Eu já estava há um mês aqui. Tem sido muito bom, para ser realista. Eles são acolhedores e demonstram gostar de mim de verdade. Em algum momento Dante simplesmente desistiu de ir embora, ficando comigo toda noite, segurando a minha mão e me fazendo sentir protegida. Vez ou outra, acordo em seus braços, ou sozinha.
Nesse período, o quarto dele no fim do corredor virou quase um enfeite. Dante sempre dava um jeito de deitar ao meu lado. Ele não forçava nada, respeitava meus limites com uma paciência que eu nunca imaginei que um Sotto-capo teria, mas a verdade é que meu corpo já ansiava por ele. Eu estava me apaixonando, e fingir o contrário estava se tornando uma tarefa impossível.
Minhas linhas de pensamento são cortadas por duas batidas leves na porta.
— Entre — digo, sentando-me na beirada da cama.
Isabella passa pela porta com o seu habitual andar elegante, mas há um brilho animado e misterioso em seus olhos hoje. Ela caminha até mim e segura minhas mãos com carinho.
— Ely, querida, passei para te dar um aviso importante — ela começa, sorrindo. — Teremos um jantar especial esta noite na mansão. Algumas pessoas importantes e muito próximas da nossa família virão. Quero que você vista um vestido bem bonito, o mais deslumbrante que encontrar naquele armário novo.
Sinto uma pontada instantânea de ansiedade travar meu estômago. Jantar formal? Pessoas importantes da máfia? A lembrança do último jantar na casa do meu irmão, onde fui tratada como um alvo e vendida, passa como um flash doloroso pela minha mente. Engulo em seco, encolhendo os ombros.
— Isabella... eu não me importo de comer no meu quarto, de verdade — murmuro, olhando para os meus próprios dedos. — Se é algo importante da família de vocês, eu posso ficar aqui na ala leste. Não quero atrapalhar ou ser um estorvo.
Isabella para na hora. Sua expressão suaviza e ela aperta minhas mãos com um pouco mais de força, me obrigando a olhar para ela.
— Escute-me, Ely — ela diz, a voz doce, mas firme. — Você não é um estorvo. E este jantar não é apenas "da nossa família". Você é da família agora. Eu faço questão da sua presença ao nosso lado.
Minhas bochechas esquentam e um nó de gratidão aperta minha garganta. Eu apenas assinto, sem saber como agradecer a tanta bondade. Isabella me dá um beijo na testa e sai, me deixando sozinha com a missão de me arrumar.
Como Dante passou o dia inteiro fora da mansão resolvendo negócios do comissariado da Cosa Nostra com o pai, usei todo o meu tempo livre para me concentrar na roupa. Eu queria estar perfeita. Não apenas para não envergonhar Isabella, mas porque eu sabia que os olhos de Dante estariam fixos em mim a noite toda.
Vasculhei meu closet luxuoso por horas, analisando texturas e caimentos, até finalmente montar a combinação perfeita. Era um visual luxuoso, imponente, mas perfeitamente adequado para o frio congelante que fazia lá fora.
Escolhi uma saia de alfaiataria em tom de veludo preto, com um corte estruturado que ia até a metade das minhas coxas. Para me proteger do inverno, vesti uma meia-calça escura, grossa e fio 80, que desenhava perfeitamente minhas pernas. Na parte de cima, optei por uma blusa de gola alta de tricot canelado em um tom de creme texturizado, extremamente macia ao toque, e, por cima de tudo, um casaquinho curto no estilo tweed, com botões dourados reluzentes que davam um ar de realeza ao conjunto.
Prendi metade do meu cabelo para trás com uma presilha delicada e deixei o resto cair em ondas suaves pelas minhas costas. Quando me olhei no espelho, meu coração deu um salto. Eu não parecia mais aquela garota assustada e maltrapilha de um mês atrás. Eu parecia uma mulher segura. Uma mulher que pertencia àquele lugar.
Olho para o relógio na parede. Estava quase na hora. Respiro fundo, sentindo minhas mãos tremerem de leve de ansiedade, e dou o primeiro passo em direção à porta, pronta para descobrir quem eram os convidados misteriosos daquela noite.
***
Quando desço a imensa escadaria de mármore, o som de vozes desconhecidas me faz hesitar no último degrau. Corro os olhos pela sala de estar principal e percebo que Dante ainda não chegou. No centro do ambiente, conversando animadamente com o Don e Isabella, está um casal mais velho, exalando a postura típica da alta sociedade da máfia, e, ao lado deles, uma garota que parece ter exatamente a minha idade.
Ela usa um vestido de grife impecável, joias que brilham sob os lustres de cristal e tem os cabelos loiros perfeitamente alinhados. Uma herdeira legítima desse mundo.
Assim que Isabella me nota, seu rosto se ilumina.
— Oh, aqui está ela! Venha, Ely — ela me chama com um aceno, e eu me aproximo a passos tímidos, segurando o tecido do meu casaquinho de tweed. — Esses são nossos amigos de longa data, o Conselheiro Vitali e sua esposa, Graziella. E esta é a filha deles, Alessia.
O casal me cumprimenta com acenos corteses, mas os olhos de Alessia correm pelo meu corpo, avaliando-me de cima a baixo com uma curiosidade afiada. No segundo seguinte, ela se vira para Isabella, ajeitando uma das pulseiras de ouro no pulso.
— E onde está o Dante, tia Isabella? — a menina pergunta, a voz carregada de uma i********e que faz meu estômago dar um nó estranho. — Pensei que ele já estaria em casa a esta hora.
— Ele teve um contratempo na fronteira, mas já está chegando, querida — Isabella responde com sua calma habitual, gesticulando em direção à mesa posta. — Vamos nos sentar enquanto isso.
Eu não estou entendendo absolutamente nada daquela dinâmica, mas sigo o fluxo em silêncio. Sentamo-me à mesa e eu me coloco em uma cadeira mais afastada, apenas observando o diálogo deles. Eles conversam sobre o inverno, sobre as famílias aliadas e sobre o quanto Alessia sentia falta da Itália depois de passar uma temporada estudando em Paris. Eu permaneço invisível, sentindo-me um peixe fora d'água, com aquela pontada incômoda de ansiedade voltando a martelar no meu peito.
De repente, o som nítido das portas da frente se abrindo ecoa pelo hall. Passos pesados e firmes se aproximam da sala de jantar.
É Dante.
Ele entra no ambiente vestindo seu sobretudo escuro, com alguns flocos de neve derretendo em seus ombros largos e o semblante cansado de quem passou o dia trabalhando. Mas, no milésimo de segundo em que seus olhos escuros varrem a mesa e se cravam em mim, suas feições duras se suavizam por completo. Dante me encara com uma intensidade avassaladora, e um sorriso sutil, mas perfeitamente genuíno, surge em seus lábios ao notar o quanto me empenhei na roupa para aquela noite.
Sinto minhas bochechas queimarem e, involuntariamente, sorrio de volta para ele, sentindo o ar voltar aos meus pulmões. O mundo parece congelar entre nós dois por um instante.
Mas a ilusão é estraçalhada no segundo seguinte.
— Dante! — Alessia dá um grito agudo de pura empolgação, levantando-se da cadeira em um sobressalto.
Antes que ele consiga dar mais dois passos na minha direção, a garota corre pelo salão e se joga direto nos braços dele. Ela envolve os braços ao redor do pescoço de Dante, apertando-o em um abraço efusivo e possessivo. Dante tenciona o corpo inteiro, os braços travados ao lado do corpo, visivelmente pego de surpresa pela abordagem.
— Meu Deus, eu estava morrendo de saudades! — Alessia exclama contra o peito dele, afastando-se apenas o suficiente para olhar no rosto dele com um brilho vitorioso e apaixonado nos olhos. Ela se vira para a mesa, olhando para o Don, para Isabella e, finalmente, cravando o olhar em mim com um sorriso radiante. — Nós finalmente voltamos, Dante... Viemos para oficializar o nosso noivado!
O sorriso morre instantaneamente nos meus lábios. O chão sob os meus pés parece desaparecer, e a cadeira cinza-claro em que estou sentada se torna o lugar mais frio do mundo. Olho para Dante, com o coração estraçalhado no peito, esperando que ele diga alguma coisa, que desminta, que faça qualquer coisa... mas o silêncio que cai sobre a sala de jantar é ensurdecedor.