Lealdade é código

1513 Words
Magrão narrando Aqui no morro não existe meio termo, ou tu é fechado com o comando… ou tu já tá cavando a própria cova social. E eu sou fechado. Desde moleque aprendi que palavra vale mais que assinatura, quando eu dei minha lealdade pro chefe, eu não dei pela metade, eu entreguei inteira, sem cláusula escondida. Augusto Soberano me puxou quando eu ainda era só mais um com raiva demais e futuro de menos. Ele me ensinou estratégia, disciplina, visão, me ensinou que poder não é grito, é controle. Hoje eu sou o braço direito dele, o cara que resolve antes de virar problema, escudo da família. E é aí que começa meu conflito, porque proteger a família inclui proteger ela. Mayte não é só a filha do chefe, ela é a próxima peça do tabuleiro. A herdeira, a mente afiada que muita gente subestima porque não aguenta sustentar o olhar dela por cinco segundos. Mas eu aguento. E esse é o erro. Desço as escadas da casa principal enquanto a rapaziada termina a reunião, já deixei alinhado os pontos de vigia, reforço na Serra, ajuste nas rotas. Informação chegou de que tem movimentação estranha, eu sinto quando o clima muda, e não é só por causa de rival. É energia. Tensão que não dá pra explicar, levanto o olhar, ela tá lá em cima, na laje. Observando tudo, como sempre. Só que hoje o jeito que ela me olha não é neutro, e eu demoro dois segundos a mais do que devia. Vacilo. Porque se eu sustento… eu entrego, e eu não posso entregar nada. No escritório, fico sozinho por uns minutos, porta fechada, silêncio pesado, passo a mão no rosto. Respira, Magrão. Tu já encarou tiroteio, invasão, traição interna, já segurou morro inteiro quando parecia que ia desabar. E tá ficando mexido por causa de um olhar? Ridículo. Mas não é só um olhar, é o jeito que ela enfrenta, que ela provoca sem levantar a voz. O jeito que entende de estratégia como se tivesse nascido lendo mapa de guerra, ela não é frágil, e isso piora tudo. Porque não dá pra fingir que eu tô só protegendo, proteção não acelera o coração, não faz tu perder o foco no meio de relatório. Não faz tu querer atravessar uma linha que tu mesmo jurou nunca cruzar. Eu fiz um código pra mim mesmo anos atrás: Lealdade acima de tudo, emoção não interfere na missão, família do chefe é intocável. Eu tô quebrando o terceiro só de pensar demais. Saio pra fazer a ronda, dois soldados me atualizam da movimentação na parte baixa, ajusto turno, troco posição de vigia, deixo claro que qualquer passo fora do padrão eu quero saber antes de virar barulho. Eu funciono melhor quando tô resolvendo coisa prática. Mas minha mente trai, porque eu sei que ela tá acordada. E eu sei que ela pensa demais também, quando vejo, já tô subindo a lateral da casa de novo. Eu devia estar em qualquer outro lugar. Mas tô ali, na varanda, ela de costas pro morro, cabelo batendo com o vento, postura firme como se o mundo não pudesse derrubar. Eu falo que ela devia dormir. Mentira. Eu só precisava confirmar que ela tava bem, ela provoca, claro que provoca. E eu seguro. Seguro porque eu sei o que acontece se isso sai do controle, se o chefe descobre antes da hora… não é só sobre mim. É sobre confiança quebrada, e confiança, aqui, não se conserta. Quando eu digo que isso é errado, eu não tô falando só de regra, to falando de sobrevivência. Mas quando ela pergunta como deveria me olhar… Aí complica. Porque a verdade? Eu não sei mais, eu sei como eu deveria olhar pra ela. Com respeito, distância e frieza. Mas o que eu sinto não tem nada de frio, eu me afasto primeiro quando escuto passos, treinado. Décadas de disciplina em um movimento. Se alguém vê algo fora do lugar… já era. Eu volto pro modo profissional em segundos. Mas por dentro? To em guerra. Desço as escadas sozinho depois que saio da varanda. Meu peito tá pesado, eu paro no pátio, olho pro morro inteiro, tudo funcionando, sob controle. Menos eu. Eu sempre fui o cara que não falha, o que não mistura sentimento com missão. Mas tem uma verdade que eu não consigo mais ignorar: O problema nunca foi morrer pelo morro, o problema é viver por ela. E se eu tiver que escolher… Eu ainda não sei qual lado de mim vai vencer. Mas uma coisa é certa: Se alguém usar ela contra mim… Eu viro o próprio caos. Eu fico uns minutos parado no pátio, olhando o morro pulsar, luz piscando, som rolando baixo em algum beco, moto cortando subida, tudo normal. Normal demais, e quando tá normal demais, eu desconfio. — Chefe — um dos moleques da contenção me chama. — A Serra tá quieta hoje. Eu balanço a cabeça. — Quieto demais é que preocupa. Mantém dois a mais na parte alta e troca o turno da meia-noite, quero olho aberto. Ele sai rápido, aqui ninguém questiona quando eu falo nesse tom, eu sou o cara que mantém o sistema rodando, só que hoje o sistema dentro de mim tá bugado, subo pro escritório de novo, fecho a porta e jogo a chave na mesa, abro o mapa do morro, marco mentalmente os pontos sensíveis. Eu faço isso pra focar. Estratégia acalma, e o sentimento bagunça. E eu não posso me dar o luxo de bagunça, pego o celular, mensagem do chefe pedindo relatório fechado até amanhecer, respondo na hora. Lealdade é ação, não discurso. Eu lembro do dia que fiz minha promessa pra Augusto Soberano. Ele me olhou como quem mede caráter, não força. — Aqui dentro, quem trai não tem segunda chance. Eu nunca traí, nunca. Mas e isso aqui? Esse negócio crescendo no silêncio? É traição… ou é destino querendo testar meu código? Eu rio sozinho, destino não existe no morro, existe consequência. Desço pra ronda da parte baixa, cumprimento geral, escuto conversa atravessada, percebo tensão onde ninguém percebe, tem dois caras novos circulando mais do que deviam. Anoto mentalmente, se tem algo que eu não perco é detalhe. Só que tem um detalhe que eu não consigo ignorar. Ela. Mayte começa a aparecer mais nas reuniões. Questiona rota, sugere mudança de logística, antecipa problema, e eu admiro isso. Errado demais admirar, porque quanto mais eu vejo a mente dela funcionando, mais eu sei que não é só atração. É respeito, misturado com desejo, vira bomba, já é quase três da manhã quando eu volto pro pátio principal, a casa tá mais silenciosa, a maioria já recolheu. Eu devia ir dormir. Mas passo pela lateral… e a luz do quarto dela ainda tá acesa, meu maxilar trava, isso não é da minha conta. Mas é. Eu subo metade da escada… paro. Não, Magrão. Tu não é moleque, dou meia-volta. Só que antes de descer tudo, escuto a porta abrir. — Você não cansa? A voz dela. Eu fecho os olhos um segundo antes de virar. — Canso, só não mostro. Ela encosta no batente da porta, me analisando como se eu fosse um enigma. — Você tá estranho. — Eu sempre fui assim. Ela arqueia a sobrancelha. — Não, você sempre foi controlado. Direto no ponto. Eu chego mais perto, mas não o suficiente pra perder a linha. — E tu sempre gostou de testar limite. Ela dá um passo à frente. — Talvez porque você sempre gostou de fingir que não tem nenhum. Silêncio. O ar pesa, se alguém aparece agora, a leitura é errada, eu sei disso, ela sabe disso. — Isso aqui não é jogo, Mayte — eu falo mais baixo. — Se sair do controle, não é só sobre a gente. — E se já saiu? Essa pergunta atravessa, porque a real? Já saiu faz tempo, eu seguro o que dá. — Enquanto eu tiver respirando, ninguém encosta em tu. Ela cruza os braços. — Eu não preciso que você me salve. Eu quase sorrio. — Eu sei, é isso que complica. Ela me encara diferente agora, não é provocação, éintensidade. E aí eu entendo uma coisa que tava evitando: Eu não tô só com medo do chefe descobrir, eu tô com medo de não conseguir voltar atrás, porque se eu cruzar essa linha de verdade… Eu não volto pro lugar de antes. E no morro, quem muda de posição vira alvo. Passos ecoam dentro da casa de novo, sempre tem alguém acordado, e tem olho. Eu me afasto primeiro. Disciplina. — Vai dormir — eu digo. Ela inclina a cabeça. — Você também. Eu desço as escadas sem olhar pra trás, mas sinto o olhar dela queimando nas minhas costas. E no fundo eu sei: Eu posso ser leal ao código, ser fiel ao chefe, e segurar o morro inteiro nas costas. Mas segurar o que eu sinto? Isso tá ficando cada vez mais difícil. E quando eu perder o controle… Não vai ser bonito. Vai ser guerra.
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