O restante do jantar passa como um borrão. Dante é empurrado pelo pai para se sentar ao lado de Alessia e empurro minha comida no prato até que o jantar termine e eu tenha plena autonomia para subir para o meu quarto. É Isabella quem me libera, dizendo que vão fazer negócios e que não devo me importar com isso.
Eu subo, retirando as minhas roupas e me enfiando embaixo dos meus cobertores, deixando as lágrimas caírem. Por que dói tanto? Por que tenho que estar apaixonada por ele? Um homem que não pode ser meu.
Choro até que meus olhos ardam e minha garganta fique seca, exausta pelo peso de uma decepção que eu nem sabia que tinha o direito de sentir. Eventualmente, o cansaço vence a dor e eu acabo dormindo, um sono pesado, povoado por sombras e pela imagem de Dante sorrindo para outra mulher.
Madrugada adentro, sinto o colchão afundar de leve atrás de mim.
O calor familiar invade o espaço gelado sob as cobertas e, logo em seguida, sinto os braços fortes de Dante se enrolando na minha cintura, puxando meu corpo para trás, tentando me colar ao peito dele como fez em todas as últimas noites. O cheiro de uísque e tabaco está impregnado nele, misturado ao seu perfume amadeirado.
A dor no meu peito ressurge com força total, afiada como uma lâmina. Eu me tensiono inteira, segurando as mãos dele sobre o meu ventre para impedi-lo de me apertar.
— Vá embora, por favor — sussurro com a voz rouca, engolindo o choro que ameaça voltar. Tento deslizar para a borda da cama, me afastando do seu toque. — Saia do meu quarto, Dante.
Dante solta um suspiro pesado contra a minha nuca, a respiração quente me causando um arrepio doloroso. Ele não me solta; em vez disso, esconde o rosto nos meus cabelos.
— Ely, me desculpe... — a voz dele sai baixa, arrastada, carregada de um cansaço que parece vir de dentro dos ossos. — Eu juro que não entendo essa situação. Eu fui pego de surpresa tanto quanto você. Meu pai e o Vitali armaram isso pelas minhas costas. Eu já estou resolvendo, mia cara. Por favor, não se afaste de mim.
Suas palavras deveriam me trazer alívio, mas a imagem de Alessia reivindicando-o na mesa de jantar está gravada a ferro na minha mente. A realidade bate na minha cara. Eu sou apenas uma protegida sob custódia; ela é a noiva ideal para o futuro Don.
— Vá embora, Dante. Por favor — repito, dessa vez mais firme, embora meu coração esteja se estraçalhando. Forço meus braços contra os dele, lutando para me libertar. — Eu não posso dormir na mesma cama que um homem comprometido. Isso está errado. Essa... essa porcaria nem deveria ter começado, para início de conversa! Eu fui uma boba de acreditar que...
Antes que eu consiga terminar a frase, Dante perde o resto do controle que tinha.
Com um movimento rápido e bruscamente determinado, ele me vira de frente para ele no colchão. Minhas costas batem contra o lençol e, num piscar de olhos, o corpo dele se projeta sobre o meu, bloqueando qualquer rota de fuga. Uma de suas mãos grandes e pesadas desce direto para a minha cintura, cravando os dedos ali com uma força possessiva que me deixa sem ar, enquanto a outra mão sobe para a minha nuca, espalmando-se firmemente contra os meus fios e me obrigando a encará-lo.
Seus olhos escuros estão dilatados, brilhando com uma intensidade feroz e desesperada sob a penumbra do quarto. O maxilar dele está tão travado que posso ver os músculos de seu rosto saltarem.
— Escute bem o que vou te dizer, Ely — ele dita, a voz barítona saindo num rosnado baixo, perigoso, direto contra os meus lábios. — Eu não vou ser noivo da Alessia. Eu nunca a amei, nunca toquei nela e eu não vou me casar com ela. Eu não dou a mínima para o que o meu pai ou o Conselheiro planejaram. O único casamento que vai acontecer nessa p***a de família é o meu com você.
Pisco os olhos rapidamente, atordoada pela violência das suas palavras e pelo impacto da sua declaração. Meu coração falha uma batida, o estômago dando voltas completas.
— E... por que você está me dando explicações? — pergunto num fio de voz, tentando sustentar o olhar dele, embora sinta minhas defesas desmoronarem diante da proximidade da sua boca. — Eu não sou nada sua, Dante. Você não me deve satisfações.
Dante solta uma risada curta e anasalada, um som sem humor, e a expressão dura em seu rosto se transforma em algo infinitamente mais suave, quase dolorido de tanto sentimento.
— Porque você é uma boba, mia cara — ele sussurra, o polegar da mão que está na minha nuca acariciando a minha bochecha. — Uma boba teimosa que não percebe que eu já sou completamente seu.
Antes que eu possa processar suas palavras ou formular qualquer resposta, Dante diminui o milímetro de distância que nos separava e joga a boca contra a minha.
É um beijo urgente, faminto, carregado com toda a frustração e o desejo reprimido daquela noite maldita. Ele invade minha boca com a língua de forma implacável, e no mesmo segundo, sinto meu corpo inteiro amolecer sob o peso dele. Minhas mãos, que antes tentavam empurrá-lo, sobem involuntariamente para os seus ombros largos, agarrando o tecido de sua camisa enquanto me entrego completamente ao toque do homem que, contra todas as regras do mundo, decidiu que seria meu.