Transilvânia, 1732
Eleno Montreal aprendeu cedo que o silêncio era uma forma de linguagem.
Naquela casa, palavras eram medidas, gestos eram contidos e sentimentos raramente ultrapassavam o limite do aceitável. O silêncio não significava paz — significava vigilância. As paredes de pedra guardavam histórias que não eram contadas em voz alta, e os retratos antigos pendurados nos corredores observavam cada passo como juízes imortais.
O nome Montreal não era apenas um sobrenome.
Era uma herança pesada.
Uma exigência constante.
Desde o nascimento, Eleno fora destinado a continuar uma linhagem de homens respeitados e temidos.
Caçadores.
Proprietários de terras.
Defensores da ordem contra tudo aquilo que se escondia na noite. Seu pai, Adrien Montreal, nunca precisou dizer isso em voz alta — o mundo já parecia saber.
Adrien era um homem rígido, moldado pela tradição e pela certeza de que dúvidas enfraqueciam o espírito. Para ele, um filho não precisava de carinho, mas de direção. E Eleno recebeu essa direção desde cedo, ainda que nunca tivesse certeza de estar seguindo o caminho correto.
A mãe, Marguerite, tentava oferecer equilíbrio. Seus gestos eram suaves, seus olhares atentos. Mas até mesmo o amor dela precisava existir dentro dos limites impostos pelo nome da família. Nada era exagerado. Nada era entregue por completo.
Quando Eleno tinha sete anos, o pai o levou até a borda da floresta pela primeira vez.
— Observe — disse, apontando para o escuro entre as árvores. — A floresta nunca está vazia.
Eleno sentiu naquele instante algo que não soube explicar. Não era medo. Era consciência. Como se aquele espaço vivo respirasse de forma diferente do mundo que ele conhecia.
— Um Montreal não teme — continuou Adrien. — Mas aprende a reconhecer sinais.
Eleno assentiu.
À noite, passou a sonhar com a floresta. Caminhava entre árvores altas demais, envoltas por um silêncio que parecia observar cada passo. Nunca havia perseguição, nunca havia rostos. Apenas a certeza de que algo o via — e o reconhecia.
Com o passar dos anos, Eleno cresceu obediente, disciplinado e silencioso. Aprendeu a montar, a manusear armas, a rastrear animais. Cumpria ordens com precisão, mas sem entusiasmo. Enquanto outros jovens se orgulhavam das primeiras caçadas, ele sentia apenas um incômodo difícil de nomear.
Aos doze anos, matou seu primeiro animal.
O disparo foi limpo. O cervo caiu sem sofrimento prolongado. Ainda assim, Eleno sentiu um peso estranho ao se aproximar do corpo. Não era culpa — era distância. Como se aquela morte não lhe pertencesse.
— Você se acostuma — disseram-lhe.
Mas ele não se acostumou.
A igreja reforçava a ideia de que o mundo estava dividido entre luz e escuridão. Padres falavam de criaturas que se alimentavam do sangue humano, de tentações noturnas, de almas condenadas. Eleno ouvia tudo com atenção, mas sentia que havia algo incoerente no medo excessivo.
Não acreditava que o m*l fosse tão simples.
Na adolescência, começaram os primeiros comentários. Diziam que Eleno era sério demais, introspectivo demais, frio demais. Alguns homens da vila afirmavam que seus olhos pareciam antigos, como se carregassem algo que não condizia com sua idade.
Eleno apenas observava.
Ele não se sentia incompleto.
Apenas deslocado.
Às vezes caminhava sozinho até os limites da propriedade, encarando a floresta como quem espera uma resposta. Nessas noites, o silêncio não era vazio — era denso, quase palpável.
E, sem saber como, Eleno compreendia que aquele lugar guardava seu destino.