Capítulo 05

1180 Words
Dante | Anos Antes Odeio vir para cá. Odeio esse país. Odeio essas pessoas. Por um segundo, odeio ser eu. O calor sufocante desse lugar tropical parece grudar na minha pele junto com a poeira das ruas, uma sensação completamente diferente do inverno frio e limpo ao qual estou acostumado na Itália. Estou aqui a negócios da Cosa Nostra, resolvendo transações que exigem a minha presença física e a minha paciência, que já está no limite. Aproveito um momento de distração entre os mais velhos para me afastar da sala de jantar principal. Preciso de ar. Caminho a passos largos pelos corredores desconhecidos da propriedade, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça social, amaldiçoando mentalmente o momento em que meu pai me escalou para essa viagem. Viro o corredor em direção a uma varanda que dá para os jardins internos da casa, tentando escapar do falatório dos homens, quando uma lufada de vento atinge a fresta da porta de uma das salas. No mesmo segundo, uma folha de papel sulfite voa de lá de dentro e bate direto contra o meu peito. Eu a seguro por puro reflexo. É um desenho técnico de moda, o esboço de um vestido feito com traços finos, detalhados e incrivelmente talentosos. Antes que eu possa olhar ao redor para descobrir de quem é, uma garota surge na porta da sala, parando abruptamente ao me ver. Ela estanca a poucos passos de mim, arquejando levemente, com as bochechas coradas pelo susto. Quando ela ergue os olhos e me encara, meu coração dá uma batida errática no peito. É uma sensação tão violenta, tão desconhecida, que quase me faz dar um passo atrás. Ela é linda. Sei imediatamente quem ela é: a filha caçula do aliado do meu pai. Mas eu não esperava isso. Não há nada daquela arrogância típica dos filhos da elite em suas feições. Há uma luz vibrante nela, algo puro e magnético. — Ah, meu Deus, me desculpe! — ela diz, e um sorriso largo, genuíno e absurdamente brilhante se abre em seus lábios, fazendo pequenas covinhas surgirem em suas bochechas. Ela aponta para o papel na minha mão. — O vento levou meu desenho pela porta. Obrigada por segurar. Eu continuo estático, apenas observando a forma como ela fala, como gesticula com as mãos pequenas, como a voz dela soa como uma melodia suave que consegue silenciar todo o peso que carrego nos ombros. Entrego o papel a ela em silêncio. Quando nossos dedos se esbarram por um milésimo de segundo, uma corrente elétrica parece disparar sob a minha pele. — Eu sou a Ely — ela se apresenta com uma naturalidade desconcertante, estendendo a mão livre, com os olhos brilhando de uma gentileza tão acolhedora que chega a desarmar a armadura de gelo que carreguei a vida inteira. — Dante — respondo. Minha voz sai mais rouca do que o normal, o sotaque italiano arrastando as letras. Ficamos ali na varanda da casa dela por algum tempo. Bem, ela conversa. Ely fala com entusiasmo sobre tecidos, sobre o sonho de criar suas próprias roupas e como cada pedaço de linha vermelha que ela encontra pela casa vira um detalhe nos seus esboços. Eu apenas escuto, completamente hipnotizado. Ela é doce, engraçada, sorri para mim como se eu não fosse o herdeiro implacável da Cosa Nostra que veio selar um acordo de sangue com o pai dela. Ela me olha como se eu fosse apenas... um homem. E, pela primeira vez na vida, eu não quero ser o Sotto-capo. Quero apenas ser o homem que a faz sorrir desse jeito. Enquanto a observo rir, o papel do desenho apertado contra o peito, uma certeza avassaladora e implacável se aloja no meu coração, fincando raízes profundas. Eu vou me casar com essa garota. Não importa o tempo que leve, não importa as barreiras da distância, eu vou voltar para essa casa, pedir a mão dela ao pai e fazê-la minha esposa. *** Abro os olhos, assustado. O ar entra rasgando em meus pulmões quando acordo em um solavanco, meu corpo inteiro tenso e banhado em suor frio. O teto escuro do meu quarto na mansão da Cosa Nostra substitui a imagem ensolarada da varanda de Ely, me trazendo de volta à realidade com a força de um soco. Levo uma das mãos ao rosto, tentando afastar os resquícios daquele sonho, daquela lembrança que insiste em me assombrar. É madrugada. O silêncio da casa deveria ser absoluto, mas, antes mesmo que eu consiga normalizar os batimentos do meu coração, um som corta a calada da noite. Um grito. Agudo, abafado, carregado de um pânico puro que faz meu sangue congelar nas veias. É a voz dela. Pulo da cama em um reflexo puramente instintivo. Não penso em terno, não penso em protocolo, não penso em nada; apenas sinto a adrenalina disparar pelo meu corpo. Abro a porta do meu quarto com força e corro pelo corredor escuro em direção ao final da ala leste. Meus pés descalços m*l parecem tocar o chão frio. Empurro a porta do quarto de Ely de uma vez, o coração martelando contra minhas costelas como um animal enjaulado. A cena que encontro estraçalha meu peito. A luz fraca da lua que entra pela janela revela Ely afundada no meio das cobertas pesadas, mas ela não está descansando. Seu corpo pequeno está se debatendo violentamente de um lado para o outro. Os fios de cabelo estão colados em sua testa pelo suor, e suas mãos agarram os lençóis com tanta força que os nós dos seus dedos estão brancos. Ela chora alto, um pranto desesperado, e seus lábios tremem enquanto ela murmura coisas desconexas, palavras que saem mastigadas pelo terror. — Não... por favor... Marco, não... me larga... — ela chora, a voz falhando, presa em um pesadelo que claramente a está torturando. Ela está revivendo o inferno. Está revivendo cada agressão, cada humilhação, ou talvez a noite em que foi jogada nos braços do meu pai como se não passasse de um pedaço de lixo. Aproximo-me da cama a passos rápidos, mas travo os pés no tapete por um segundo, sentindo uma hesitação dolorosa. Sei que se eu tocá-la de forma brusca, posso assustá-la ainda mais, posso fazê-la pensar que o pesadelo se tornou real. Mas vê-la daquele jeito, sofrendo por feridas que eu não pude evitar que aqueles malditos causassem, é uma tortura que eu não consigo suportar. — Ely... — chamo, mantendo a minha voz o mais baixa e firme que consigo, embora meu peito esteja arfando. Dei mais um passo, sentando-me na beirada do colchão macio. — Ely, acorde. Você está segura. Ela solta mais um gemido sôfrego, virando a cabeça bruscamente para o lado oposto, completamente perdida na escuridão da própria mente. Não aguentando mais a distância, estendo minhas mãos e, com o máximo de cuidado que minhas palmas calejadas permitem, seguro delicadamente em seus ombros trêmulos. — Ely, por favor, olhe para mim — peço, aplicando uma leve pressão para trazê-la de volta. — Acorde, mia cara. Ninguém vai te machucar aqui.
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