Oscar foi rápido no movimento para apoiar o corpo da moça, e ouviu a voz de Zaíra atrás dele.
-- Ela está bem, ou, vai ficar. Você tem perguntas e ela tem mais, leve ela para o hotel, e me encontrem para o café da manhã, ela dormirá o restante da noite.
-- Mas eu não conheço você, como vou ter certeza?
-- Vocês vieram me procurar, eu sabia que este dia chegaria, você aqui por exemplo é uma surpresa. Mas falamos disso amanhã, eu tenho trabalho a fazer e vocês estão cansados da viagem. Meu motorista vai levá-los e cuidarei do seu belo carro.
-- Agradeço, mas não fiz reserva no seu hotel.
-- Sempre haverá lá um quarto para ela, é bom ver ela por aqui.
-- Ela não é quem você pensa…
-- É. Ela não é quem você pensa, mas esclareço mais sobre isso, amanhã.
Ele foi dispensado como se fosse mais um funcionário, internamente sorriu do gesto dela, não estava acostumado a ser tratado como um simples mortal, normalmente era o contrário, mas não conseguiu fugir ao magnetismo dela. Zaíra era sem dúvida uma mulher interessante.
Agora ele tinha nos braços uma mulher adormecida, estava calmo pois via que ela ainda respirava. Não precisou se registrar no hotel, quando o carro parou já havia um concierge com uma cadeira de rodas os esperando, foram conduzidos ao elevador e diretamente para os quartos. O quarto reservado a Samantha era enorme, provavelmente um dos melhores quartos do local, o dele ficava ao lado, mas ainda assim insistia em ficar com ela até que acordasse.
Se acomodou em uma cadeira próxima depois de a depositar na cama e cobrir com um leve manto, olhou para o lado por algo interessante, preferia não ligar a tv, não achando nada interessante para ler, se voltou para as anotações que tinha em sua bolsa, queria fazer comparações com as anotações de Samantha mas o bom senso o impedia de abrir a bolsa dela, então fez o que a maioria das pessoas fazem e foi pesquizar mais na internet, mas não se acha informações sobre bruxas na rede, não informações reais que fogem da ficção, tudo o que conseguiu levantar era que a família de Zaira, era antiga na cidade e ela mesmo era herdeira das três propriedades já a muitos anos.
Não tinha informações sobre a sua vida pessoal, pouca coisa sobre suas finanças e como funcionava os seus negócios. No ramo dele, pouca informação sobre uma pessoa, queria dizer que ela tinha muito o que esconder, enviou mensagens para o seu escritório, solicitando que o seu investigador pessoal fosse localizado e entrasse em contato imediato.
Ainda lhe era intrigante a reação de Samantha, ela ser chamada com frequência de Fernanda, lhe dizia que ela era muito semelhante a falecida, estranho era uma mulher que se dizia bruxa e vidente insistir que esta falando com Fernanda, até mesmo por que a cronologia dizia que se fosse Fernanda ela deveria ter mais anos do que aparentava. A mulher que dormia tranquila ali na sua frente era muito jovem, e dormia inocente, como se não tivesse mais preocupações, ou assim ele pensou até perceber que ela balbuciava entre dentes, palavras que ele não conseguia compreender, certo de que era um pesadelo, tocou em seus ombros, a pele ardia, ela tinha febre.
Buscou pelo telefone interno, para pedir auxílio ou um termômetro para aferir corretamente a sua temperatura, mas antes de ligar para a recepção do hotel ouviu batidas na porta e foi atender. Quando abriu a porta o mesmo concierge que os havia recepcionado estava à porta com um carrinho onde trazia as refeições e tudo o que ele iria solicitar para a febre, junto um bilhete, ele deixou que o jovem entrasse e preparasse a mesa, enquanto lia a mensagem rabiscada em fina grafia.
“Ela tem febre, acorde-a e a faça tomar um banho, depois a alimente e tome a medicação, chego em breve. - Z”
Seguindo as orientações ele se pôs ao lado da cama e tocou o ombro de Samantha novamente, ela resmungou como uma criança mimada mas não se mexeu, cedendo a um estalo criativo ele a chamou de Fernanda, pedindo que acordasse, pois precisava de um banho, chamou de forma suave falando bem próximo ao seu rosto, tanto que foi possível ver o resto responder ao chamado e os olhos violetas brilharem para ele. Ele se assustou, tinha certeza que os olhos de Samantha não eram violetas, até mesmo porque nunca tinha visto olhos desta cor em sua vida.
Ela voltou a dormir, e ele deixou por um tempo, precisava se refazer do susto os olhos violetas dela estavam gravados em sua mente, ele a observava de longe, e quando percebeu que ela estava desperta, se aproximou.
-- Este quarto não muda nunca.
Foi a primeira coisa que ela falou, o que causou nova estranheza.
-- Você já esteve aqui antes?
Ela olhou para ele, como se olhasse para um alienígena bêbado.
-- Esta é a primeira vez que venho tão longe de casa. Nunca estive aqui.
-- Desculpe, mas você disse que “este quarto não muda nunca”
-- Disse?
-- Eu não me lembro, poderia estar sonhando ainda. - Ela estava se afastando um pouco da proximidade que tinha, pois dava para sentir o hálito de Oscar que estava muito próximo ao seu rosto.
-- Eu posso saber o que está acontecendo com você? Por que está tão próximo?
-- Eu queria ver a cor dos seus olhos. São violeta?
-- Não mesmo. São verdes.
-- Sempre foram? Lentes talvez?
-- Eu nunca usei lentes, uso óculos ocasionalmente, mas nunca lentes. O que está acontecendo?
-- A pouco, enquanto você dormia, seus olhos mudaram de cor, foi muito estranho.
-- Estranho é você perto demais a ponto de ver meus olhos mudando de cor.
-- Ah isso? Bem eu recebi instruções para te acordar e fazer você tomar banho e beber esta sopa. Mas confesso, não sabia o que fazer quando vi seus olhos, então eu deixei você voltar a dormir, já é tarde pensei que você seguiria o restante da noite dormindo.
-- Queria, mas perdi o sono, estou mesmo me sentindo estranha e cansada, vou tomar um banho. Espero que a sopa continue quente até eu voltar. Estará, pedirei que esquentem.
Ele fez exatamente o que falou que faria, solicitou que retirassem a sopa e aquecesse para ela, mas a equipe do hotel era eficiente e atendia a ordens superiores, apareceram minutos depois com todo o serviço trocado e sopa para dois, acompanhando uma garrafa de vinho.
-- A madame espera que a Sra. Torres esteja melhor.
-- Senhora Torres?
-- Sim ela disse que não quer causar confusão.
Os dois tomaram a sopa, surpreendidos com os cuidados do local, ou para ser mais específicos, com os cuidados de Zaíra. Como ainda estava escuro ela se permitiu voltar para a cama e quando Oscar fez menção de sair do quarto ela pediu que ele ficasse.
Ele se permitiu ficar ali sentado na cadeira até que o sono tomasse novamente conta dela, não demorou muito, ele se perguntava quando foi a última vez que esteve trancado em um quarto com uma mulher e nada ter acontecido entre eles, cada parte do seu corpo pulsava por ela, e sabia que ela não era indiferente a ele, sem esquecer que ela sabia provocar e ser sexy sem muito esforço, o que tinha irritado a sua co-piloto. Em qualquer outro momento estaria em um quarto com a garota, mas com Samantha ali, ele só pensava no que mais poderia fazer, para ser uma presença constante na vida dela. Levantou-se silenciosamente e foi para o seu próprio quarto finalmente, não sem antes se certificar que a febre repentina havia passado.
Samantha não teve o resto da noite de sono como esperava, transitou entre sonhos estranhos e sensações de déjà vu em muitas situações. Ainda assim, quando acordou, se sentiu renovada, após um banho relaxante em baixo da ducha com jatos fortes. Ao sair do banheiro, encontrou sobre a cama várias sacolas com roupas de uma loja famosa na cidade, junto havia um bilhete.
“Eu sei que você pensou que seria uma viagem rápida, por favor aceite e escolha a peça que irá melhor te agradar. - O.”
Ela sorriu com o gesto e delicadeza dele se preocupar com o bem estar dela, certamente notou o desconforto dela ao dizer para a Stella, que não tinha levado bagagens. Ele foi atencioso, pensou em todo o conjunto de roupas para uma mulher, certamente conhecia muito das necessidades de uma mulher, escolheu por um vestido florido e fresco para iniciar o dia, o tom combinava com a pele, estava calor, preferiu prender o cabelo em um coque alto e estava pegando o telefone, para pedir que o chamassem em seu quarto quando o ouviu sussurrar atrás da porta e dar leves batidas, assim que permitido ele apareceu na porta, vestindo calças cáqui e mocassins, um estilo totalmente casual e despojado para iniciar o dia, a camisa sem gola com os botões iniciais desabotoados o deixavam mais sexy, ela precisou engolir em seco para colocar as idéias no lugar, e focar no por que estava ali.
Ele deu o braço para ela, um gesto cavalheiresco bastante apreciado, e seguiram para o salão, onde o café seria servido, no caminho foram interpelados pelo concierge que os direcionou para uma varanda florida com vistas para um jardim interno.
-- A Madame, encontrará com vocês aqui, fiquem a vontade.