Não devia ter mais de dez anos. O rosto pálido, suado, os olhos semicerrados.
Eleno congelou.
O menino abriu os olhos.
Por um instante, eles se encararam.
— Mãe…? — murmurou a criança.
A palavra atingiu Eleno com violência.
Algo dentro dele quebrou.
Ele se ajoelhou ao lado da cama, tremendo.
— Não… não… — repetia, mais para si mesmo do que para qualquer outro.
O menino respirava com dificuldade. O cheiro do sangue era quase insuportável agora. Eleno sentia cada batida do coração frágil, cada pulso desesperado.
— Vai ficar tudo bem… — disse, sem saber por quê.
Inclinou-se.
Foi o primeiro erro.
O segundo foi fechar os olhos.
Quando sentiu o gosto do sangue, o mundo explodiu.
Não houve êxtase.
Não houve prazer.
Houve pânico.
O sangue era quente demais. Vivo demais. Ele sentiu o coração do menino acelerar, depois falhar. Sentiu a vida escorrer rápido demais.
Eleno recuou abruptamente, cuspindo, ofegante.
— Não! — gritou.
O menino chorava agora, fraco, confuso, vivo… ainda vivo.
Eleno pressionou as mãos contra a própria boca, horrorizado.
— Eu… eu não…
O vampiro surgiu na porta.
O olhar que lançou não foi de raiva. Foi de avaliação.
— Pare — ordenou.
Eleno obedeceu.
O vampiro aproximou-se da cama, tocou o pulso da criança.
— Você não o matou — disse. — Mas chegou perto demais.
Eleno caiu para trás, sentando-se no chão.
— Eu errei.
— Sim.
— Eu quase o matei.
— Sim.
— Eu prometi…
O vampiro virou-se para ele.
— Promessas humanas não sobrevivem à eternidade.
Eleno ergueu o olhar, as lágrimas queimando, inúteis.
— Então eu não sobrevivo a ela.
O vampiro o observou longamente.
— Se continuar assim, não.
Houve silêncio.
O vampiro afastou-se da criança e fez algo inesperado: cortou o próprio pulso novamente e deixou algumas gotas caírem nos lábios do menino.
O garoto relaxou, a respiração estabilizando.
— Ele vai viver — disse o vampiro. — Não se lembrará de nada.
Eleno encarou a cena, chocado.
— Por quê?
— Porque você ainda não está perdido — respondeu. — E porque, apesar de tudo, você tentou parar.
Eleno levantou-se com dificuldade.
— Eu não posso continuar.
— Pode — corrigiu o vampiro. — Mas não do jeito que imagina.
Eleno balançou a cabeça.
— Se eu ficar… alguém vai morrer. Hoje foi uma criança. Amanhã pode ser pior.
O vampiro se aproximou, ficando muito próximo.
— Fugir não apagará o que você é.
— Mas pode impedir o que eu vou me tornar.
O vampiro sustentou o olhar por um longo momento.
Então sorriu.
— Você sempre foi teimoso.
— É o que me mantém… eu.
O vampiro deu um passo atrás.
— Se fugir, não terá minha proteção. Nem meu sangue.
— Eu sei.
— Estará sozinho.
— Eu já estou.
O silêncio caiu entre eles como um acordo não verbalizado.
O vampiro inclinou a cabeça.
— Então vá — disse. — Antes que eu mude de ideia.
Eleno não esperou outra palavra.
Saiu da casa, atravessou a floresta, correu sem direção, sem plano, sem certeza. Só sabia de uma coisa:
Ele não podia mais ficar.
E enquanto corria, sentia o vínculo de sangue pulsar, enfraquecendo, como um fio prestes a se romper.
A fuga havia começado.