Luly narrando
Eu fechei a porta depois que a Mayte saiu e minhas pernas simplesmente cederam, eu sentei no chão da sala mesmo. Sem aquela versão segura que eu sempre mostro, ela me olhou como líder, mas doeu como amiga, e o pior é que ela tava certa.
Eu escondi.
Não porque quis competir, nem porque quis trair. Eu escondi porque eu nunca soube como contar que me apaixonei pelo homem que sempre foi o centro da vida dela, isso não tem manual, não tem jeito bonito de dizer.
— Amiga, eu amo seu pai.
Não sai.
Não encaixa.
E agora saiu da pior forma possível, eu chorei de verdade, sem glamour, e sem drama ensaiado. Chorei porque vi o olhar dela mudar, não foi raiva, foi a decepção, e decepção é pior. Eu levantei do chão e fui direto pro quarto, peguei o celular.
Fiquei encarando o nome dele na tela.
Augusto.
Contato salvo sem sobrenome, discreto demais pra quem vive algo tão intenso.
Eu digitei.
Apaguei.
Digitei de novo.
— Isso precisa parar.
Enviei antes de ter coragem de repensar, ele visualizou rápido, sempre visualiza rápido.
— Parar o quê?
Eu respirei fundo.
— Isso, a gente, os encontros escondido, e as mensagens apagada.
Demorou poucos segundos.
— Tu tá nervosa por causa dela.
Não era pergunta.
Era afirmação.
— Ela sabe.
A resposta demorou mais dessa vez.
— Ela foi aí?
— Sim
Silêncio digital.
Depois:
— E?
Eu fechei os olhos antes de responder.
— Eu decepcionei ela.
A resposta veio seca.
— Tu não deve satisfação da sua vida.
Eu senti a lágrima cair de novo.
— Eu devo pra ela.
Demorou.
— Desde quando tu vive pelo julgamento dos outros?
Aquilo me irritou.
— Não é julgamento, é confiança.
Ele não respondeu por alguns minutos, o silêncio dele sempre pesa.
Depois:
— Eu tô indo aí.
Meu coração disparou.
— Não vem.
— Eu já tô no carro.
Eu digitei rápido.
— Augusto, não faz isso.
Sem resposta.
Eu comecei a andar de um lado pro outro na sala, era sempre assim, quando eu tentava colocar limite, ele atravessava, não por desrespeito, pela intensidade.
Batida na porta.
Meu estômago virou.
Eu abri.
Ele entrou sem esperar convite, olhar sério, a postura de quem tá acostumado a resolver tudo no comando, mas aqui não é o morro, aqui é minha casa, mesmo que seja dentro do morro.
— Ela foi aqui — ele disse direto.
— Foi.
— O que tu falou?
— A verdade.
Ele me encarou.
— Qual parte?
— Que ainda existe sentimento.
O maxilar dele travou levemente.
— Tu falou isso?
— Eu não consegui mentir.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Luly…
— Não faz esse tom comigo.
Ele se aproximou.
— Tu acha que isso resolve parando de me ver?
Eu respirei fundo.
— Resolve a parte da mentira.
— E a parte do que a gente sente?
Silêncio.
Eu desviei o olhar.
— Sentimento não justifica tudo.
Ele segurou meu queixo de leve, fazendo eu olhar pra ele.
— Desde quando tu ficou tão racional?
— Desde que eu vi o olhar dela hoje.
Ele soltou devagar.
— Ela é forte.
— Ela é minha amiga.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— E eu?
A pergunta saiu mais baixa, eu senti o peso.
— Você é o homem que eu amo.
A verdade finalmente inteira, sem gaguejar, ele se aproximou mais.
— Então para de falar em acabar.
— Eu não quero acabar porque deixou de ser real, eu quero acabar porque tá errado.
— Errado pra quem?
— Pra ela.
Ele respirou fundo.
— Eu não vou fingir que não sinto nada.
— Eu também não.
— Então não me pede pra sair da sua vida.
Eu senti outra lágrima cair.
— Eu tô pedindo pra sair do escondido.
Ele franziu a testa.
— Tu quer assumir isso agora? Depois do que aconteceu?
Eu fiquei muda.
Assumir significava terremoto, parar significava ruptura, continuar escondido significava corroer amizade. Eu nunca me senti tão presa.
— Eu não sei o que fazer — eu sussurrei.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos agora.
— A gente não é erro.
Eu fechei os olhos.
— Mas parece.
Silêncio pesado entre nós.
— Eu não vou aceitar que tu termine algo que não começou errado — ele disse firme.
— Começou escondido.
— Porque o mundo não tava pronto.
Eu abri os olhos.
— Ou porque a gente não teve coragem.
Ele não respondeu, só me puxou pra perto, eu encostei no peito dele e chorei de novo.
Não era drama, era conflito real.
Nada ali era simples, e enquanto ele me segurava, eu soube de uma coisa: Parar não vai ser fácil, mas continuar… Vai custar caro. E pela primeira vez, eu não sei qual preço dói mais, eu ainda tava com o rosto encostado no peito dele quando o silêncio mudou de peso. Não era mais discussão, era a tensão.
Daquela que fica no ar, densa, difícil de ignorar.
Ele deslizou a mão pelas minhas costas devagar, como se estivesse me acalmando. Mas o toque tinha outra coisa ali, algo que eu conhecia bem demais.
Eu respirei fundo.
— A gente não devia… — eu comecei.
Ele afastou só o suficiente pra olhar nos meus olhos.
— Tu quer que eu vá embora?
A pergunta veio baixa, quase um desafio.
Eu não respondi.
Porque a verdade estava na minha respiração acelerada, na forma como minhas mãos ainda seguravam a camisa dele. Ele passou o polegar pelo meu rosto, limpando o rastro de lágrima.
— Para de lutar contra o que tu sente — ele murmurou.
Eu devia ter dado um passo pra trás, ter criado distância, mas eu fiz o oposto, me aproximei. A boca dele tocou a minha com cuidado primeiro, como se me desse escolha, e eu correspondi.
Sem hesitar dessa vez.
O beijo começou lento, e tenso. Cheio de coisa acumulada, a culpa misturada com desejo, e a saudade misturada com medo. Mas bastou alguns segundos pra ficar mais intenso. A mão dele segurou minha cintura com firmeza, a outra subiu pelo meu pescoço, prendendo meu rosto como se quisesse garantir que eu não fugisse.
Eu senti o coração disparar.
— Isso não ajuda — eu sussurrei contra a boca dele.
— Eu sei — ele respondeu, antes de me beijar de novo.
Dessa vez sem espaço pra argumento. Eu empurrei ele de leve até a parede, ou talvez ele tenha me conduzido, só sei que a distância entre razão e impulso desapareceu. A mão dele desceu pelas minhas costas, lenta, segura, meu corpo reagiu antes da minha consciência acompanhar.
Eu agarrei a camisa dele com mais força.
— Augusto… — saiu como aviso e pedido ao mesmo tempo.
Ele encostou a testa na minha.
— Se for pra parar, fala agora.
Eu fechei os olhos.
Eu podia sentir o calor dele, a respiração descompassada, o conflito ainda estava ali, mas o desejo também. Eu beijei ele de novo como resposta.
Mais entregue.
Ele me levantou com facilidade, me segurando contra a parede por um segundo que pareceu suspenso no tempo, o beijo desceu pelo meu pescoço, lento, provocando arrepio que correu pelo meu corpo inteiro.
Eu segurei no cabelo dele, não era só físico, era a descarga de tudo que a gente vinha segurando, meses de encontro escondido, de mensagem apagada, das despedida que nunca era definitiva. Ele voltou pra minha boca, mais intenso agora. Mas ainda assim… atento, como se soubesse que o limite ali não era só pele.
Eu respirei fundo e encostei a testa na dele de novo.
— A gente tá complicando tudo — eu falei, ofegante.
— Eu sei.
— E mesmo assim você fica.
— Eu fico.
Silêncio.
O tipo de silêncio que não resolve nada, mas confirma escolha. Ele me colocou no chão devagar, passou a mão pelo meu rosto mais uma vez.
— Eu não vou fugir disso.
Eu olhei pra ele.
— E eu não sei se consigo sustentar.
Ele encostou a testa na minha.
— Então a gente sustenta junto.
Eu queria acreditar que era simples assim.
Mas não era.
Ainda assim, quando ele me puxou pra um abraço apertado, eu não resisti. Porque entre culpa e desejo…Eu ainda escolho ele, e isso é exatamente o que mais me assusta.