Ely
Quando abro meus olhos, meu corpo inteiro ainda vibra com o terror do pesadelo. Meu coração bate rápido. Forte. Sinto braços firmes ao meu redor e, por puro instinto de sobrevivência, procuro o calor que eles emanam. Enfio meu rosto contra o peito musculoso e quente, segurando-me com todas as forças que me restam, cravando minhas unhas nos seus braços como se ele fosse a única coisa que me impedisse de cair em um abismo.
Fico ali por alguns segundos, ouvindo o pulsar ritmado e acelerado do coração dele sob o meu ouvido, até que a névoa do sono começa a se dissipar.
Percebo onde estou. Percebo de quem é esse peito.
Dou um sobressalto, afastando-me bruscamente. Minhas costas batem contra a cabeceira da cama e eu puxo os lençóis contra o peito, morrendo de medo, tremendo da cabeça aos pés. Meus olhos encontram os de Dante na penumbra do quarto. Ele está sentado na beirada do colchão, com a respiração pesada, me encarando de um jeito terrivelmente intenso. Há algo no olhar dele que não consigo decifrar, uma mistura de dor, possessividade e uma fúria contida que me deixa em alerta.
O pânico de ter feito algo errado me atinge em cheio.
— Eu... eu te acordei? — pergunto, a voz saindo em um fio desesperado, as lágrimas voltando a arder nos meus olhos. — Me desculpe. Por favor, me desculpe, Dante... Eu não queria incomodar, eu juro. Não foi por m*l.
Tento me encolher ainda mais contra os travesseiros, esperando que a intensidade do seu olhar se transforme em uma bronca por ter quebrado a paz da sua madrugada.
Dante solta o ar devagar, relaxando os ombros de forma nítida ao perceber o meu pânico.
— Não tem problema, Ely. Você não me incomodou — ele diz, e sua voz é um sussurro grave que tenta, a todo custo, soar calmo. Ele estende a mão no espaço entre nós, mas não me toca. — Eu só me preocupei quando ouvi você gritar. Está tudo bem agora?
Assinto rapidamente com a cabeça, mentindo por puro hábito, querendo apenas que ele saia antes que eu me torne um fardo ainda maior.
— Não minta para mim — ele corta imediatamente. O tom sai meio duro, autoritário, fazendo meu corpo inteiro se encolher no mesmo segundo.
— Desculpe... me desculpe de novo — murmuro, apertando os olhos. O nó na minha garganta aperta tanto que decido colocar a verdade para fora, incapaz de segurar o peso sozinha por mais tempo. — Eu... eu sonho com o meu irmão. Quase todas as noites.
Dante continua estático, apenas me ouvindo. Engulo em seco, sentindo meu peito arder com a memória.
— Logo depois que meus pais morreram... o irmão mais velho da minha cunhada entrou no meu quarto. Ele tentou... ele tentou me forçar. Eu gritei, eu lutei. Mas quando o Marco chegou e viu a situação, ele não me defendeu. Ele achou que a culpa era minha, que eu estava provocando o homem na casa dele. Marco me torturou por dias como punição. Ele me trancou no escuro, me bateu... Eu tinha acabado de perder meus pais, Dante. Eu não tinha ninguém.
No mesmo instante em que as palavras saem da minha boca, a atmosfera do quarto muda drasticamente.
Dante tensiona o corpo inteiro. Maxilares travados, os punhos cerrados ao lado do corpo com tanta força que os nós dos seus dedos estalam na escuridão. Ele fica visivelmente puto, uma fúria assassina emanando de cada poro do seu corpo. Eu não consigo entender direito o que está acontecendo na mente dele ou o porquê de ele estar com tanta raiva, e o medo de que aquela fúria seja direcionada a mim faz minhas lágrimas caírem mais depressa.
Mas ele não grita comigo. Ele apenas fecha os olhos por um segundo, respirando fundo, controlando o monstro que parece querer saltar do seu peito. Quando ele os abre, a tempestade em seu olhar diminui um pouco, focando apenas em mim.
Ver que ele não vai me agredir faz meu corpo finalmente relaxar. O choro vai diminuindo, dando lugar a uma calmaria exausta.
Dante começa a se levantar da beirada da cama, provavelmente para me deixar descansar, mas o frio do quarto parece voltar a me rondar. Antes que eu pense na consequência, estendo minha mão e seguro o braço dele. Meus dedos pequenos agarram o tecido da sua manga.
— Fica... — peço, num sussurro quase inaudível, olhando-o com os olhos suplicantes. — Por favor.
Ele para na hora. Olha para a minha mão em seu braço e depois para o meu rosto. Dante não hesita; ele dá a volta na imensa cama, afasta as cobertas pesadas e se deita.
Ficamos assim, cada um do seu lado, separados por uma distância respeitosa no colchão macio. Ele está deitado de costas, olhando para o teto, mas sei que sua atenção está 100% voltada para mim. Viro-me de lado, encarando o perfil imponente dele na penumbra, sentindo o calor do seu corpo irradiar pelo tecido dos lençóis.
Aperto o travesseiro contra o peito e deixo o ar sair dos meus pulmões.
— É a primeira vez que me sinto segura em meses... — sussurro para a escuridão, fechando os olhos em seguida.