Segredo tem prazo

1303 Words
Mayte Narrando Segredo é igual rachadura em parede, no começo, quase invisível, depois começa a incomodar. Quando você percebe… já comprometeu a estrutura. Eu sempre fui boa em esconder o que sinto, cresci aprendendo que emoção exposta vira vulnerabilidade, e vulnerabilidade, no topo, vira alvo. Mas o que tá acontecendo entre mim e Magrão não é mais só sensação m*l resolvida. É silêncio compartilhado. Depois da noite do confronto, tudo ficou diferente, não no jeito que a gente age, no jeito que a gente sente. Ele mantém distância estratégica nas reuniões, fala comigo olhando direto, mas nunca prolonga o contato, formal demais, só que eu conheço o ritmo dele, e quando alguém força frieza, é porque tá combatendo calor. Meu pai anda observando mais. Não pergunta à toa, não muda posicionamento sem motivo, ele reorganizou funções essa semana, aumentou minha responsabilidade na logística e colocou Magrão em campo mais tempo do que o normal. Teste. Ele tá testando, e eu sei. O problema é que quanto mais tentam nos separar na estrutura… mais consciente eu fico da presença dele. Hoje à noite, eu subi pra laje. É o único lugar onde o morro parece menor do que as decisões que a gente precisa tomar. Eu sabia que ele ia aparecer, não porque combinamos, mas porque a tensão também precisa respirar, ele demorou alguns minutos. Quando subiu, não chegou perto demais. Nunca chega. — Isso não pode continuar assim — ele disse primeiro. Direto. Eu encarei o horizonte. — Assim como? — No quase. Engraçado, ele usando a mesma palavra. — Você quer que eu finja que não aconteceu nada? — perguntei. — Eu quero que isso não destrua tudo. A resposta veio pesada. Eu virei pra ele. — E você acha que sentimento destrói? Ou a falta de coragem de assumir? Ele fechou o maxilar, a guerra interna dele é visível, sempre foi disciplinado demais pra perder controle. Mas eu não me apaixonei por disciplina, eu me apaixonei pela intensidade contida. — Se alguém descobre antes da hora — ele continuou — vira arma. Ele tá certo, aqui nada é só pessoal, tudo é estratégico. Eu dei um passo na direção dele. — Então a gente escolhe o momento. Ele me olhou como se eu tivesse sugerido atravessar fogo. — Isso não é jogo de tempo, Mayte. — Tudo é jogo de tempo. Eu fui criada por um estrategista, eu sei que decisões precipitadas custam caro, mas também sei que segurar demais pode explodir na hora errada. — Segredo tem prazo — eu falei mais baixo. — Ou ele vira escândalo. O vento bateu forte na laje, o silêncio entre a gente não era mais de negação, era de consciência. Ele se aproximou um pouco. Ainda sem tocar. — Se eu cruzar essa linha — ele disse — não tem volta. Eu sustentei o olhar. — Eu nunca quis que tivesse. Ali, naquele segundo, não tinha morro, não tinha cargo, nem hierarquia. Só dois adultos entendendo exatamente o tamanho da escolha, mas escolha no topo não é só sobre sentir, é sobre consequência. Lá embaixo, uma porta bateu, passos ecoaram. O mundo lembrando que a gente nunca tá sozinho, ele recuou primeiro. Sempre ele. — Eu não vou ser teu ponto fraco — ele disse. Eu quase sorri. — Você já é meu ponto forte. Ele me encarou como se aquilo fosse ainda mais perigoso, e talvez fosse. Porque se existe algo capaz de derrubar império… É quando duas peças fortes decidem jogar pelo próprio coração. Eu fiquei na laje depois que ele desceu, o morro parecia o mesmo. Mas não estava. Eu sei que meu pai sente mudança no ar, eu sei que Luly já percebeu demais, e que os olhares estão ficando difíceis de disfarçar. E eu também sei de uma coisa com clareza absoluta: Isso não vai durar escondido por muito tempo. Segredo tem prazo. E o nosso… já começou a contar. Eu desci da laje quando o frio começou a ficar maior que o orgulho, cada degrau parecia um lembrete: eu não sou só filha, eu sou herdeira, e herdeira não pode errar. No corredor, a luz do escritório do meu pai ainda estava acesa. Claro que estava. Augusto Soberano nunca dorme antes de ter certeza de que o tabuleiro está organizado. Bati na porta. — Entra. A voz dele nunca oscila. Entrei mantendo a postura, os ombros firmes, a expressão neutra, e o controle é idioma oficial nessa casa. Ele não levantou a cabeça de imediato, terminou de assinar um documento, só depois me olhou. E quando ele olha… ele não vê superfície, ele lê entrelinhas. — Tu subiu pra laje — ele disse, como quem comenta o clima. Não era pergunta. — Subi. Silêncio. Ele inclinou levemente a cabeça. — Pensando? — Sempre. Um quase sorriso apareceu no canto da boca dele, orgulho e cálculo misturados. — Pensar demais também cria ruído. A frase veio suave, mas foi direcionada. Eu sustentei o olhar. — Ruído vem de falha de comunicação. Ele se recostou na cadeira, ali era teste. Sempre é. — E você acha que estamos com falha de comunicação, Mayte? Eu respirei uma vez só — Acho que o senhor está reorganizando o tabuleiro. Ele ficou alguns segundos me encarando. Avaliação completa. — E tu se sente deslocada? — Não. Verdade, eu me sinto observada. Existe diferença. Ele levantou, caminhou até a janela. Mãos para trás. Postura de quem construiu tudo aquilo do zero. — Confiança é o ativo mais caro que existe — ele disse. — Quando duas peças começam a se mover diferente… eu preciso entender se é estratégia ou distração. Peças. Não pessoas, eu entendi o recado. — Eu nunca seria distração — respondi firme. Ele virou o rosto de leve. — Eu sei. Mas ele não falou o nome de Magrão. E isso foi ainda mais significativo. Porque quando meu pai evita citar alguém… é porque já está analisando demais. — Você confia nele? — ele perguntou. Direto. Sem aviso. Meu coração não acelerou. Aprendi a não deixar isso acontecer. — Confio. Ele sustentou meu olhar por tempo suficiente pra medir qualquer micro reação. — Então garanta que ele continue merecendo. Foi a frase mais perigosa da noite, porque significava duas coisas: Meu pai ainda está no campo da hipótese, ou já sabe… e está me dando chance de corrigir. Eu saí do escritório com a sensação de que o prazo encurtou. Muito. No corredor, encontrei Luly encostada na parede, como quem não quer nada. Ela me olhou de cima a baixo. — Climinha estranho hoje, né? Ela sabe, talvez não tudo. Mas o suficiente. — Você anda sorrindo menos — ela completou. Eu respirei pelo nariz. — Responsabilidade aumenta. Ela arqueou a sobrancelha. — Ou o coração pesa. Direta demais. Eu segurei o braço dela antes que continuasse. — Cuidado com o que você acha que vê. Ela me analisou por um segundo. — Eu sempre tomo cuidado, só espero que você também esteja. E saiu. Avisos estão vindo de todos os lados, meu pai observando. Luly percebendo. Magrão tentando manter distância. E eu… Eu estou cansada de fingir que isso é só tensão m*l resolvida, se fosse só desejo, passava. Mas não é. É escolha, e escolha grande nunca passa despercebida. No meu quarto, eu fechei a porta e me encostei nela, pela primeira vez na noite, deixei a máscara cair. Não de fraqueza. De verdade. Eu sei o que quero, sei o risco, e sei que, quando isso vier à tona, não vai ser sussurro. Vai ser impacto. Segredo tem prazo, e agora não é mais questão de se. É questão de quando, e quando esse momento chegar… A gente vai sustentar o que sente, ou vai provar que nunca foi forte o suficiente pra enfrentar o próprio império.
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