— Por que seus irmãos querem me conhecer? — encaro-o, desconfiada, apertando o cobertor contra o queixo.
— Meus pais contaram que estava aqui. Sei que nos conhecemos pouco, mas seu pai foi realmente alguém que admiramos, querida — diz, aproximando-se e colocando, com uma delicadeza absurda, um pedaço do meu cabelo atrás da orelha. O toque do dedão dele na minha pele me dá um arrepio familiar. — E eles estão curiosos para ver a garota que sobreviveu àquele verme do Marco.
— Eu não sei se eles vão gostar de mim — murmuro, sentindo aquela insegurança maldita que minha cunhada plantou na minha cabeça por anos voltar a latejar.
— Eu tenho certeza que todos vão gostar de você — ele pisca, estendendo a mão para mim. — Agora venha. Prometo que não vou deixar ninguém morder você.
Respiro fundo e venço a preguiça, saindo da cama. Ajusto meu moletom cinza-claro novo e sigo Dante corredor afora. Meu coração bate um pouco mais rápido à medida que descemos a imensa escadaria de mármore. O som de risadas altas, vozes grossas e o barulho de talheres ecoam da sala de jantar, quebrando completamente a atmosfera silenciosa da noite anterior.
Assim que cruzamos o arco da porta, o falatório cessa por um segundo. Três homens altos, com feições que carregam a mesma genética imponente do Don e de Dante, se viram na nossa direção. Meu corpo tensiona por instinto, mas antes que eu dê um passo atrás, a reação deles me deixa paralisada.
O mais novo deles, com os cabelos levemente bagunçados e um sorriso canalha que com certeza vai quebrar muitos corações no futuro, dá um passo à frente.
— Benvenuta! Então você é a famosa Ely? — ele diz, e sem o menor cerimonial, me puxa para um abraço rápido e apertado, que cheira a perfume importado e juventude. — Sou o Lorenzo. Se o Dante te irritar, me avisa que eu sei onde ele esconde as armas preferidas dele.
— Lorenzo, tire as mãos dela antes que eu quebre seus dedos — a voz de Dante ecoa ao meu lado, um rosnado baixo que faz Lorenzo rir e dar um passo atrás, erguendo as mãos em sinal de rendição.
Um segundo irmão se aproxima. Ele tem uma postura mais séria, quase tão rígida quanto a de Dante, com olhos verdes profundos e cortantes, daqueles homens que parecem calcular cada passo. Claramente o tipo de mafioso estrategista que vai ter uma história intensa para contar mais para frente.
— Seja bem-vinda, Ely. Sou o Matteo — ele diz, com uma voz firme e madura. Ele segura minha mão de um jeito respeitoso, mas me puxa para um meio abraço acolhedor pela lateral. — Ignore o Lorenzo. E o Dante também. Você está segura aqui.
bocetaim, o terceiro irmão se levanta da mesa. Ele é imenso, com ombros largos e uma cicatriz sutil que cruza a linha do maxilar, dando a ele um ar perigoso, mas o sorriso que ele me lança é completamente aberto e caloroso. O tipo de gigante bruto com o coração mole.— Finalmente! — ele fala, sua voz grave vibrando no ambiente enquanto me envolve em um abraço de urso que quase me tira do chão por um segundo, mas sem me machucar. — Sou o Santino. Se precisar de qualquer coisa nessa casa, qualquer coisa mesmo, é só me gritar. Boas-vindas à família, garota.
Eu pisco, atordoada, sentindo meus olhos marejarem de leve. Olho para os três, depois para Dante. Eles são ótimos. Não há um pingo do desdém que eu recebia na casa do meu irmão. Nenhum olhar torto. Apenas... braços abertos.
Nos sentamos à mesa enorme, e Isabella logo faz questão de que os pratos sejam servidos. Para aquela noite gelada de inverno, as empregadas trazem uma imensa travessa de Polenta Con Spezzatino, uma polenta cremosa fumegante coberta com um cozido de carne rico, denso e perfeitamente temperado, cozinhado lentamente no vinho tinto. O aroma enche a sala, fazendo meu estômago roncar.
Dante se senta imediatamente ao meu lado, colado a mim. Durante todo o tempo, ele mantém uma de suas mãos grandes espalmada na minha coxa por debaixo da mesa, um toque firme e quente que serve tanto para me passar segurança quanto para avisar aos irmãos que eu sou o território dele.
— Então, Ely, é verdade que o Dante te arrastou para o shopping e comprou metade de Milão? — Lorenzo puxa o assunto, servindo-se de mais vinho, com um brilho divertido nos olhos. — Papai vai ter que fechar mais dois contratos de contrabando para pagar a fatura do cartão.
— Cale a boca, Lorenzo — Dante rebate, sem desviar os olhos do prato, mas vejo o canto dos seus lábios se curvarem.
— Deixe o menino, Dante — Isabella intervém, sorrindo da ponta da mesa. — Ele só está com inveja porque você tem bom gosto para acompanhante.
— Eu só acho que o Dante está amolecendo — Santino entra na provocação, dando uma piscadela para mim. — O Sotto-capo implacável batendo perna em loja de grife? Eu precisava de uma foto disso para o mural da Cosa Nostra.
Dou uma risadinha baixa, o cansaço acumulado finalmente dando uma trégua diante do calor daquela mesa. Eu como o cozido maravilhoso, sentindo meu corpo relaxar por completo. A conversa continua fluindo entre eles, cheia de piadas internas e implicâncias de irmãos, e eu apenas escuto, sentindo-me flutuar.
Depois do jantar, os mais velhos se recolhem e nós nos mudamos para a sala de estar adjacente, onde uma lareira imensa estala com toras de madeira, aquecendo o ambiente. Os irmãos de Dante continuam conversando sobre os planos para o dia seguinte, as vozes deles virando um murmúrio distante e confortável na minha mente.
Estou morrendo de cansaço. Meus olhos pesam como chumbo, e o calor da lareira misturado à digestão da comida quente me desliga aos poucos.
Sem perceber, meu corpo vai pendendo para o lado. Minha cabeça tomba devagar até encontrar o ombro largo e firme de Dante. Sinto o braço dele subir instantaneamente, envolvendo minhas costas e me puxando para mais perto, acomodando-me contra o seu peito musculoso. O cheiro amadeirado dele invade meu nariz.
— Ela apagou — ouço a voz abafada de Matteo dizer em algum lugar distante.
— Deixe-a descansar. Ela passou por muita coisa — Dante responde, e sua voz é a última coisa que ouço, um sussurro possessivo e protetor que me faz adormecer profundamente, sabendo que, agora, eu realmente tenho uma família para me apoiar.