PART IV

1274 Words
-- Estou realmente impressionada com este relato, dona Lúcia, como você sabe tanto, sobre esta história, é bem o tipo de pesquisa que eu vim fazer.  -- Eu só sei, porque eu estava lá, eu vi muito ou tudo acontecer, ninguém presta atenção nos funcionários da casa, é como se fossemos invisíveis, mas nós vemos, ouvimos e sabemos de tudo.  -- Eu não conhecia esta história, dona Lúcia. Porque? Eu administro esta pousada desde que a herdei, já ouvi falar que era assombrada, mas sua história vem com riqueza de detalhes. O que a senhora acha que aconteceu com Fernanda? - Oscar estava fascinado, intrigado com a história e com o fato de sua hóspede ter feito a velha senhora sempre calada falar tanto. -- Isso eu não sei, ninguém sabe. Todos a tem como morta. Por isso o susto tão grande que eu levei, vocês - Disse mais uma vez olhando para Samantha. - Vocês são idênticas, até mesmo os mesmos olhos violetas. Em algum momento da sua vida, alguém já te disse que esses são olhos de bruxas poderosas.  -- Meu avô dizia que meus olhos me davam uma condição especial. Mas eu nunca levei o que ele fala a sério. Nos dias de hoje, todos querem ter um vínculo sobrenatural. Sinceramente não acredito nisso. Eu nunca fiz nada flutuar.  Apenas Samantha e Oscar riram da piada. Dona Lúcia, disse de forma soturna.  -- Não brinquem, vocês não sabem de tudo. Bem eu já descansei, preciso preparar o almoço de vocês.  E se retirou para a cozinha deixando os dois jovens sozinhos.  -- Olhos de bruxa ou não, são lindos.  -- Não são de bruxa, são meus.  Os dois se encaravam presos no olhar um do outro.  -- Me fale mais da sua pesquisa. Por que este casarão no fim do mundo?  -- Porque foi o último pedido do meu avô.  Bem de cumprir desejos antigos ele entendia,  pois só  assim aceitou cuidar da propriedade fazendo poucas mudanças no local. O escritório onde estava era o coração da pousada, todos os hóspedes uma vez ou outra passavam por ali.  Oscar se sentou em sua poltrona confortável e tentou dar início nos afazeres do dia, que consistia em assinar papéis, entre uma assinatura e outra lembrou que tinha visto em seus arquivos o histórico da propriedade e tirando o período que teve que assinar a papelada para assumir a propriedade, nunca mais deu a devida atenção. Até agora.  Se deslocou até a estante e se permitiu vasculhar os livros antigos que tinham sobre a estante.  Sempre voltava à mente a mudança de cores dos olhos de Samantha, dona Lúcia estava certa os olhos violeta dela chamavam muita atenção, mas na noite anterior os olhos não eram daquela cor.  Revisitava a história da casa Torres, vinha de uma longa linhagem e eram proprietários de muitos acres no vale abaixo da montanha onde ficava a casa, e com o passar dos anos as terras foram divididas entre os descendentes e vendida, até sobrar a casa da colina para um parente distante do qual herdou.  Para ele era um hobby transformar a casa em pensão, passava grande parte do ano na propriedade de onde também podia administrar os outros negócios que tinha sob sua tutela.  Estava absorto lendo a árvore genelógica da familia Torres, e curiosamente percebeu que não tinha algumas fotos da Fernanda, uma menina pequena meiga de cabelos negros encaracolados, sempre sorrindo nas fotos com seus olhos claros, mas curiosamente não tinha fotos dela quando adolescente e posteriormente quando adulta.  Tinha em suas uma foto da pequena Fernanda quando deu atenção a duas batidas na porta, viu ela se abrindo e mais uma vez passar por ela a jovem ruiva de olhos claros, mais uma vez enganosamente claros, sorriu para ela de onde estava, sem se levantar da sua posição atrás de vários livros.  -- Oi, eu vim pedir acesso a sua biblioteca e seus livros antigos.  -- Seja bem vinda, eu não sabia que vinha, mas uma curiosidade súbita me fez baixar todos estes livros, pode ser que seja interessante você dar uma olhada.  Ela olhava para a foto que tinha em sua mão. Uma menina com um vestido branco rodado em preto em branco.  -- O que faz com esta foto antiga minha? Me lembro deste dia, retorno da missa de domingo, eu atormentei todos na igreja até que me deixassem sair para comprar algodão doce.  -- Você se lembra deste dia? Aqui data doze de abril de mil novecentos e setenta, você nem tinha nascido, ou você hoje teria sessenta e três anos, o que te torna uma senhora bem conservada. Esta foto é da Fernanda.  -- Fernanda? Como assim?  -- Olha este livro aqui, árvore genealógica e coisas da família Torres, esta foto caiu do álbum e tem várias outras aqui.  Ela se aproximou para ver melhor as fotos e se reconheceu em muitas delas, podia contar fatos detalhados de quando elas foram tiradas, o que causavam espanto e certa curiosidade, uma vez que todas tinham uma data antiga que não condizia com a idade de Samantha atualmente.  -- Eu não consigo entender, alguém deve estar brincando alterando as datas.  -- Se fizermos uma datação, saberemos que os escritos são originais.  -- Então tem algo muito estranho com você, me diga. O que te fez pesquisar a história da casa Torres.  -- Meu avô, ele esteve doente por muito tempo, e perdeu a lucidez, nos raros momentos em que recobrava a memória, sempre pedia para eu voltar para a colina, e revisitar a história da casa. Eu ignorei o quanto pude, mas então ele entrou em crise e veio a falecer, e eu resolvi atender ao seu último pedido.   -- O que ele te contou sobre esta casa?  -- Não muito, ele sempre disse que eu já tinha o conhecimento de tudo, mas precisava voltar e encontrar a história. Bem, eu voltei. E a história de dona Lúcia me fez acreditar que talvez meu avô não esteja delirando, e talvez eu me pareça muito mesmo com esta Fernanda, até eu me confundo com as fotos.  -- Neste caso, vou pegar café e te ajudar nos estudos.  Ele saiu rapidamente pela porta do escritório em busca de café, precisava manter a garota focada, de repente a sua curiosidade pela história da casa e por ela estava aumentando, e isso era muito interessante, ele sempre teve dúvidas, sobre a casa, incluindo a cláusula do testamento que o impedia de vender a propriedade, antes acreditava que havia um tesouro escondido na propriedade, mas agora o mistério parecia maior.  Ele retornou com a bandeja que tinha café e alguns biscoitinhos para que pudessem beliscar enquanto reuniam o material para leitura. Quando entrou na sala viu Samantha já entretida com a leitura do mesmo livro que antes ele tinha manuseado, ela estava absorta e nem percebeu a entrada dele. O que lhe permitiu a oportunidade de discretamente tirar o celular do bolso e fotografá-la, mas quando olhou para a imagem que tinha registrado no aparelho se surpreendeu com o espaço vazio. enquadrado na fotografia, ele olhou novamente para o aparelho e mais uma vez tirou nova foto, desta vez pediu para ela olhar para ele, e mais uma vez, a tela salvou em branco.  -- Você acredita em fatos sobrenaturais?  -- Não muito por que?  -- Por que eu não sei muita coisa. Mas se eu não consigo capturar a sua imagem no telefone, tem algo errado com o aparelho, ou com você. Meu aparelho é novo.  Ele estava mostrando o visor para ela, e ambos estavam arrepiados com os espaços vazios nas duas fotos.
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