Quem segura o jogo

1859 Words
Augusto narrando No morro, notícia não anda, ela voa. Antes do sol esquentar direito o asfalto, eu já sabia que a Mayte tinha encontrado a Luly na rua, ninguém me contou direto, mas o clima entrega. Quando algo mexe com a filha do dono, a vibração do morro muda. Eu tava no escritório, café já frio na mesa, olhando o movimento lá embaixo. Magrão tinha saído cedo pra revisar a estrutura do baile. Darlan tava organizando entrada, bebida, essas coisas. Tudo rodando. Mas minha cabeça tava em outro lugar, naquela foto, na cara da Mayte quando ela entrou aqui ontem com ela na mão, na forma como ela me olhou, não como filha, mas como líder tentando entender se o próprio pai tava escondendo peça do tabuleiro. Porque guerra de fora você resolve com estratégia, agora guerra dentro de casa… isso exige outro tipo de controle. Peguei o celular. Mensagem da Luly mais cedo. — Ela me encontrou hoje. Eu sabia que ia acontecer uma hora. Mayte não é boba. Ela pode demorar pra ligar os pontos, mas quando liga… já chega com a equação inteira resolvida. Encostei na cadeira e soltei o ar devagar. — Complicou, chefe? A voz veio da porta. Darlan. Braço cruzado, olhar curioso. — Nada que não dê pra administrar — eu respondi. Ele entrou, fechando a porta. — O morro tá sentindo tensão. — Morro sempre sente. — Mas hoje tá diferente. Claro que tá, baile grande, mudança recente, peça cortada da estrutura, e agora drama pessoal no topo da cadeia. Tudo junto. Mistura perigosa. — Segurança tá pronta? — perguntei. — Tá. — Entrada organizada? — Magrão já alinhou. Eu assenti devagar. — Então deixa o povo falar. Darlan me olhou de lado. — Isso não é sobre o baile, né? Eu soltei um meio sorriso. — Nunca é só sobre o baile. Ele ficou em silêncio alguns segundos, depois falou mais baixo. — É sobre a Luly. Direto. Sempre gostei disso nele. Sem rodeio. — É. — E a Mayte descobriu. — Descobriu parte. Ele respirou fundo. — Isso pode virar problema. Eu levantei da cadeira e fui até a janela, lá embaixo o morro tava acordado de vez. Som de música já testando caixa. — Problema vira quando a gente perde controle da narrativa — eu falei. — E tu perdeu? Pergunta ousada, mas justa. Eu fiquei alguns segundos olhando a rua antes de responder. — Ainda não. Ele assentiu. — Vai contar pra ela? Pergunta pesada, porque aqui não é só pai e filha. É chefe e sucessora. — Não hoje. — Por causa do baile. — Por causa do momento. Ele entendeu. — E a Luly? Eu passei a mão no rosto. — Tá tentando se afastar. Darlan arqueou a sobrancelha. — E tu? — Não aceitei. Ele soltou um assobio baixo. — Isso vai dar barulho. — Só se alguém fizer barulho. Silêncio curto. Ele olhou pra mim de lado. — E a Mayte? Essa pergunta ficou mais pesada que as outras, porque eu conheço minha filha. Quando ela se sente traída… ela não explode. Ela esfria. E frieza é coisa que eu mesmo ensinei. — Ela tá machucada — eu falei. — Mas tá forte. — Ela sempre foi. Darlan deu um meio sorriso. — Puxou tu. Eu balancei a cabeça devagar. — Puxou o que aprendeu comigo. Mas tem coisa que eu não ensinei. Tipo lidar com o fato de que o pai dela se envolveu com a melhor amiga dela, isso não tem manual. Eu voltei pra mesa, peguei o rádio. — Magrão. Chiado rápido. — Fala, chefe. — Como tá a rua? — Estrutura quase pronta, som chegando agora. — Beleza. Pausa curta. — E a Mayte? Ele demorou meio segundo. — Tá rodando pelo asfalto. — Comprando roupa? — Provavelmente. Eu assenti mesmo sabendo que ele não tava vendo. — Fica de olho. — Sempre. Desliguei. Darlan me encarou. — Tu confia muito nele. — Confio. — Mais do que em muita gente antiga. — Porque ele não joga escondido. Darlan deu de ombros. — Pelo menos não ainda. Eu ri curto. — Aqui ninguém dura muito se jogar contra mim. Silêncio breve. Mas minha cabeça voltou pra mesma imagem. Mayte e Luly se olhando na rua hoje cedo, eu conheço minha filha, ela vai segurar postura no baile. Vai parecer inabalável. Mas por dentro… eu sei que ela tá reorganizando tudo. E quando a Mayte reorganiza coisa dentro da cabeça dela… Alguma peça sempre muda de lugar, a pergunta agora não é se vai ter impacto. É onde. E enquanto eu encarava o movimento do morro lá embaixo, uma coisa ficou clara pra mim. O baile de hoje não vai ser só festa, vai ser termômetro. Se o morro dança tranquilo… significa que o comando continua sólido. Mas se tiver qualquer sinal de tensão…Qualquer olhar errado, conversa atravessada. Eu vou saber na hora, porque quem segura o jogo aqui sou eu, e jogo nenhum sai do controle sem eu perceber. Mesmo quando o problema começa dentro da própria casa. Quando o sol começou a baixar, o morro já tava em outro ritmo. Som testando grave, barraca montando, luz sendo puxada de um poste pro outro. Aquela correria típica de dia de baile, eu fiquei mais um tempo no escritório, observando tudo de cima. Lá de cima dá pra sentir o clima. Não é só olhar. É leitura. Hoje tava tudo rodando… mas com uma tensão leve no ar, tipo quando o céu fica pesado antes da chuva, nada explodindo, mas todo mundo sentindo. Eu peguei a jaqueta, ajeitei o relógio no pulso e desci, quando o dono aparece no baile, não é só presença. É mensagem. A escada do escritório desce direto pro corredor que dá na rua principal, o grave do som já tava batendo no peito antes mesmo de eu chegar lá fora. Pisei na rua e o clima mudou na hora. — E aí, chefe! — Salve, Augusto! — Hoje vai ser pesado! Eu só acenava de leve. Sem exagero. Líder que aparece demais vira espetáculo, e espetáculo enfraquece autoridade. Fui caminhando devagar pelo meio da rua, observando tudo. Equipe de segurança posicionada, a entrada organizada. Darlan tava mais à frente, coordenando revista, quando ele me viu, só fez um gesto curto com a cabeça. Tudo sob controle. Do outro lado, Magrão tava falando com o pessoal do som, apontando pra estrutura da caixa maior, o moleque tava focado. Trabalhando. Mas não fui até ele ainda, queria primeiro sentir o ambiente. Passei por um grupo de gente dançando perto da barraca de bebida, mais gente chegando do asfalto, som subindo cada vez mais forte. Baile cheio. Do jeito que tem que ser, só que no meio da multidão eu vi ela. Luly. Encostada perto da lateral da rua, perto da parede onde a luz do poste bate meio fraca, vestido preto simples, e o cabelo solto. Ela tava conversando com duas meninas, mas o olhar dela tava perdido em outro lugar. Quando ela levantou os olhos… Me viu. Eu vi o exato segundo em que ela me reconheceu, mas no mesmo segundo… Ela virou o rosto. Como se não tivesse visto, continuou falando com as meninas. Rindo até. Forçado. Aquilo me fez soltar um ar pelo nariz, ela tava tentando manter distância, depois da conversa de ontem, eu fiquei parado uns segundos observando, ela não olhou de novo. Nem uma vez. Boa tentativa. Mas eu conheço cada gesto dela, o jeito que ela mexe no cabelo quando tá nervosa, que ela cruza os braços quando quer parecer indiferente, ela tava atuando, e m*l. Eu comecei a andar na direção dela. Sem pressa, e sem chamar atenção. Quando eu cheguei perto o suficiente, uma das meninas que tava com ela me viu primeiro. — Augusto! Na hora as duas se endireitaram, respeito automático, mas Luly… continuou olhando pra frente, como se eu fosse invisível. Eu parei do lado. — Boa noite. As meninas responderam rápido. — Boa noite! — O baile tá lindo! Eu só assenti. — Aproveitem. Mas meus olhos estavam nela, ela respirou fundo devagar, e só então virou o rosto. Olhou pra mim. Neutra, e distante. — Boa noite. Fria. Aquilo quase me fez rir. — Tá se divertindo? — Tô. Mentira. Eu conheço ela bem demais pra cair nisso. — Parece. Ela cruzou os braços. — O baile tá cheio. — Era a ideia. Silêncio curto entre nós. As duas meninas sentiram o clima estranho na hora. — A gente vai pegar bebida — uma delas falou rápido. — Já volto. Mentira óbvia. As duas sumiram na multidão, agora era só nós dois. Som pesado batendo no fundo, gente dançando, as luz piscando. E ela ali na minha frente… fingindo que eu era só mais um. — Vai continuar me ignorando? — eu falei baixo. Ela soltou o ar. — Eu não tô te ignorando. — Tá sim. — Eu só tô… mantendo distância. — Desde quando você faz isso? Ela me olhou sério. — Desde que tudo ficou complicado. Eu dei um passo mais perto. — Complicado sempre foi. — Agora é diferente. Silêncio rápido. — Por causa da Mayte — eu falei. Ela desviou o olhar. — Por respeito a ela. Aquilo bateu diferente, eu encostei de leve na parede do lado dela. — E o que você acha que fingir que eu não existo vai resolver? Ela demorou alguns segundos antes de responder. — Pelo menos não piora. — Pra quem? Ela levantou o olhar de novo. — Pra todo mundo. Eu balancei a cabeça devagar. — Tu tá tentando controlar uma coisa que já saiu do controle. Ela ficou quieta. — Ela te encontrou hoje — eu continuei. — Encontrou. — E? — E doeu. Resposta direta. — Eu imaginei. Ela passou a mão no braço, como se estivesse com frio, mesmo com o calor do baile. — Eu não queria que fosse assim. — Nem eu. Silêncio pesado entre nós. O som aumentou de repente quando o DJ trocou a música, o grave fez a rua vibrar, ela olhou pro meio do baile, gente pulando, rindo, vivendo. — Olha isso — ela falou baixo. — Todo mundo feliz. — Esse é o objetivo. Ela virou pra mim. — E tu consegue mesmo separar tudo assim? Pergunta séria. Eu sustentei o olhar dela. — Aprendi a separar. Ela balançou a cabeça devagar. — Eu não sei fazer isso. — Tu aprende. — Ou quebra tentando. Eu fiquei em silêncio alguns segundos, depois falei baixo. — Tu não vai fingir que não me viu a noite inteira. Ela respirou fundo. — Eu vou tentar. Eu dei um meio sorriso. — Não vai conseguir. Ela quase sorriu. Quase. Mas segurou. E naquele momento eu percebi uma coisa, o baile tava acontecendo, o morro tava dançando, a estrutura tava firme. Mas o jogo real… não tava na pista, tava aqui, entre três pessoas. Eu. Minha filha. E a melhor amiga dela. E dependendo de como essa história se mover… A rachadura pode crescer, ou explodir, e baile nenhum no mundo abafa isso pra sempre.
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