O Peso da Eternidade
O tempo deixou de ser algo mensurável.
Para Eleno, os anos não passavam — eles se acumulavam.
No início, ele ainda contava. Marcava mentalmente os invernos, as mudanças de idioma, as guerras que surgiam como tempestades e desapareciam deixando rastros de ossos e ruínas. Depois, até isso perdeu o sentido. O mundo mudava rápido demais para alguém que permanecia igual.
A eternidade não era grandiosa como os poetas prometiam.
Era silenciosa.
Repetitiva.
Pesada.
Eleno aprendeu a observar sem pertencer.
Cidades cresciam onde antes havia campos. Igrejas eram erguidas sobre antigas crenças, apenas para serem substituídas por outras novas. Reis morriam. Impérios ruíam. Ideias mudavam de nome, mas nunca de essência.
Os humanos continuavam os mesmos: frágeis, apaixonados, violentos, belos.
Ele os via amar com uma intensidade desesperada, como se soubessem — mesmo sem saber — que o tempo lhes era curto. Via homens se entregarem a outros homens às escondidas, com medo, culpa e desejo. Via mulheres lutarem contra papéis impostos. Via crianças crescerem rápido demais.
E ele… permanecia.
Sempre à margem.
Houve épocas em que tentou se misturar. Vestia-se conforme a moda local, aprendia sotaques, nomes novos. Trabalhou como copista, como negociante noturno, como investidor silencioso. Sempre desaparecendo antes que alguém percebesse que ele não envelhecia.
Alguns notaram.
Sempre notavam.
— Você não mudou nada… — diziam, em sussurros desconfiados.
Eleno sorria, se afastava, partia outra vez.
Não criava laços profundos. Não permitia. O amor humano era breve demais. E ele já carregava culpa suficiente.
A fome, embora controlada, nunca o abandonou por completo.
Havia noites em que o cheiro de sangue humano o fazia parar no meio da rua, os dedos crispando, o corpo tenso como uma corda prestes a se romper. Nessas noites, ele fugia. Sempre fugia.
A floresta tornara-se sua aliada. Animais grandes, isolados, raros. Nunca caçava mais do que o necessário. Nunca com prazer. Nunca sem lembrar do menino.
O rosto da criança surgia sempre que a tentação crescia.
Era seu freio.
Sua penitência.
Sua promessa.
Mas havia outro peso — mais sutil, mais c***l.
A solidão.
Eleno não era feito para a eternidade solitária. Nunca fora. Antes mesmo da transmutação, já carregava em si uma sensibilidade que não se encaixava no mundo rígido dos homens. Gostava de ouvir.
De observar.
De tocar com cuidado.
Amar, para ele, nunca fora posse.
Era entrega.
E isso tornava tudo mais difícil.
Em uma noite particularmente silenciosa, em Paris — já muito depois de ter deixado a Transilvânia para trás — Eleno entrou em um salão onde homens se reuniam para beber, rir e fingir normalidade. O ar estava carregado de fumaça e desejo contido.
Ele observava.
Sempre observava.
Dois homens se tocaram discretamente sob a mesa. Um gesto rápido, quase imperceptível. Um sorriso contido. Um risco enorme.
Eleno sentiu algo antigo se mover dentro dele.
Não fome.
Reconhecimento.
Saiu antes que fosse tarde demais.
Caminhou pelas ruas molhadas, os passos ecoando. A cidade dormia parcialmente, mas ainda pulsava. Ele parou diante do rio e olhou seu reflexo distorcido na água escura.
— Quanto tempo mais…? — murmurou.
A eternidade não respondia.
Houve noites em que pensou em desistir. Não em morrer — vampiros não tinham essa facilidade — mas em parar de resistir. Pensou em aceitar o que era, em caçar humanos, em sentir novamente o poder absoluto que lhe fora oferecido.
Mas sempre voltava à mesma conclusão:
Isso o destruiria.
Não fisicamente.
Mas por dentro.
O vampiro que o criara surgia ocasionalmente em seus pensamentos como uma sombra antiga. Eleno nunca o procurou. Nunca tentou saber se ainda existia. Parte dele temia encontrá-lo… e parte temia desejar isso.
A dependência havia deixado marcas.
Com o passar das décadas, Eleno se tornou mais silencioso. Mais contido. O desejo não desapareceu — apenas se recolheu. Ele aprendera a viver com ele como se vive com uma dor antiga: constante, mas administrável.
Até que algo mudou.
Não foi um grande evento. Não houve presságio. Apenas uma sensação estranha, uma inquietação que ele não sentia há séculos.
Como se algo — ou alguém — estivesse se aproximando.
Eleno tentou ignorar.
Continuou sua rotina de sombras, noites e distâncias. Mas o sentimento persistia. Um fio invisível puxando sua atenção para frente, para um futuro que ele jamais ousara imaginar.
Em uma noite comum, entrou em um bar qualquer, em uma cidade qualquer. Não buscava nada. Não esperava nada.
Sentou-se em um canto escuro, pediu uma bebida que não beberia, e observou.
Foi então que sentiu.
Um olhar.
Não carregado de medo.
Nem de desconfiança.
Nem de desejo desesperado.
Curiosidade.
Humana.
Aberta.
Desarmada.
Eleno ergueu os olhos.
Do outro lado do salão, um jovem o observava sem saber por quê. Havia algo nele — algo que não gritava, não exigia, não fugia.
Algo que reconhecia.
O peso da eternidade pareceu, pela primeira vez, diminuir.
Eleno desviou o olhar rapidamente, o coração imóvel, mas o mundo em desalinho.
Ainda não.
Ainda não era o momento.
Mas pela primeira vez em séculos, ele pensou:
Talvez a eternidade não precise ser vivida sozinho.
E a noite, cúmplice silenciosa, sorriu.
O jovem ainda observava Eleno, e não sabe se onde vem essa fixação em olha-lo.
Observa a postura, o jeito que Eleno anda, a linguagem corporal, os longos cabelos escuros caindo em cascata pelos ombros e chegando até a cintura.
Nunca havia visto uma beleza tão grande assim em um homem.
O jovem que o observa nota a pele lisa sem nenhuma marca de barba.
Num movimento automático passa a mão em seu próprio rosto e ainda observando o outro sorri.
Acredita que podem ser os únicos numa soma de muitos homens barbudos.
O que o encanta são os olhos do outro de um azul surreal, até mais bonito que a cor do céu.
Eleno também observa o jovem que não consegue desviar o olhar dele.
Será que imagina o monstro que se tornou há vários séculos?
Não quer mais passar a eternidade sozinho, porém não quer afastar a possibilidade de talvez viver um romance no presente.