Olhos que não desviam

1160 Words
Luly narrando Eu não preciso que ninguém me conte nada. Eu vejo. No morro, quem sobrevive aprende a ler silêncio, e o silêncio entre aqueles dois? Tá alto demais. Conheço a Mayte desde quando a gente dividia segredo bobo e sonho impossível na laje, ela sempre foi fechada, controlada, calculista até quando fingia estar relaxada. Mas agora? Ela tá diferente, não é fraqueza, é tensão contida. E eu sei identificar quando alguém tá segurando sentimento no dente. Hoje na reunião foi nítido. Ela questionando rota, ele respondendo rápido demais, olhar cruzando e desviando como se tivesse regra proibindo contato visual. Magrão sempre foi de pedra, postura reta, expressão blindada, lealdade estampada. Só que pedra também esquenta, e ele tá quente demais pra quem deveria estar frio, depois da reunião eu puxo ela pelo braço, levo pra lateral da casa, longe de ouvido curioso. — Tu tá brincando com fogo — eu falo direto. Ela cruza os braços. Defesa automática. — Eu não tô brincando com nada. Mentira. Não daquelas feias, daquelas que a pessoa conta pra si mesma. — Tu acha que eu não vejo? — eu continuo. — O jeito que ele te olha. O jeito que tu responde. Ela mantém a postura firme, mas o maxilar trava. Peguei. — Aqui não é lugar pra isso, Mayte. Ela respira fundo. — Eu sei onde eu tô. — Sabe mesmo? Porque teu pai também sabe onde tá. E ele não perde detalhe. O nome dele pesa sem eu nem precisar falar. Augusto Soberano não construiu império sendo distraído, ela vira o rosto pro morro lá embaixo. — Não aconteceu nada. Eu me aproximo. — Ainda. Silêncio. O tipo de silêncio que confirma mais do que palavra, eu suavizo o tom. — Eu não tô te julgando, eu tô te protegendo. Ela solta uma risada baixa. — Engraçado, ele fala a mesma coisa. Aí eu entendo, não é só atração, é cuidado misturado com desafio, isso é perigoso. — Tu sabe o que acontece se isso vaza, né? Ela sabe, mas mesmo sabendo… não n**a, e quando Mayte não n**a, é porque já escolheu sentir. O problema é que aqui sentimento não é só sentimento. É munição. Eu observo de longe mais tarde, eles não encostam, não cochicham, e não fazem nada que dê prova concreta, mas o corpo entrega, ele passa e o ombro dele endurece, ela fala e a voz muda meio tom. Olhos se encontram. Não desviam rápido o suficiente. E eu penso: Se eu tô vendo, outros também tão, e no morro, curiosidade vira fofoca. Eu volto pra perto dela antes que alguém note meu radar ligado. — Decide logo o que tu vai fazer — eu digo baixo. — Porque ficar no quase é pior. Ela me encara firme. — Eu nunca fico no quase. Eu acredito. E é exatamente isso que me preocupa, porque se Mayte decidir atravessar essa linha… Ela não vai olhar pra trás, e se Magrão for tão leal quanto parece… Ele vai atravessar junto, e quando duas peças fortes se movem sem avisar o dono do jogo… O tabuleiro treme. E eu só espero que, quando tremer de verdade… Não seja tarde demais pra segurar. Eu conheço aquele olhar. Não é impulso, não é carência, é escolha. E quando Mayte escolhe… ela banca. Mais tarde, a casa já tá quase toda em silêncio, mas o morro nunca fica mudo de verdade, sempre tem som de moto, sempre tem riso distante, sempre tem alguém circulando. Eu fico na escada lateral, fingindo mexer no celular. Observando. Ela aparece primeiro, postura alinhada, e queixo erguido, como se nada estivesse atravessando ela por dentro. Minutos depois, ele cruza o pátio. Passo firme, e olhar reto. Só que quando ele sente a presença dela… Dá pra ver. O ar muda. Eles não encostam, mas ficam alinhados demais, sincronizados demais, isso não é coincidência, é conexão. E conexão no topo do morro é tipo fio desencapado, uma hora dá curto. Eu desço devagar e paro do lado dela. — Tá valendo a pena? — eu pergunto baixo. Ela não olha pra mim. — O quê? — Fingir que não sente. Ela suspira, não é derrota. É conflito. — Eu sei o que eu tô fazendo. Eu balanço a cabeça. — Não, tu sabe o que quer fazer, é diferente. Ela finalmente me encara, e ali eu vejo algo que não via há tempo. Não é só desejo, é intensidade. — Ele não é qualquer um — ela fala. — Justamente. Eu olho na direção dele, que agora conversa com dois soldados, mas claramente não tá cem por cento ali. — Se fosse qualquer um, eu nem me preocupava — continuo. — Mas ele é o braço direito do teu pai. Ela mantém o olhar firme. — Eu sei quem ele é. — E sabe quem teu pai é também. Silêncio. O nome de Augusto Soberano nem precisa ser dito em voz alta pra pesar. Ele não é só o pai, é a estrutura. — Se isso explode — eu falo — não vai ser só conversa de corredor. Ela cruza os braços. Defesa ativada. — Eu não sou fraca, Luly. — Eu sei que não. Eu seguro o ombro dela. — É por isso que eu tô falando contigo e não com ele. Porque se alguém precisa ter clareza aqui, é ela, ele é leal demais, e lealdade quando se apaixona vira conflito interno. Mas Mayte? Mayte pensa, planeja, e decide. O problema é que coração não respeita planejamento. Ele aparece atrás da gente. Passo firme. — Mayte, teu pai quer falar contigo. Formal, e distante. Mas o olhar… o olhar não é de funcionário, é de homem segurando coisa demais, ela sustenta o olhar dele por um segundo a mais do que devia. Eu vejo, talvez até alguém da varanda veja. E esse é o tipo de segundo que vira comentário, ela passa por ele. Os ombros quase se encostam. Quase. Ele fecha os punhos discretamente. Eu noto. Porque eu tô prestando atenção. Sempre. Quando ela some pra dentro da casa, eu paro na frente dele. — Tu sabe onde tá pisando? — eu pergunto. Ele me encara, sem arrogância. Só firme. — Sei. Mentira. Ele sabe do risco, mas não sabe da dimensão. — Então pisa leve — eu digo. — Porque se esse chão rachar, não vai ser só tu que cai. Ele segura meu olhar. E pela primeira vez eu vejo algo diferente ali, não é só tensão, é decisão nascendo. Isso me arrepia. Porque decisão muda destino, e quando dois decidem ao mesmo tempo… Não tem muralha que segure. Eu olho pro alto da casa principal, luz acesa no escritório, o dono do jogo acordado. Observando. E se eu tô vendo os olhos que não desviam… Eu só rezo pra ele ainda não ter visto também. Porque no dia que ele enxergar o que eu enxerguei hoje… O morro inteiro vai sentir.
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