Mayte narrando
Acordei cedo demais pra um sábado, mas minha cabeça não desligou a noite inteira. Toda vez que eu fechava o olho, vinha uma cena diferente: Luly chorando na minha sala… meu pai desviando das respostas… e o Magrão me beijando no corredor.
Respirei fundo olhando o teto.
Hoje é dia de baile, e quando tem baile no morro, ninguém pode parecer quebrado.
Muito menos eu.
Levantei da cama ainda com aquela sensação pesada no peito. Fui pro banheiro, joguei água no rosto e fiquei alguns segundos me olhando no espelho, olheira de leve, mas o olhar firme.
Dá pra sustentar.
Hoje eu não vou ser a Mayte que tá confusa, eu vou ser a Mayte que todo mundo conhece. A que não deixa ninguém ver rachadura, amarrei o cabelo num coque alto, coloquei um short, camiseta larga e peguei a chave, eu precisava de uma roupa nova pro baile.
Algo que gritasse presença.
Desci o morro andando mesmo, manhã ainda tava acordando, padaria abrindo, as motos subindo com entrega. Som de funk baixo saindo de uma janela.
Vida normal.
E eu precisava disso.
Normalidade.
Quando cheguei mais perto da parte do asfalto, vi uma figura saindo da rua lateral, eu reconheceria aquele jeito de andar em qualquer lugar.
Luly.
Meu corpo travou antes da mente processar, ela também me viu.
E parou.
Ficamos as duas no meio da calçada, sem dar um passo, e sem falar nada. O mundo continuou se mexendo em volta da gente, carro passando, e gente atravessando. Mas ali parecia que o tempo segurou. Ela tava com o cabelo preso meio bagunçado, camiseta larga, cara de quem também não dormiu direito, os olhos dela estavam vermelhos, ela abriu a boca como se fosse falar.
Mas não saiu som.
Eu também não falei nada, porque às vezes palavra nenhuma resolve, e a verdade é que eu não sabia se queria ouvir, ou se queria gritar, então ficamos ali.
Só olhando.
Anos de amizade passando silenciosamente entre nós duas, ela engoliu seco.
— Mayte…
Minha reação foi levantar a mão devagar, não pra afastar, mas pra pedir silêncio. Eu ainda não tava pronta.
Ela entendeu.
Porque Luly sempre me entendeu antes mesmo de eu terminar frase, os olhos dela encheram d’água de novo, aquilo bateu em mim.
Forte.
Mas eu mantive postura, e respirei fundo.
— Eu vou comprar roupa pro baile — falei finalmente.
Minha voz saiu neutra, fria até.
Ela assentiu devagar.
— Eu sei.
Silêncio de novo.
Eu dei dois passos pra passar por ela, quando fiquei lado a lado, ela falou baixo:
— Eu nunca quis te machucar.
Aquilo me fez parar, não olhei pra ela de imediato, fiquei encarando a rua.
— Mas machucou.
Ela não tentou negar.
— Eu sei.
Respiração pesada.
— Eu queria ter te contado.
Eu virei devagar agora.
— Queria… ou devia?
Pergunta direta, ela não respondeu, porque sabia a resposta. Os olhos dela caíram pro chão.
— Eu fiquei com medo de te perder.
Eu soltei uma risada curta.
Sem humor.
— Engraçado.
Ela levantou o olhar.
— Por quê?
— Porque foi exatamente isso que aconteceu.
O silêncio entre nós ficou ainda maior, mas não tinha mais grito preso ali.
Só verdade.
Ela passou a mão pelo rosto.
— Eu não sei como consertar isso.
Eu também não, mas não falei, só respirei fundo.
— Hoje tem baile.
Ela assentiu.
— Eu sei.
— E hoje… a gente não faz isso aqui virar espetáculo.
Os olhos dela encontraram os meus, ela entendeu o que eu quis dizer, a gente pode estar quebrada, mas o morro não precisa ver.
— Tá — ela disse baixo.
Mais um silêncio, eu comecei a andar de novo, dessa vez passei por ela, dei alguns passos. Mas antes de virar a esquina eu ouvi a voz dela.
Baixinha.
Quase quebrando.
— Eu ainda te amo como amiga.
Aquilo ficou no ar, eu não respondi. Não porque não senti, mas porque ainda dói demais pra dizer qualquer coisa de volta.
Eu virei a esquina sem olhar pra trás, não porque eu não quis, porque se eu olhasse… talvez eu voltasse. E hoje eu não podia voltar, respirei fundo enquanto caminhava em direção às lojas do asfalto, o movimento já tava começando a crescer, gente indo trabalhar, moto passando, vendedor abrindo porta de loja.
Tudo normal.
E eu tentando parecer normal também, mas minha cabeça tava longe dali.
A voz da Luly ainda ecoava.
— Eu ainda te amo como amiga.
Aquilo mexeu comigo mais do que eu queria admitir, porque o problema nunca foi amor, o problema foi mentira.
Confiança quebrada.
E quando confiança quebra… não tem remendo rápido, cheguei na mesma boutique que eu sempre vinha, empurrei a porta e o sininho tocou.
— Mayte! — a vendedora abriu um sorriso. — Sabia que você vinha hoje.
— Dia de baile, né — respondi.
Ela riu.
— O morro inteiro vai passar por aqui hoje.
Eu comecei a olhar os cabides.
Vestido vermelho, conjunto de brilho, e saia com f***a. Mas nada tava chamando minha atenção de verdade, minha cabeça tava rodando em outra coisa. No beijo com o Magrão, o olhar do meu pai quando viu, na Luly parada na calçada agora há pouco, era muita coisa embolada.
— Quer provar aquele que chegou ontem? — a vendedora perguntou.
— Qual?
Ela puxou um vestido preto da arara.
Elegante.
Decote na medida certa, tecido firme que desenhava o corpo. Eu olhei no espelho e imaginei ele no baile, luz batendo, o som alto, o olhar das pessoas.
Presença.
— Esse aqui grita liderança — ela comentou.
Eu dei um meio sorriso.
— É isso que eu preciso hoje.
Peguei o vestido.
— Vou provar.
Entrei no provador e fechei a cortina. Enquanto trocava de roupa, minha cabeça voltou pro corredor do escritório.
Pro beijo.
Pro momento que tudo saiu do controle.
Eu não tinha planejado aquilo, não tinha pensado, só aconteceu, e o pior é que… Não pareceu errado na hora. Quando eu saí do provador, a vendedora arregalou os olhos.
— Caramba.
Eu me virei pro espelho, o vestido encaixou perfeito. Cintura marcada, o tecido brilhando de leve, e postura forte. A versão da Mayte que o morro respeita, nas o olhar no espelho… Ainda tava cansado.
— Eu levo — falei.
— Sabia — ela riu.
Enquanto ela passava no caixa, eu fiquei olhando pela vitrine da loja, a vida acontecendo, e me veio uma sensação estranha, hoje à noite todo mundo vai sorrir, vai dançar. O baile vai parecer perfeito, mas por trás…Tem coisa se movendo.
Ribeiro desaparecido.
Contato estranho rondando, meu pai escondendo coisa, e minha melhor amiga envolvida com ele. Agora… O Magrão.
Respirei fundo.
Peguei a sacola com o vestido.
— Vai ser o baile do ano — disse a vendedora.
Eu olhei pra rua antes de sair.
— Vai mesmo.
Mas não falei aquilo com entusiasmo, falei como quem sabe que noites importantes… Quase nunca terminam tranquilas. E alguma coisa dentro de mim tava avisando, hoje não vai ser só festa, hoje… Alguma coisa vai acontecer.