Capítulo 06

1386 Words
Helena caminhou até o banheiro, tentando não demonstrar que havia cedido. Thomas andava ao lado dela, tímido. Maria Clara os seguiu, fechando a porta atrás de si. O banheiro era amplo e claro com uma banheira antiga de porcelana. Helena a encarou enquanto Maria Clara abria a torneira. — E você sabe mesmo cantar? — Perguntou Helena com dúvida. — Sei. — Maria Clara respondeu com calma. — Canto desde pequena. O banho foi… caótico. Mas, num instante inesperado, algo mudou. Quando Maria Clara começou a lavar os cabelos de Helena com movimentos suaves, a menina permaneceu quieta. Não reclamou. Pelo contrário, fechou os olhos, relaxando pela primeira vez. — Faz muito tempo que ninguém lava meu cabelo assim. — murmurou Helena, quase imperceptível. Maria Clara suspendeu o gesto, surpresa pela franqueza repentina. — E você gosta assim? Helena hesitou… e deu um aceno pequeno. — Então podemos fazer sempre que quiser. — disse Maria Clara, com ternura. A menina abriu os olhos, ainda desconfiada daquele calor tão diferente do mundo rígido que conhecia. Quando o banho terminou, Helena e Thomas estavam limpos, cheirosos e com roupas impecáveis. — Agora você tem que cantar — lembrou Helena, com autoridade. Thomas olhou apreensivo. Maria Clara sorriu, sentou-se no banco perto da janela e sinalizou para que eles se aproximassem. — Está bem. Um combinado é um combinado. Maria Clara encheu os pulmões e começou com uma canção suave, sua voz encheu o quarto com doçura. Helena, que tentava manter o ar de braveza, foi cedendo. Thomas deitou a cabeça no colo de Helena que passou a afagar seus cabelos lisos e abundantes. A música era como um afago. Quando Maria Clara terminou, o silêncio ficou aconchegante. Helena piscou devagar. — Você sabe cantar bonito… mas é só uma música e você fez isso porque está aqui e é paga pra isso. — Acusou Helena, mas por dentro o coraçãozinho da menina estava sentindo um consolo que não queria admitir. — Você está certa que é meu trabalho. — Maria Clara falou com sinceridade. — Mas eu amo o que faço. A partir do momento que entrei nesta casa, vocês passaram a fazer parte da minha vida e me dedicarei a vocês com todo carinho. Thomas esfregou os olhos. — Você vai amar a gente? — Perguntou ele com um fio de voz. — Se vocês me deixarem. Agora venham aqui. Incrivelmente os dois levantaram. Thomas primeiro a se achegar a ela e mesmo sem se aproximar, Maria Clara percebeu que ele queria um abraço. Ela se inclinou para ele e foi trazendo-o de leve para junto dela. Helena, ainda resistente, também se aproximou e com uma das mãos trouxe Helena para junto de si e os três ficaram abraçados. Maria Clara sentiu o peito apertar, sentia que a muito tempo aquelas crianças não recebiam um carinho ou até mesmo um abraço. Ela passou a mão nos cabelos dos dois. — Obrigada por confiarem em mim. Era um gesto pequeno… era um início, mas também uma trégua, mas as crianças não iriam se render tão fácil. **** O que Maria Clara não sabia… …é que Álvaro estava parado no corredor, imóvel, observando pela fresta entreaberta da porta. Ele estava preparado para encontrar bagunça e algazarra, mas encontrou outra cena. Os filhos quietos abraçados a ela. Algo o tocou naquela cena, ele mesmo já não lembrava da última vez que abraçou seus filhos. Ele saiu em silêncio. ***** Na hora do jantar, as crianças sentaram-se à mesa impecavelmente arrumada, de frente para o pai e para Roberto. Logo em seguida, Olavo deu o sinal, e os empregados começaram a servir o jantar. Álvaro quebrou o silêncio. — Então… o que acharam da sua nova preceptora? — perguntou, olhando para os filhos com uma serenidade, mas em tom frio Helena e Thomas o encararam, surpresos. O pai raramente lhes dirigia a palavra durante as refeições. — Ela é diferente das outras. — Helena deu de ombros, mas seus olhos brilharam por um instante, traindo o desinteresse. — Não é chata. — Ela é bonita. — murmurou Thomas, baixinho, como se revelasse um segredo. Roberto riu, divertido, inclinando-se para o pequeno. — Concordo com você, Thomas. Desde pequeno já sabe apreciar uma mulher bonita. Helena o corrigiu imediatamente — Não se fala “mulher bonita”, tio Roberto. A gente fala “pessoa bonita”. — E revirou os olhos, numa mistura de inocência e superioridade infantil. Roberto piscou para ela. — Tem razão, minha princesa. Uma pessoa muito bonita. Álvaro fechou a expressão e lançou um olhar gélido para o primo. — Devo lembrá-lo que a senhorita Duarte é minha funcionária e minha responsabilidade. — Sua voz era firme, quase cortante. — Ela não é como as mulheres com quem você está acostumado. Portanto, mantenha distância e concentre-se no trabalho que veio fazer no Brasil. Roberto sorriu de canto com um olhar divertido. — Se eu não o conhecesse bem, diria até que está com ciúmes. Helena ergueu o rosto, interessada. — Papai com ciúmes? De quem? — perguntou com aquela curiosidade de criança. — Não é ciúmes. — respondeu, num tom que não admitia réplica e olhar de alerta para Roberto. — Só estou alertando o seu tio para não incomodar a senhorita Duarte, ela foi criada num convento e está no noviciado. Roberto se recostou, saboreando o desconforto do primo. — Seria um desperdício uma beleza como a dela ser trancafiada num convento. E, convenhamos, Álvaro… não me diga que você não reparou que, por baixo daquelas roupas comportadas, existe uma mulher estonteante capaz de virar a cabeça de qualquer um. Álvaro apertou a taça de vinho em sua mão. — Se falar de novo desse jeito, vou pedir que se retire da minha casa e vá para um hotel. — O tio disse que ela esconde… o quê? — Perguntou Thomas inocentemente. — Nada que você precise saber. — Álvaro cortou, ríspido, antes que Roberto abrisse a boca com outra provocação. O olhar de Álvaro pousou nele como uma lâmina. Roberto ergueu as mãos, fingindo rendição. — Certo, certo, não vamos transformar o jantar num campo de batalha. Álvaro respirou fundo, tentando recuperar o controle. As crianças percebendo o clima tenso, ficaram em silêncio. No restante do jantar só se ouvia o som dos talheres. ***** Alheia a tensão na mesa da sala de jantar onde o silêncio reinava, Maria Clara conheceu os outros empregados da casa. Depois que servirem os patrão. A refeição dos empregados foi servida a comida era mais simples, mas não mesmo saborosa. — Não podemos negar que o conde nos trata bem. — Disse Olivia, uma das ajudantes da cozinha. — Realmente. Já trabalhei em casa que os patrões só nos deixavam comer as sobras, mas raramente sobrava porque eles eram mesquinhos, então a gente se virava. — Foi a vez de Júlia falar, uma das arrumadeiras. — Então você veio de um convento? — Perguntou Anastácia a cozinheira. — Sim. Eu cresci lá. Sou órfã. Essa revelação fez os presentes soltarem um murmúrio como que tivessem pena de Maria Clara, por isso ela sorriu. — Tive uma infância feliz, as irmãs sempre foram boas pra mim. Havia ainda na mesa de refeição, o motorista, que Clara ficou sabendo que se chamava Durval. O chef de cozinha Sérgio e ainda mais duas arrumadeiras, Solange e Raquel e ainda o jardineiro João e seu ajudante Matias. Logo depois chegou Doralice que se juntou a eles. Somente Olavo e o copeiro, Avelino, permaneceram na sala de jantar para servirem o patrão e a família. — E o que achou das crianças? — Perguntou Júlia. — São adoráveis. — O semblante de Maria Clara mudou para séria. — Elas precisam de atenção e afeto. Ninguém ousou comentar nada, apenas se entreolharam. Doralice foi a única que conseguiu falar algo. — As crianças eram tão tranquilas, mas desde a morte da mãe… mas não vamos falar sobre isso. Como se aquele assunto fosse proibido, rapidamente as conversas mudaram de rumo e Maria Clara começou a querer saber mais sobre a mãe das crianças e as circunstâncias da morte dela. Quanto tivesse oportunidade iria conversar com Doralice, ela precisa saber para entender melhor as crianças e o comportamento frio do conde para com os filhos.
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